Tradução: «cumbre»

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Cimeiras e baixeiras


Dizia o original, de uma clareza meridional: «Fue un gran honor para ella ser elegida como uno de los cincuenta delegados de organizaciones no lucrativas en la cumbre presidencial sobre el futuro de América; recientemente ha sido designada como “luz del día”.» O tradutor arriscou: «Foi uma grande honra para ela ser eleita um dos cinquenta delegados de organizações sem fins lucrativos no auge presidencial sobre o futuro da América; recentemente foi designada como “luz do dia”.» Como foi na administração Clinton, auge, clímax, bem… É pecha bem conhecida: quando se trata de traduzir alguma palavra que desconhecem, alguns tradutores não passam da primeira acepção que lêem no dicionário. Claro que cumbre, que vem do latim culmen, -ĭnis, é «cimo», «auge» — mas não no contexto, caramba. Cumbre ou conferencia cumbre também é «reunión de máximos dignatarios nacionales o internacionales para tratar asuntos de especial importancia».

Léxico: «categute»

Cose-te com estas linhas

«Anything can be said about anything»,
George Steiner


      Anteontem, ouvi na Antena 1 uma médica falar da «consulta de revisão» de uma mulher que dera à luz um mês antes. O marido desta queixava-se de que lhe sentia na vagina como que uns dentes. A médica rira-se, confessou. (A modéstia fica bem, mas aos outros.) Estupidamente, veio depois a saber-se, porque, às vezes, como diz Joaquim Manuel Magalhães, o que não é possível põe-se a acontecer: a mulher tinha mesmo lá uns «dentes»: o seu organismo não absorvera os pontos de catgut, como normalmente acontece. Catgut, pois. Ainda recentemente alguém me disse que «categute» (como está aportuguesado e prefiro) era um termo desusado. Pois, pois. Catgut, literalmente, é «intestino de gato» (de cat, gato + gut, intestino), mas na verdade é um fio de colagénio feito — sobretudo na Índia, país que fornece igualmente metade da encomenda anual de vacinas das Nações Unidas, que são administradas a dezenas de milhões de crianças dos países em desenvolvimento — a partir da serosa (tripa) bovina, sendo considerado um material absorvível. A forma antiga da palavra era kitgut (de kit, pequeno violino + gut, intestino), pois o material também é usado para cordas de instrumentos musicais, e em especial para violinos.
      «Categute, m. (do inglês catgut). Fio animal, geralmente de tripa de carneiro, usado em ligaduras e suturas» (Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado). A Academia das Ciências de Lisboa extraviou, infelizmente, este verbete.


Bode expiatório

Vai para longe

Contaram-me, certa vez, que um homem pernóstico de Ferreira do Alentejo (ou seria de Grândola?) dizia convictamente «bode respiratório». Um dia tinha de acontecer: um tradutor escreveu «bode expiratório», o que constitui uma aproximação muito razoável. Dizia o original: «Buscar un cabeza de turco: no le gustaría a outra persona (por ejemplo, de la oficina central).» E a tradução: «Procurar um bode expiratório: não agradaria a outra pessoa (por exemplo, do escritório central).» Esta é a oportunidade para dizer que os termos inglês e francês são muito mais claros, quase auto-explicativos: scapegoat e bouc émissaire. Em espanhol também se diz chivo expiatorio. A explicação está na Bíblia, em Levítico 16: 8-10: «Aarão tirará à sorte os dois bodes: um para o Senhor e outro para Azazel. Aarão deverá oferecer ao Senhor o bode que a sorte designou para tal, apresentando-o em sacrifício pelo pecado; e o bode, que a sorte designou para Azazel, deverá ser apresentado vivo diante do Senhor, a fim de fazer sobre ele o rito da purificação e ser enviado a Azazel, no deserto.» Era pois por meio de um bode que os Judeus expiavam as suas culpas diante do Senhor. Como o bode era carregado, no Dia do Perdão, com as culpas dos homens e enviado para o deserto, a expressão passou a designar o inocente sobre quem recaem as culpas dos outros. No original, o termo traduzido por bode expiatório era hazazel (que está dicionarizado em português com este mesmo significado), presumivelmente o nome de um demónio do deserto, embora, ao que parece, não se trate de um vocábulo hebraico. O próprio ritual terá tido origem entre os antigos Egípcios.

Léxico: «poceiro»

Poceiro no Quénia: http://ngishili.com/

Mais uma cavadela


      Ainda haverá poceiros em Portugal? Bem, isso agora talvez não interesse tanto como saber que a palavra inglesa well-digger se traduz assim, o que é, francamente, muito melhor do que «cavador de poços». Em qualquer circunstância, aliás, é melhor uma palavra do que uma locução. Poceiro vem do latim putearĭus. Na Índia e em África, isso é certo, há poceiros. Regozijemo-nos: a Academia das Ciências de Lisboa não extraviou este verbete.

Léxico: oxímetro

Imagem: http://www.unmc.edu/

Paciente impaciente


Um leitor, claramente aflito, pergunta-me que nome tem o «gadget» que nos hospitais e clínicas põem na ponta do dedo dos pacientes que vão ser operados. Bem, comecemos pelo gadget: em português, diz-se instrumento, aparelho, dispositivo, mecanismo… Engenhoca, se quiser. Não diga nem escreva, por amor de Deus, gadget. Sim, em português tem o nome de oxímetro, e mede a saturação em oxigénio da hemoglobina no sangue arterial do operando.

Etimologia: rameira

Fantasias etílicas

Gosto muito, confesso, da palavra «rameira». Felizmente, faltam-me oportunidades de a usar. Conhecem os meus leitores a etimologia desta palavra? Para o Dicionário Houaiss, «era o nome dado no sXV, em Portugal, às frequentadoras de tabernas que, para assinalarem a sua presença, ostentavam na porta ramos de árvores». Está-se mesmo a ver: estas senhoras, digamos assim, iam para as tabernas e, debaixo do braço ou entre as anáguas, levavam um ramo, que penduravam mal chegavam ao seu destino. Um prostíbulo ambulante, um lupanar desmontável. Custa menos a crer na versão que já conhecia: na Idade Média, na península Ibérica, e não somente em Portugal, começou a usar-se um ramo na porta das tabernas para indicar que não era uma casa particular. (Na minha infância, passada numa rua onde havia uma taberna (em que certa vez, na companhia de dois amigos, todos com menos de dez anos, descobrimos como o argal nos permitia beber comodamente do barrilete de vinho abafado), lembro-me de ver pendurado um ramo de louro.) Na mesma época, as prostitutas perceberam que a melhor forma de dissimularem a sua actividade, ao mesmo tempo que atraíam clientes, era pendurarem um ramo como nas tabernas. Passaram então a ser, eufemisticamente, conhecidas por rameiras. Contudo, e é bom que se saiba, há quem ligue antes a palavra ao latino ramus, membro viril. Em espanhol, a palavra ramera, com o mesmo significado, existe desde o final do século XV.

Uso da vírgula com vocativo

Olá, Meia Hora

Veio parar-me às mãos a edição n.º 4 do novíssimo gratuito Meia Hora, que se propõe competir com os jornais de referência pagos. É essa a ambição e, digamo-lo com franqueza, não começou mal. Mas nem tudo está bem, e a primeira página dá logo um sinal de alarme: «Adeus Ota, olá Alcochete». Pois é, mas «Ota» e «Alcochete» são vocativos, pelo que nos ficam a dever duas vírgulas. Se alguém conhecer Sílvia Lobo, a revisora, por favor diga-lhe. Afinal, a revisora até talvez saiba, porque na última página se pode ler: «Olé, Doutor Allen!» Talvez suspeite que com topónimos não se pode falar, não vão os leitores julgar-nos doidos. E nós somos sain d’esprit. Ou será saint d’esprit?

Bolsar e bolçar, outra vez

Cala a boca



      É muito estranho que numa revista como a Crescer com Saúde, do grupo Impala, uma revista dedicada, como o nome sugere, exclusivamente às crianças, não se escreva correctamente a palavra «bolçar». Na secção de cartas dos leitores, não apenas não corrigiram o que um leitor escrevia, como também na resposta deram o mesmo erro: «Por sua vez, o bolsar não tem qualquer importância, já que faz parte da imaturidade do sistema digestivo» (Crescer com Saúde, Junho de 2007, p. 90). Bolsar, já aqui o escrevi uma vez, significa fazer bolsos e foles (um vestido mal talhado, por exemplo). Deveriam ter escrito «bolçar», isto é, vomitar. Bolçar e vomitar provêm do mesmo étimo latino, sendo assim palavras divergentes ou alótropos. Através de vários fenómenos fonéticos, de vomitiare (intensivo de vomere) chegou-se a bolçar. Esta última costuma aplicar-se mais às criancinhas de colo. Voltei à questão porque ainda recentemente vi o mesmo erro numa tradução de um tradutor conceituado. Algo está mal.


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