Léxico: oxímetro

Imagem: http://www.unmc.edu/

Paciente impaciente


Um leitor, claramente aflito, pergunta-me que nome tem o «gadget» que nos hospitais e clínicas põem na ponta do dedo dos pacientes que vão ser operados. Bem, comecemos pelo gadget: em português, diz-se instrumento, aparelho, dispositivo, mecanismo… Engenhoca, se quiser. Não diga nem escreva, por amor de Deus, gadget. Sim, em português tem o nome de oxímetro, e mede a saturação em oxigénio da hemoglobina no sangue arterial do operando.

Etimologia: rameira

Fantasias etílicas

Gosto muito, confesso, da palavra «rameira». Felizmente, faltam-me oportunidades de a usar. Conhecem os meus leitores a etimologia desta palavra? Para o Dicionário Houaiss, «era o nome dado no sXV, em Portugal, às frequentadoras de tabernas que, para assinalarem a sua presença, ostentavam na porta ramos de árvores». Está-se mesmo a ver: estas senhoras, digamos assim, iam para as tabernas e, debaixo do braço ou entre as anáguas, levavam um ramo, que penduravam mal chegavam ao seu destino. Um prostíbulo ambulante, um lupanar desmontável. Custa menos a crer na versão que já conhecia: na Idade Média, na península Ibérica, e não somente em Portugal, começou a usar-se um ramo na porta das tabernas para indicar que não era uma casa particular. (Na minha infância, passada numa rua onde havia uma taberna (em que certa vez, na companhia de dois amigos, todos com menos de dez anos, descobrimos como o argal nos permitia beber comodamente do barrilete de vinho abafado), lembro-me de ver pendurado um ramo de louro.) Na mesma época, as prostitutas perceberam que a melhor forma de dissimularem a sua actividade, ao mesmo tempo que atraíam clientes, era pendurarem um ramo como nas tabernas. Passaram então a ser, eufemisticamente, conhecidas por rameiras. Contudo, e é bom que se saiba, há quem ligue antes a palavra ao latino ramus, membro viril. Em espanhol, a palavra ramera, com o mesmo significado, existe desde o final do século XV.

Uso da vírgula com vocativo

Olá, Meia Hora

Veio parar-me às mãos a edição n.º 4 do novíssimo gratuito Meia Hora, que se propõe competir com os jornais de referência pagos. É essa a ambição e, digamo-lo com franqueza, não começou mal. Mas nem tudo está bem, e a primeira página dá logo um sinal de alarme: «Adeus Ota, olá Alcochete». Pois é, mas «Ota» e «Alcochete» são vocativos, pelo que nos ficam a dever duas vírgulas. Se alguém conhecer Sílvia Lobo, a revisora, por favor diga-lhe. Afinal, a revisora até talvez saiba, porque na última página se pode ler: «Olé, Doutor Allen!» Talvez suspeite que com topónimos não se pode falar, não vão os leitores julgar-nos doidos. E nós somos sain d’esprit. Ou será saint d’esprit?

Bolsar e bolçar, outra vez

Cala a boca



      É muito estranho que numa revista como a Crescer com Saúde, do grupo Impala, uma revista dedicada, como o nome sugere, exclusivamente às crianças, não se escreva correctamente a palavra «bolçar». Na secção de cartas dos leitores, não apenas não corrigiram o que um leitor escrevia, como também na resposta deram o mesmo erro: «Por sua vez, o bolsar não tem qualquer importância, já que faz parte da imaturidade do sistema digestivo» (Crescer com Saúde, Junho de 2007, p. 90). Bolsar, já aqui o escrevi uma vez, significa fazer bolsos e foles (um vestido mal talhado, por exemplo). Deveriam ter escrito «bolçar», isto é, vomitar. Bolçar e vomitar provêm do mesmo étimo latino, sendo assim palavras divergentes ou alótropos. Através de vários fenómenos fonéticos, de vomitiare (intensivo de vomere) chegou-se a bolçar. Esta última costuma aplicar-se mais às criancinhas de colo. Voltei à questão porque ainda recentemente vi o mesmo erro numa tradução de um tradutor conceituado. Algo está mal.


Tradução: «smoking gun»

Pólvora seca


      Dizia o original: «That, along with the fact that thousands of rocks at the crater site had been smashed to bits around the same time as the iridium appeared, is the smoking gun for the impact theory.» O tradutor passou a correr pela frase e achou que no-la podia restituir em português assim: «Esse facto, juntamente com os milhares de rochas no local da cratera que foram reduzidos a pedacinhos por volta da mesma altura em que o irídio apareceu, é a arma de fogo para a teoria do impacto.» Perfeitamente — mas o que significa? A locução smoking gun deverá traduzir-se por «fumo da espingarda», nada mais literal. E assim já se percebe: os tais factos são um indício seguro de que houve um impacto, como indício seguro de uma arma ter sido usada é o facto de provir fumo do seu cano. E para fazer esta dedução não é preciso ser Sherlock Holmes, basta saber ler e pensar. Elementar.

Conversão (I)

Botas das sete léguas

      Não é raro que nas traduções surjam medidas de sistemas de unidades que nos são estranhos. Que sentido faz para o leitor português médio — que já nem sequer sabe a quanto equivale uma arroba — que num texto surjam milhas ou polegadas ou galões? (Claro que sim: milhas para quilómetros multiplica-se por 1,61, polegadas para centímetros, por 2,54, galões para litros, por 4,55.) Com as moedas acontece o mesmo. «Wages also differ and range from as low as Kshs 120 to Kshs 200 (USD 1.8 to 3) a day. Assuming that one earns an average of Kshs 150 a day for six days a week, one takes home a salary of Kshs 4,500 (USD 70) per month.» Apesar de tudo, os dólares não são a melhor referência para o leitor, pelo que se deve sempre converter directamente para euros. A Internet dispõe de alguns conversores. Aprecio particularmente este. Logo, seria qualquer coisa como: «Os salários também diferem e variam de tão pouco quanto 120 a 200 xelins quenianos (1,35 a 2,26 euros) por dia. Supondo que se ganha uma média de 150 xelins por dia durante seis dias por semana, leva-se para casa um salário de 3900 xelins (44 euros) por mês.» Tratando-se, como é o caso, de um texto jornalístico actual, o câmbio deverá ser feito ao dia. Contudo, se estivermos perante uma tradução (ou qualquer texto em que se tenha necessidade de fazer o mesmo) de um texto de 1999, por exemplo, o câmbio será o dessa data, como é óbvio mas tão esquecido. Em 10 de Junho de 1999, por exemplo, 3900 xelins quenianos valiam 10 572 escudos.

Selecção vocabular

Ao lado

Tiro um jornal da pilha que tenho ao meu lado. Sai um Diário de Notícias. Vejamos a selecção vocabular em duas notícias. Uma delas dizia: «Coincidência. Pedra extraterrestre da ficção tem sósia numa mina da Sérvia» («Novo mineral tem a mesma composição da criptonite, Filomena Naves, 25.4.2007, p. 14). «Sósia»? Quando hoje em dia se abusa das aspas, aqui, que deviam ser usadas — na falta de um termo adequado, por não ocorrer à jornalista —, não o foram. Entre infinitas, duas soluções: «Pedra extraterrestre da ficção tem cópia perfeita numa mina da Sérvia.» «Pedra extraterrestre da ficção materializa-se numa mina da Sérvia.» A pressa com que os jornalistas escrevem não explica tudo. Na maioria das vezes, fazer bem ou fazer mal demora o mesmo tempo.
Outra notícia no mesmo jornal: «Todos os dias, a sua mãe, Ursula, espera-a [sic] no topo com um carro velho e lamacento que nem sequer tem placa de matrícula» («Túnel traz modernidade a vale isolado dos Alpes», Helena Tecedeiro, 25.04.2007, p. 30). Bem podemos pesquisar em qualquer corpus do português, o adjectivo somente qualifica termos como «terreno», «chão», «piso», «pavimento», «campo», «rio». Um objecto, umas botas, um automóvel, um jornal que caiu ao chão estarão enlameados.

Apostila ao Ciberdúvidas

Ciberduvidoso

      Da Guarda, um consulente perguntou ao Ciberdúvidas se o vocábulo «politólogo» já entrou na língua portuguesa. Depois de dar a definição do Dicionário Eletrônico Houaiss (brasileiro), o consultor, Carlos Marinheiro, afirma que os «dicionários portugueses consultados não regist[r]am qualquer destes vocábulos. Por enquanto...». Os vocábulos referidos eram três: «politólogo», «politicólogo» e «politicologista». Não é assim: o Dicionário Houaiss regista os três e o Dicionário da Academia regista somente o segundo. Ainda estou para ver que dicionários são consultados no Ciberdúvidas.


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