Uso da vírgula

Principalmente

Há quem julgue — traumas da infância escolar — que os advérbios em -mente devem estar sempre, seja qual for a sua localização na frase ou o sentido que se pretende transmitir, entre vírgulas. Escrevem, por exemplo: «Os meus professores, principalmente, o de Português, não sabem exprimir-se correctamente.» É óbvio que o advérbio se refere especificamente ao professor de Português e não a todos os professores, pelo que a vírgula que se segue ao advérbio está a mais. Os advérbios mais castigados por esta incompreensão são, entre muito poucos, principalmente e nomeadamente. Coisas simples, dirão, mas então porque é que há tanta gente a errar?

Uso da vírgula


Quem sabe, sabe


      Um leitor, H. S., chamou-me a atenção para a novíssima palavra de ordem da RTP2, «Quem vê, quer ver», cuja pontuação considera errada. Trato dessa matéria no meu manual, e lamento, mas discordo. Tal como acontece com os termos paralelos dos adágios e aforismos, o uso da vírgula é de regra: «Quem com ferro mata, com ferro morre.» E porquê, perguntam? Pois porque a vírgula separa orações diferentes, ou não? Não se pode afirmar, suponho, que no caso em apreço temos uma vírgula a separar o sujeito do predicado, pois temos duas orações.
      Nesta matéria, não posso dizer, como Shakespeare, «No, Time, thou shalt not boast that I do change». Mudei: antes pensava que não devia usar-se vírgula em frases deste tipo, justamente porque me parecia ver ali uma vírgula a separar — crime de lesa-gramática — o sujeito, «quem», do predicado, «quer ver». Só não via o «vê». Como quando procuramos desesperadamente a esferográfica e a temos na mão.
      A tempo o digo para não mo dizerem: se consultarmos, por exemplo, O Grande Livro dos Provérbios, de José Pedro Machado, veremos que os provérbios com que ilustro os meus argumentos estão registados sem vírgula. Opiniões. Se fosse antes O Grande Livro dos Provérbios de Helder Guégués, teriam vírgula.

Léxico: «clarificado»

Língua no tacho

Cara M. T., o termo técnico usado em culinária para designar o processo que descreve é «clarificado» e não «branqueado». A ghee, por exemplo, largamente usada na culinária indiana, é uma manteiga clarificada, isto é, uma manteiga a que foram retirados os resíduos lácteos e a água, além de impurezas. O que resta é uma gordura límpida e transparente. Clarificam-se também caldos e xaropes. A culinária também tem, é verdade, o processo de branquear, que consiste em cozinhar ligeiramente a carne.

Tradução: «oxymoronic»

Sem equívocos


      Cara Luísa Pinto: não pode pretender traduzir o inglês oxymoronic por «eufemístico» pela simples razão de não ser, nem pouco mais ou menos, a mesma coisa. É o mesmo que confundir já não digo uma alquitarra com um alambique, mas oaristo com aoristo. Parece claro: não temos o adjectivo relativo ao substantivo «oxímoro». A solução está em recorrer a uma expressão — «da natureza do oxímoro» —, o que nem sempre se enquadra no contexto, ou aportuguesar a palavra, e teremos oximorónico. Há quem já o faça: «Segundo a autora o fantástico funciona como um tropo oximorónico em que a contradição entre o possível e o impossível é mantida e desenvolvida» («A Simbólica do Espaço em The Lord of the Rings e Earthsea», Maria do Rosário Monteiro, in www.fcsh.unl.pt/docentes/rmonteiro.

Apostila ao Ciberdúvidas: ternurento

É ver

Um consulente do Ciberdúvidas, Marco Costa, queria saber se a palavra «ternurento» existe ou se, referindo-se a alguém, teria de usar a expressão «dotado de ternura». Esquecera-se de que existe «terno», bem mais interessante e pequena. Foi para isto mesmo que o advertiu o consultor Fernando Venâncio Peixoto da Fonseca, que afirmou que o vocábulo «ainda não se encontra registado». O consultor não tem razão: está registado. Ei-lo como penúltimo verbete na página 1005 do Dicionário Actual da Língua Portuguesa, publicado pela Asa: «ternurento, adj. Que se desfaz em ternuras: Marido ternurento. • sin.: afectuoso; carinhoso».

Ortografia: assembleia geral

Pelourinho ou tiro no pé?     


      Nem de propósito: no Pelourinho de ontem, a consultora Maria Regina Rocha, cujas opiniões muito considero, quis elucidar o País sobre a regência do adjectivo «confiante» — o que é louvável. De caminho, deu uma machadada na ortografia oficial — o que é criticável. Veja-se:

«Estar confiante em»
Maria Regina Rocha

Pergunta* a Paulo Teixeira Pinto, a propósito da assembleia-geral do BCP: «Está confiante de uma assembleia-geral pacífica?»
O adjectivo confiante pede um complemento iniciado pela preposição em. Por isso: «Está confiante na realização de uma assembleia-geral pacífica?»

*Jornal da Noite, SIC, 28 de Maio de 2007
30/05/2007»

      E eu que pensava que o Ciberdúvidas advogava isto e isto. Ou a Prof.ª Maria Regina Rocha viu mesmo o hífen a projectar-se, insinuante, da boca do jornalista?

Estrangeirismos

Está mal

É sabido: suplementos económicos dos jornais e jornais económicos só se podem ler com um dicionário de inglês ao lado. Estrangeirismos todos nós usamos, contudo, o que está em causa é se, sendo pouco comuns, os explicamos quando os usamos. «Nos negócios há empresários e raiders. Os primeiros constroem e alimentam empresas, criam riqueza e empregos. Têm em mente a criação de valor. Os segundos vivem da especulação. Não têm empresas, mas negócios. Compram e vendem a um ritmo marcado pelas cotações da bolsa. Estão focados na obtenção de mais-valias. Esta é a lição que aprendemos ontem, com a assembleia geral do BCP» («Raiders e empresários», Álvaro de Mendonça, OJE (O Jornal Económico), 29.05.2007, p. 2). Lá temos de recorrer ao dicionário de inglês: «Raider: An investor who aims to take control of a company by purchasing a majority stake in the firm.» No site do Banif, encontramos o vocábulo num glossário: «Raider: Pessoa individual ou colectiva que pretende assegurar o controlo da gestão de uma empresa através da compra de uma participação qualificada para o efeito.» Claro que também está em causa outro aspecto: a moderna e ominosa tendência laxista para não grafar os estrangeirismos em itálico.

Está bem

No mesmo jornal, também encontramos exemplos louváveis: o jornalista usa um estrangeirismo, mas explica-o. Devia ser esta a prática habitual dos jornalistas, não deixar o trabalho para o leitor. Sim, porque não vamos agora supor que todos os leitores deste jornal em concreto dominam todas as áreas do conhecimento, com o respectivo vocabulário. Nem todos os leitores, suponho, serão engenheiros. Este último exemplar trouxe-o do British Hospital. Não estou a ver a enfermeira Andrea, por exemplo, a saber que raio é isto do jet grouting. «A OPCA está a realizar uma importante obra de geotecnia no túnel do Terreiro do Paço, em Lisboa. Os trabalhos incluem a execução de 188 colunas de jet grouting que visa reforçar e consolidar os terrenos envolventes. O projecto é do professor António Correia Mineiro.» Mais à frente, o jornalista redime-se: «A técnica consiste na utilização, em profundidade, de um ou vários jactos horizontais de elevada velocidade e pressão que desagregam o terreno e permitem a penetração e a mistura de uma calda de cimento. Desta forma evita-se a remoção de grandes volumes de terras, permitindo realizar a injecção da calda de cimento, precisamente, nos pontos ou nas profundidades onde o terreno se revela menos consistente» («Geotecnia da OPCA para a Praça do comércio», OJE, 30.05.2007, p. VI).

Léxico: halaca

Copiem menos

Quando o El País e o El Mundo publicaram a notícia sobre a Zara, também cá alguns jornais se referiram ao assunto. Vejamos o que disse o Jornal de Notícias: «Desconhece-se a genuína razão da proibição da mistura de têxteis. Segundo noticia o jornal espanhol El Mundo, alguns rabinos explicam que, na lei judaica, o conceito de “roupa híbrida” equipara-se à “halajá”, que proíbe relações sexuais entre animais de diferentes raças e a criação de novas espécies de fruta ou de plantas» («Zara pede desculpas aos judeus ortodoxos», Jornal de Notícias, 22.05.2007). Parece haver alguma macaqueação, porque halajá é a transliteração espanhola do hebraico הלכה. Entre nós — e dicionarizado, senhores polícias do léxico —, a transliteração deu halaca. Como se pode comprovar no Dicionário Houaiss e no Grande Dicionário da Língua Portuguesa coordenado por José Pedro Machado. Cito este último: «Halaca, s. f. Bíbl. A lei oral judaica, suposta por muitos de valor igual à lei escrita. Deve ser considerada comentário didáctico ao Pentateuco.»

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