O abuso do hífen

Hífenmania

Hífen-mania

Hífen...

      Subitamente, a palavrinha «geral» deixou de poder atravessar o papel sozinha: tem agora de dar a mãozinha à palavra à sua esquerda. Sinistro! Deixou mesmo de haver assembleias gerais, agora só se realizam assembleias-gerais. Nunca estamos, agora, à vontade, temos de estar, contrafeitos, à-vontade. Nos livros, as personagens tomaram um ar pernóstico e já não dizem bom dia, mas apenas bom-dia. Não nos podemos sentir proactivos: alguém logo nos dirá que se for a favor, é pró, pró-activo. E ficamos reactivos. Se queremos comprar um objecto em segunda mão, há encolheres de ombros, risinhos, porque, finos, só conhecem objectos de segunda-mão. Se chegamos a um beco, não conseguimos fazer marcha atrás: somos obrigados a fazer marcha-atrás. Se perguntarmos, por escrito!, onde é a casa de banho, ninguém sabe, e não é por não saberem ler. O que é isso?, logo perguntam. Servirá uma casa-de-banho? Os filmes deixaram de ter banda sonora. Se queremos ouvir, mesmo de má vontade (má-vontade?, inquirem), só banda-sonora. As mulheres, mesmo nas minisséries, já não usam minissaias: usam, nas mini-séries, mini-saias. Deixámos igualmente de poder comer alimentos poliinsaturados: se queremos, também temos de engolir o hífen: poli-insaturados. De boa vontade acabava aqui, mas não me deixam, querem que seja de boa-vontade. Acabo.

Uso da maiúscula

πρoφήτης


      Um leitor, todo abespinhado, mandou-me uma mensagem em que se insurge por eu ter escrito, no post sobre a Zara e o Beurger King Muslim, «profeta Maomé». Queria que eu tivesse escrito «profeta» com maiúscula — Profeta Maomé. E porquê, pergunto eu? Mais profetas tem o cristianismo — Daniel, Elias, Ezequiel, Isaías, Jeremias, Ageu, Amós, Habacuque, Joel, Jonas, Malaquias, Miqueias, Naum, Obadias, Oseias, Simeão, Sofonias, Zacarias… — e todos, maiores ou menores, são «profetas». Tomemos o pobre Obadias, o quarto dos doze profetas menores judeus: mesmo que o nome dele tenha a variante Abdias, e por isso valha por dois profetas, ou por um maior, vá lá, nunca vi escrito «Profeta Obadias». Também não aceito que se escreva «o Profeta». Como se Maomé fosse o profeta por antonomásia. Faz-me lembrar textos em que se fala sobre o Partido Comunista: aparece sempre «o Partido». Porquê? Ou escrevemos «o Partido Comunista» ou «o partido», se esta última palavra surge isolada.
      Vejam lá, agora não confundam o Assim Mesmo com o Jyllands-Posten.

«Mcjob»

A importância das palavras

A filial britânica da multinacional McDonald’s iniciou uma campanha para mudar a definição pejorativa do termo «McJob» que se encontra registada, desde Março de 2001, no Oxford English Dictionary (OED) e que o define como «um trabalho mal pago, carente de estímulos e com poucas perspectivas de futuro» («an unstimulating, low-paid job with few prospects, esp. one created by the expansion of the service sector»). A multinacional empreendeu uma campanha através de um livro de assinaturas nos seus restaurantes, uma página na Internet (changethedefinition.com) e um sistema de envio de SMS para alterar a definição. O termo foi usado pela primeira vez nos Estados Unidos em 1980 e tornou-se popular em 1991 ao ser usado no romance Geração X (publicado entre nós pela Editorial Teorema, em 1994), de Douglas Coupland. Fonte da Oxford University Press, responsável pelo dicionário, afirmou, naturalmente, que os verbetes seguem as mudanças que ocorrem na língua e que essas mudanças são reflectidas nas definições, de acordo com as provas que vão surgindo.

Zara e Beurger King

Ala que se faz tarde!

A notícia é do El País: a Zara pediu desculpa aos judeus ultra-ortodoxos por ter incorrido naquilo que a comunidade considera um grave pecado: ter misturado, nos seus artigos de vestuário, algodão e linho, o que está proibido pelo judaísmo por atentar contra as leis da natureza. Isto faz-me lembrar, pelas implicações religiosas, outro caso, o nome de um restaurante de comida rápida francesa: Beurger King Muslim. Não lhe soa a algo familiar? Claro, é um trocadilho. Neste restaurante, em Clichy-sous-Bois (onde Ségolène Royal obteve 61,70% dos votos), um subúrbio a leste de Paris, a comida é halal, isto é, preparada de acordo com os rituais islâmicos e inspeccionada três vezes por dia. Qual o trocadilho? Beur é a palavra do calão francês por que são tratados os norte-africanos franceses de segunda geração (a palavra resulta da inversão da ordem das sílabas da palavra arab: a-ra-beu, beu-ra-a). Isto é que é humor. Além disso, os clientes podem ver um filme sobre o profeta Maomé enquanto comem. Imagino que bebam Mecca Cola ou Qibla Cola, ao mesmo tempo que insultam o capitalismo.

Tradução: «colour gamut»

Arco-íris

Um leitor, N. S., quer saber como se traduz a expressão técnica inglesa colour gamut. Já agora, devo começar por explicar do que se trata. É a gama de cores abarcada por qualquer sistema de captação de imagem (como as câmaras), de registo (como os gravadores) ou de reprodução (como os ecrãs). Os Brasileiros, práticos, já resolveram a questão: é o gamute de cores. Nós resistimos, e, embora já tenha lido a expressão «gabarito cromático», que considero correcta, para traduzir o inglês, não é raro ver a expressão por traduzir ou algo mais abstruso como «range de cores». Barbarolexia.

Tradução: «messiah-hood»

O Ungido

Uma leitora pergunta-me como se deve traduzir a palavra inglesa messiah-hood. Para traduzir esse vocábulo inglês temos em português as palavras «messiado», «messianato» e até um antigo «messiádego». É só escolher.

Cassetete


Cabeças partidas

É interessante ver como o casse-tête francês parte a cabeça não apenas literalmente, como o maciço cassetete da nossa querida polícia *, mas também esmifra os próprios miolos, não é? O casse-tête começou por ser uma «massue en pierre ou en bois utilisée comme arme guerrière par certaines peuplades sauvages». Por analogia de forma, passou a ser também a «arme portative constituée par un bâton flexible ou nerf de bœuf à extrémité plombée». Por metonímia, o casse-tête francês, a partir de determinada altura (no século XIX), passou também a ser o «jeu de patience qui consiste à reconstituer un dessin à l’aide d’éléments épars», como estes aqui. Este segundo é o nosso «quebra-cabeças», que na verdade por fora as deixa intactas, e que alguns cosmopolitas poliglotas (ou trogloditas?) só conhecem por puzzle. O que, na verdade, desafia a minha compreensão: então mal sabem português e andam a estropiar as línguas dos outros? Andam a ler Eça…

* Confesso: o Dicionário Houaiss também regista a acepção de jogo de paciência no verbete «cassetete», mas dá-a como obsoleta, e eu não quero confundir os meus leitores.

Por sua alta recreação

A Bárbara e o bardo


      Vítor Nobre, professor universitário e radialista, foi ao Páginas Soltas, na Sic Notícias, falar sobre os seus audiolivros. Bárbara Guimarães pergunta: «Vítor, e depois começa a gravar por auto-recreação a seguir, com a sua voz, poemas, poetas que vai conhecendo…» Vítor, nobre, respondeu ainda assim, mas podia ter dito: «Desculpe, Bárbara, mas diz-se por sua alta recreação, isto é, espontaneamente, por sua livre vontade. Mas agora não deixe de voltar a convidar-me para o seu programa só porque eu sou tão frontal.»

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