Tradução: «messiah-hood»

O Ungido

Uma leitora pergunta-me como se deve traduzir a palavra inglesa messiah-hood. Para traduzir esse vocábulo inglês temos em português as palavras «messiado», «messianato» e até um antigo «messiádego». É só escolher.

Cassetete


Cabeças partidas

É interessante ver como o casse-tête francês parte a cabeça não apenas literalmente, como o maciço cassetete da nossa querida polícia *, mas também esmifra os próprios miolos, não é? O casse-tête começou por ser uma «massue en pierre ou en bois utilisée comme arme guerrière par certaines peuplades sauvages». Por analogia de forma, passou a ser também a «arme portative constituée par un bâton flexible ou nerf de bœuf à extrémité plombée». Por metonímia, o casse-tête francês, a partir de determinada altura (no século XIX), passou também a ser o «jeu de patience qui consiste à reconstituer un dessin à l’aide d’éléments épars», como estes aqui. Este segundo é o nosso «quebra-cabeças», que na verdade por fora as deixa intactas, e que alguns cosmopolitas poliglotas (ou trogloditas?) só conhecem por puzzle. O que, na verdade, desafia a minha compreensão: então mal sabem português e andam a estropiar as línguas dos outros? Andam a ler Eça…

* Confesso: o Dicionário Houaiss também regista a acepção de jogo de paciência no verbete «cassetete», mas dá-a como obsoleta, e eu não quero confundir os meus leitores.

Por sua alta recreação

A Bárbara e o bardo


      Vítor Nobre, professor universitário e radialista, foi ao Páginas Soltas, na Sic Notícias, falar sobre os seus audiolivros. Bárbara Guimarães pergunta: «Vítor, e depois começa a gravar por auto-recreação a seguir, com a sua voz, poemas, poetas que vai conhecendo…» Vítor, nobre, respondeu ainda assim, mas podia ter dito: «Desculpe, Bárbara, mas diz-se por sua alta recreação, isto é, espontaneamente, por sua livre vontade. Mas agora não deixe de voltar a convidar-me para o seu programa só porque eu sou tão frontal.»

Léxico: docudrama

Outros dramas

Uma leitora pergunta-me se existe em português e, existindo, o que significa a palavra «docudrama». Existe: até já está registada, por exemplo, na MorDebe. Os jornais também a usam, como se pode ver na citação seguinte, em se dá a própria definição: «Sá Carneiro A Força de Viver é o título do docudrama (documentário em que algumas cenas são reconstituídas por actores) que a RTP1 exibe às 21.45 de hoje, data que assinala os 25 anos sobre o desastre de avião que matou Francisco Sá Carneiro» («O último dia de Sá Carneiro», João Pedro Pereira, Diário de Notícias, 4.12.2005). Vem do inglês docudrama, uma amálgama de docu(mentary) com drama.

Léxico

Palavras malditas

Se algum dia fizesse — e até pode ser que faça, pois sou, já viram, um espírito sistemático — uma lista das palavras que detesto, e nunca me fizeram mal, coitadas, à frente estaria, sem dúvida, a palavra (deixem-me fazer figas) «atempadamente». Bem me podem torturar: nunca a usarei. A tempo o digo: só a título demonstrativo, como agora, pois claro.

Apostila ao Ciberdúvidas: galderice

O verbete pe(r)dido

Um consulente do Ciberdúvidas queria saber se as palavras «galdeirice» e «galdenice» existem. O consultor Carlos Rocha argumenta, e muito bem, que a forma mais correcta é «galderice», «seguindo o modelo de vigarice, palavra que tem por base vigário». Acrescenta ainda, e acha «curioso», que no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa se empregue «galderice no verbete de galdério, adje(c)tivo, numa das respectivas acepções: “que anda sempre na pândega, na galderice.” No entanto, o substantivo em causa não tem entrada própria nesse dicionário». E não há outros dicionários de língua portuguesa, pergunto eu? Porque é que vamos logo citar um que tem estas «curiosidades» (vulgo incongruências)? O Novo Dicionário Compacto da Língua Portuguesa de António de Morais Silva, por exemplo, regista: «Galderice (è), s. f. Qualidade de galdério.»

Idêntico

Desconversas de botica

      Numa farmácia em Benfica, asseguraram-me, e agora já se arrependeram, que «a glicerina é muito idêntica à vaselina». «De química», respondo fleumaticamente, «não percebo nada, mas uma coisa lhe digo: a identidade não comporta graus, ao contrário da competência linguística. E mais: questiono-me se será mesmo assim. Isto é, se a glicerina é muito semelhante à vaselina.» «Desculpe: podia repetir?» «Perguntava onde é a farmácia mais próxima.» Pois, a língua evolui...

Semântica: «ladrão»

Língua pérfida

Antigamente, só havia ladrões no exército. Agora, há-os em todo o lado. É uma injúria, esta afirmação, diz? E o leitor acha que eu sou ingénuo? Explico (e quebro o protocolo de leitura): os mercenários que faziam parte da escolta dos imperadores romanos chamavam-se latro (latronis), e servir no exército dizia-se latrocinare. Como é que de soldados, latrones, é certo, passaram a ladrões propriamente ditos? Com a dissolução do Império Romano, o salário (salário porque eram pagos em sal, tal como os cartéis da droga pagam em cocaína aos seus mercenários) destes mercenários começou por ser irregular, até que deixou de ser pago. Nesta altura, e porque tinham o direito de usar armas e necessidade de se alimentarem como todos os mortais, passaram a salteadores, ficando assim fixado o significado actual da palavra «ladrão». Percebem agora a afirmação inicial? Já muito diferente é a frase, que joga com a ambiguidade, que me enviaram recentemente: «Os autarcas portugueses são os mais católicos do mundo: não assinam nada sem levar um terço.»

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