Construção «tratar-se de»

É desta que aprendemos?

      «José Pinto Coelho referiu nunca “ter apresentado queixa à polícia” por considerar “que se tratam de “meras ameaças virtuais”» («PNR restaura cartaz», Eva Cabral, Diário de Notícias, 7.4.2007, p. 5). As aspas, já os meus perspicazes leitores terão reparado, não estão certas: ou sobram ou faltam. Por isso, não sabemos se quem ignora as regras gramaticais é a jornalista se o político. Embora tenha um palpite, não quero deixar, mais uma vez, de dizer que, nestes casos e na minha opinião, o jornalista deve corrigir o que lhe é dito. A construção tratar-se de é impessoal, pelo que apenas se conjuga na terceira pessoa do singular. Matéria comezinha embora, o que me leva muitas vezes a evitar trazê-la para aqui, é vê-los, aos jornalistas e não só, claudicar nas regras gramaticais.

Léxico: «bacine»

É mesmo?
     


      O Diário de Notícias levou-nos a ver como se fazem amêndoas confitadas em Portalegre. «Qual é o segredo? “Claro que o segredo não se dá a ninguém, o processo é essencialmente amêndoa, açúcar e chocolate.” As caldas que se transformam na capa da amêndoa são feitas em tachos de cobre e também a amêndoa é rolada em caldeiras de cobre (cujo nome é bacine), refere ainda, enquanto dá uma olhadela na secção de empacotamento» («As amêndoas que vêm de Portalegre», Hugo Teixeira, 6.4.2007, p. 49). Inicialmente pensei, confesso, que a tal caldeira fosse — e a proximidade com Espanha fazia-me mesmo temê-lo — um penico espanhol: bacín: «Recipiente de barro vidriado, alto y cilíndrico, que servía para recibir los excrementos del cuerpo humano.» A grafia autorizava a suposição, mas não as acepções do vocábulo espanhol. Vamos ao francês. Bassine: «Bassin large et profond servant à divers usages domestiques ou industriels. Une bassine de confiture.» O étimo dos dois vocábulos é o mesmo: o latim vulgar baccinus. Agora a pergunta é como se devia escrever, dado o étimo provável. Escusado será dizer que o vocábulo não se encontra dicionarizado. Mas, como explica Sergio Pachá, lexicógrafo-chefe da Academia Brasileira de Letras, «a palavra não passa a existir a partir do momento que é registrada no dicionário. Vai para lá depois de existir».

Tradução: «grains de beauté»

Imagem: http://mariaeasoutras.sapo.pt/maria_fotos.html

Até as cabeleireiras


«Les grains de beauté sur notre corps ou les petites taches foncées qui apparaissent sur les mains des personnes âgées sont des tumeurs dont la prolifération a été stoppée: notre organisme a repris leur contrôle.» O tradutor tentou verter para português, e quase se ficou no intento: «Os grains de beauté do nosso corpo ou as pequenas manchas acastanhadas que aparecem nas mãos das pessoas idosas são tumores cuja proliferação foi interrompida: o nosso organismo retomou o controlo.» Aqui em Benfica, onde proliferam as cabeleireiras (na verdade, não deve haver rua onde não haja pelo menos uma), mais do que em qualquer outra freguesia de Lisboa, qualquer ajudante deve saber o que são grains de beauté (umas porque nasceram em França, outras, porque lêem os rótulos dos produtos que usam). São os sinais no corpo humano. Claro que se usamos a expressão francesa mais facilmente nos acode à memória o rosto de Catarina Furtado do que uma verruga de uma bruxa, mas trata-se do mesmo. Agora a sério: se um agricultor tem de ter enxadas, ancinhos, forquilhas, carrinhos de mão, um tradutor tem de adquirir dicionários, gramáticas, vocabulários, ou não? Ah! Je suis fadé!...

Russismo «dacha»

Как это сказать по-русски?

      Caro A. L., é como diz: dacha ou datcha (conforme prefere o Dicionário Houaiss, mas não, consabidamente, eu) é um russismo ou um russianismo*. Provém do russo дача. O tradutor do texto que me enviou optou, e muito bem, por «casa de Verão», locução ainda assim menos frequente, como se pode comprovar nos corpora do português, do que «casa de campo». Outra hipótese: «casa de veraneio». Dacha, dacha… o mais próximo que temos do estrangeirismo é «d’Acha», como no topónimo São Miguel d’Acha, que é uma freguesia do concelho de Idanha-a-Nova… Se puder usar uma palavra portuguesa, nunca use um estrangeirismo.

* Outros russismos ou empréstimos da língua russa: apparatchik, astracã, balaclava, balalaica, barine, boiardo, bolchevique, copeque, cossaco, culaque, czar, czaréviche, czarevna, czarina, duma, escorbuto, estepe, glasnost, gulag, kolkhoz, lapcha, matrioshka, mazute, menchevique, mujique, nomenclatura, parca, perestróica, pogrom, rileque, rublo, sajene, samoiedo, samovar, soviete, sucare, taiga, tarantasse, telega, terém, tróica, ucasse, verstá ou verste, vodca, entre outros.


Tradução: «écrivain public»

Saramagos, é isso?

«Dans les pays en développement, l’écrivain public est un personage important : il redige les lettres de ceux qui ne savent pas écrire (documents administratifs mais aussi messages personnels). Il traduit également dans la langue officelle du pays les messages de ceux qui ne parlent qu’un dialecte local. Aujourd’hui, on trouve aussi des écrivains publics dans certaines mairies françaises.» O tradutor resolveu verter assim, impunemente, para português: «Nos países em desenvolvimento, o escritor público é uma figura importante: redige as cartas dos que não sabem escrever (documentos administrativos, mas também mensagens pessoais). Traduz igualmente para a língua oficial do país as mensagens dos que só falam um dialecto local. Hoje em dia, encontram-se também escritores públicos em certas câmaras municipais francesas.» Eu conheci alguns destes «escritores públicos» em Portugal, a trabalhar nas autarquias e à porta do Arquivo de Identificação, na Gomes Freire. Contudo, entre nós, são redactores de cartas e de impressos da Administração Pública, que prestam os seus serviços aos cidadãos analfabetos, não são escritores públicos no sentido em que se usa esta locução. Em França até têm cursos universitários na Sorbonne (objectivos: «Cette formation se propose de former des professionnels de l’écriture capables de répondre aux besoins à la fois de la collectivité et des personnes privées, en apportant à tous publics une aide à la rédaction»), por exemplo, ao passo que cá basta(va) ser esperto e saber o abecedário.

Ortografia: bem-vindo


Mal-avindos

      Não há paciência para mensagens xenófobas, claro, mas português mal escrito também não é tolerável. Ou faz tudo parte da sátira? Até por respeito aos imigrantes, deviam escrever correctamente.

«Restício»?

Sobras

Eis a questão: por vezes, vê-se escrito e ouve-se a palavra «restício», como quem diz «resquício». Já a li na imprensa, o que, naturalmente, não é motivo de pasmo. Dir-se-ia um lídimo sinónimo do vocábulo «resquício» — se não fosse uma simples manifestação de ignorância. Como distinguir, contudo, quando tem um propósito jocoso e quando não? Em momentos de maior tolerância, até me questiono se não se pode pôr a par — em inventividade analógica — com «comício» e «bebício», como na expressão «comícios e bebícios». Mas não tem a mesma graça, e desconfio sempre da conscientia sceleris do falante.

Etimologias

Divagações

Já viram como os ingleses amantes da jardinagem, isto é, todos eles, produzem morangos nos seus jardins e hortas? Numa cama de palha, sobre a terra, com uma cobertura de tela esticada por quatro estacas. E daí serem chamados strawberries. Mas claro, os strawberries eram espontâneos por toda a Europa. Fico por aqui, não falarei de barberries, blackberries, blueberries, boysenberries, cloudberries, cranberries, gooseberries, huckleberries, lingonberries, raspberries… Se eu agora passar directamente para a abanação, ninguém estranhará, porque estaríamos no âmbito, por exemplo, do cultivo do café, já que a abanação é uma das fases e tem a finalidade, como o nome sugere, de retirar folhas, gravetos e outros objectos da planta. Na verdade, quero falar de outra abanação e demonstrar como a etimologia «intuitiva» pode descambar em grandes disparates. Exemplifico com o vocábulo abanação (vêem agora a ligação?) na acepção de pena de desterro por um ou dois anos imposta aos assassinos. Podia pensar-se que seria um castigo como o cifonismo, o crucifrágio, o esquartejamento, a estrapada, a rafanidose. Na abanação, o condenado levaria uns valentes abanões até jurar que se portaria bem no futuro. Explico apenas o que era a rafanidose: entre os Atenienses, era um dos castigos aplicados aos adúlteros e consistia em enfiar (digo bem?) um rábano de proporções castigadoras (ah, pois, nada de meiguices) no ânus do prevaricador.

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