Tradução

Estava-se mesmo a ver

      «Me acerco y del apartamento sale Dayessi como una tromba y se choca contra mí.» O nosso tradutor não hesitou: esta é de caras! Ou de trombas. «Aproximo-me e do apartamento sai Dayessi como uma tromba e choca comigo.» Muito bonito, sim senhor, mas o que significa exactamente? Não terá a personagem aparecido de trombas por ver o trabalho do tradutor? É caso para isso. O Diccionario de la Real Academia regista a locução adverbial en trombas, que significa «de baldão», «abruptamente», etc. A expressão como una tromba, sinónima, é igualmente muito usada.

Glossário: ventos

Ares e ventos

      São oito os ventos que desde a Antiguidade greco-latina marcam as direcções: tramontana (N), greco (NE), levante (E), siroco (SE), ostro (S), libeccio (SO), ponente (O) e maestro (NO). Mas há outros, entre os quais os que se seguem.

Adalor m. Nome dado aos ventos de oeste, nordeste e sudoeste.
Áfrico m. Vento de sudoeste.
Alísio adj. Diz-se de certos ventos regulares que sopram durante todo o ano nas regiões tropicais, vindos do nordeste no hemisfério boreal e do sudeste no hemisfério austral.
Aquilão m. O vento do norte.│O vento do nordeste, segundo a náutica antiga.
Aracati m. No Ceará, vento forte e fresco, que, à noitinha, no Verão, sopra regularmente, com a direcção de nordeste para sudoeste.
Aragem f. Vento brando e fresco, viração, bafejo.
Aura f. Vento brando e suave; aragem; brisa.
Austro m. Vento do sul.
Bafejo m. Aragem, viração.
Banzeira f. Bras. Vento que sopra no rio Araguaia.
Bora f. Vento vindo da terra, muito seco e frio, que sopra no Adriático.
Bóreas m. O vento do norte.
Brisa f. Vento sereno e fresco; aragem; viração.
Burburinho m. Rumor de água corrente ou de vento sobre arvoredos.
Burlandeiro adj. Diz-se do tempo que é variável, que muda frequentemente de direcção.
Calafate m. Vento de leste que, às vezes, sopra nas costas do Estado de Rio de Janeiro e danifica as embarcações.
Camacheiro m. Vento que sopra em rajadas fortes de N ou NE na Madeira.
Camsim m. Vento quente da África, e que dura 50 dias.
Carpinteiro da costa loc. Vento sueste que sopra muito violentamente na costa nordeste do Brasil.
Cascarrão m. Vento que sopra do mar.
Cécias m. Vento nordeste.
Cicieira f. Vento fresco.
Ciclone m. Movimento giratório do ar, combinado com um movimento de translação; torvelinho de vento devastador; furacão na terra ou no mar, que faz redemoinho.
Cola m. Vento forte, que sopra nas costas das Filipinas.
Coro m. Vento do noroeste, segundo a náutica antiga.
Cruviana f. Garoa, chuvisco, vento frio acompanhado de chuva.
Espírito m. Ar, sopro.
Espiro m. Sopro, vento, aragem.
Euro m. Vento de leste.
Formigueiro m. Vento de sueste.│Diz-se do vento que sopra do lado das Formigas (Açores).
Frescor m. Frescura; ar fresco.
Furacão m. Nome que antigamente se aplicava às tempestades nas Índias Ocidentais e que depois se generalizou e hoje se aplica aos grandes temporais em que a velocidade do vento atinge mais de 120 km por hora.
Garbino m. Vento que sopra de sudoeste.
Garroa m. Vento forte do noroeste, na costa ocidental de Portugal, na linguagem dos marinheiros.
Gravana m. Vento fresco de sul e sueste, que sopra no golfo da Guiné, especialmente nas vizinhanças de S. Tomé.
Graviana f. Bras. do N. Brisa, que sopra da terra para o mar.
Greco ou gregal adj. Diz-se de um vento que sopra da Grécia ou do nordeste, no Mediterrâneo Oriental.
Guieira f. Pop. Vento suave mas frio; aragem fria.
Harmatão m. Vento que sopra, particularmente na costa da Guiné, entre os meses de Dezembro e Fevereiro.
Iápice m. Vento que sopra no Sul de Itália.
Jápix m. Vento do noroeste.
Lariço m. Vento bonançoso que sopra na baía de Cascais.
Lés-nordeste m. Vento ou rumo de entre nordeste e leste.
Lestada f. Vento forte e persistente que sopra de leste.
Léstia f. O vento de leste; lestada.
Levante m. Vento do este do Mediterrâneo.│O mesmo vento que sopra do leste, no Algarve, soão, este, solano, e a agitação do mar que o acompanha.
Maestro m. O m. q. mistral.
Mareiro adj. Diz-se do vento que sopra do mar.
Mata-vacas m. Nome que nos Açores dão ao vento que sopra de nordeste.
Mistral m. Vento seco e frio, às vezes violento, que sopra no Sul da França, sobretudo no Baixo Languedoque e na Provença.
Minuano m. Vento de oeste frio no Sul do Brasil, que costuma soprar com violência depois da chuva, no Inverno. Vem dos Andes e passa pela antiga zona dos índios Minuanos, de quem tomou o nome.
Monção m. Vento periódico soprando por largo período de tempo nas regiões do oceano Índico. A monção de Verão sopra de SW de Abril a Outubro acompanhada de grandes chuvadas, sendo também conhecida por estação das chuvas. A mudança da direcção do vento, que passa a NE de Outubro a Abril, anuncia a monção de Inverno.
Morget ou morgeasson m. Forte brisa do norte que, à noite, sopra no lago de Genebra.
Naulu m. Vento que sopra contrário ao vento Ukiukiu na ilha de Maui no Havai.
Nortada f. Vento agreste e frio, que sopra do norte.
Nortão m. Prov. Vento do norte.
Noto m. Poét. Vento do sul, entre os antigos Romanos.
Oressa f. Prov. Ar, viração, aragem.
Palmelão m. Pop. Vento forte que sopra do lado de Palmela para Lisboa; vento do sul para sueste.
Pampeiro adj. Vento sudoeste violento que sopra na costa brasileira e argentina, acompanhado de chuvas, cuja duração pode ir de 6 a 26 horas.
Pé-de-vento m. Vento forte mas de pouca duração.
Ponente ou poente m. Vento que sopra do ocidente.
Ponteiro adj. Diz-se do vento contrário à navegação e que sopra pela proa.
Puelche m. Ventos que atravessam a Patagónia argentina vindos do Atlântico e que ao chegarem ao litoral chileno chocam com os ventos do Pacífico e viram para norte com rajadas geladas.
Rabanada f. Rajada de vento.
Rafada f. Prov. Ventania forte mas passageira; rajada.
Rafalo m. Náut. Ant. Vento impetuoso que sopra da terra.
Rajada f. Vento forte, imprevisto e de curta duração; rabanada.
Rafega, refega ou refrega f. Pé-de-vento; redemoinho.
Redemoinho ou remoinho m. Pé-de-vento, rajada, tufão.
Refrega de vento loc. Rajada de vento, rabanada.
Reganho adj. Ant. Vento reganho: vento aquilão.
Remandiola f. Prov. Vento fraco, incerto, em ocasião de trovoada no Verão.
Rodéu m. Bras. Turbilhão tempestuoso; espécie de ciclone.
Salvante adj. Diz-se do vento favorável.
Samatra m. Temporal violento e normalmente de fraca duração que se levanta no estreito de Malaca vindo de Samatra.
Samiel m. Vento forte e perigoso, dos desertos da Arábia, e que só faz sentir as suas devastações a quatro pés acima do solo; os Árabes deitam-se no chão e assim escapam à influência do samiel.
Setentrião m. Vento do norte.
Simum m. Vento muito quente que sopra do centro da África para norte.
Siroco m. Nome dado no Mediterrâneo e nas costas da África a um vento quente que sopra do sudeste.
Soão m. Desus. Vento que sopra do oriente e do nordeste.
Sobrevento m. Rajada súbita de vento que perturba a marcha de um navio.
Solano m. Vento quente da África que se faz algumas vezes sentir em Espanha.
Suão ou sulão m. e adj. Vento quente do sul e sueste.
Subsolano m. Vento do levante.
Subvéspero m. Desus. Vento do sudoeste.
Suestada f. Vento forte que sopra de sueste.
Surim m. Vento de sueste, muito quente, que no Verão sopra das praias do golfo Pérsico.
Tarasco m. Prov. alg. Vento áspero e cortante.
Tarós m. Prov. alg. Vento de sueste.
Terral adj. Que sopra da terra.
Terralão m. Bras. Vento da terra, que sopra rijo.
Terrenho adj. O que sopra do lado da terra para o mar.
Tornado m. Vento ciclónico em área localizada; é um remoinho de ar com movimento no sentido do relógio, cuja velocidade pode atingir valores da ordem dos 200 km/h, cobrindo uma área que em regra não ultrapassa uma a duas centenas de metros.
Tramontana f. O vento do norte.
Travessão adj. Vento rijo; vento contrário.
Tufão m. Designação chinesa dos ciclones tropicais que ocorrem nas regiões ocidentais do oceano Pacífico; são designados furacões no oceano Índico e ciclones no mar da Arábia e na baía de Bengala.
Ukiukiu m. Vento alísio de nordeste que sopra no Havai na ilha de Maui.
Vara f. Tufão ou furacão do mar das Índias, geralmente em Setembro ou Outubro.
Vara do Coromandel loc. Vento fresco do quadrante leste que sopra no equinócio do Outono na costa do Coromandel, na Índia.
Vendaval m. Vento impetuoso; temporal.
Ventania f. Vento forte e contínuo.
Vento de porão loc. Também conhecido por vento auxiliar. A direcção e intensidade deste vento depende da direcção imprimida pelo leme à embarcação e da potência do motor instalado no porão.
Vento de repiquete loc. O que corre todos os rumos, durante pouco tempo em cada um.
Viração f. Vento brando e fresco.
Xamal m. Vento pestilencial que sopra em Ormuz.
Xaroco ou xarouco m. Vento quente de sueste sobre o Mediterrâneo.│Prov. alent. Vento frio que no Inverno sopra de levante.
Zéfiro m. Vento suave e fresco; aragem; viração.
Zoeira f. Prov. minh. Vento tempestuoso.


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Colocação do pronome

Fase pré-gramatical

      «In fact the argument was largely accepted by the major philosophers who succeded Anselm, so it counts as one of the most influential philosophical arguments in history.» «De facto, o argumento foi amplamente aceite pelos mais importantes filósofos que o sucederam, e, assim, é considerado um dos argumentos filosóficos mais influentes da História.» Ora, vamos lá ver: o pronome pessoal «o» não é a forma pronominal do complemento directo? E neste caso o verbo «suceder» não pede complemento introduzido pela preposição «a» («Filósofos que sucederam a Anselmo»)? E este complemento não se substitui pronominalmente pelo pronome pessoal forma de complemento indirecto «lhe»? Ou é tudo intuitivo? Deveria ter sido escrito: «De facto, o argumento foi amplamente aceite pelos mais importantes filósofos que lhe sucederam, e, assim, é considerado um dos argumentos filosóficos mais influentes da História.»

Filosofia da linguagem

Desconversas

      Munido da Teoria Inferencial das Implicaturas, de H. P. Grice, as conversas com os vizinhos são muito mais filosóficas. Um dos condóminos pergunta-me: «O que acha da nova administração cá do prédio?» Respondo: «Não está mal, para o início. Ouvi dizer que uma junta médica psiquiátrica reformou o administrador.» Com a minha resposta, um pouco como no exemplo clássico que ilustra a teoria, mostro ao meu interlocutor que estou indeciso sobre as qualidades do administrador e, sobretudo, sugiro ou insinuo que a administração poderá descambar até ao fim do mandato, pois o indivíduo sobre quem falamos é maluco. Mas esta última informação será o meu interlocutor a inferi-la das minhas palavras. É o método preferido dos políticos, para mais facilmente terem uma escapatória. Mais tarde, sempre poderão dizer: «Bem, eu não queria dizer isso que está a afirmar: estimo muito o meu adversário.»

Colocação do pronome

Pense bem

     Pois é, cara Luísa Pinto, mas escrever «Ao ler Chomsky de novo apercebi-me…» é diferente de «Ao ler Chomsky de novo me apercebi…», ou não percebeu? Com a primeira frase, quem escreve está a dizer que ao ler mais uma vez a obra de Chomsky se apercebeu de algo; com a segunda, pretende afirmar que ao ler a obra de Chomsky, pela primeira, pela segunda ou pela vigésima vez, se apercebeu novamente de algo. Logo, estão ambas correctíssimas, mas têm significados substancialmente diferentes.

A moral e o moral

Até os melhores

      Como é que tradutores de alto coturno (mesmo que estejam de chinelas) ainda confundem a moral com o moral? Não é de espantar que tenham uma licenciatura; espantoso é que tenham passado da 4.ª classe. «Morale was therefore low.» «A moral estava, pois, em baixo.» Claro, bem sei, este é daqueles erros comezinhos, mas veja-se como escorregam nele os mais sabedores. Já Rodrigo de Sá Nogueira se vira obrigado a distinguir: «Moral (a) Moral (o) — Este termo emprega-se nos dois géneros: no feminino e no masculino, com as seguintes diferenças: no feminino, diz-nos o Dic. Contemporâneo: “a parte da philosofia que trata dos costumes, deveres e modo de proceder dos homens para com os outros homens”; no masculino, diz-nos o mesmo Contemporâneo: “Tudo o que diz respeito à inteligência ou espírito por oposição ao que é material”. — Dizemos com propriedade em português: “F... tem uma moral detestável”, isto é, “um sentimento e um procedimento contrários aos bons costumes”; “F... está com um moral desgraçado”, isto é, “num estado de espírito de desalento, de derrotismo”» (Dicionário de Erros e Problemas de Linguagem, Livraria Clássica Editora, Lisboa, 4.ª edição, 1995, p. 298).

Rodapé

Assédio a sério

      Uma leitora pede-me duas coisas: que explique quem (diacho?) foi Fr. António Taveira, que cito no rodapé do blogue, e que divulgue aqui o meu número de telemóvel.
      Claro que muito me separa de Camilo, e não são só as bexigas. Mas estou a ver que qualquer dia também me pedem uma colectânea de apotegmas, como Camilo temia que certo sujeito, «teimoso como um burro... literato, vá lá», ousasse fazer. Acedo. Frei António Taveira foi um frade dominicano que andou por Timor e arredores, por volta da segunda metade do século XVI, e por lá baptizou umas cinco mil almas. É obra. O meu número de telemóvel é o 966 _ _ _ 073. Agora veja lá o que faz com a informação...

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