Pronúncia: «medíocre»

Não diga MEDIÚCRE!

      É: — me – o – cre.
      O o era breve em latim.

Vasco Botelho de Amaral, in A Bem da Língua Portuguesa, 
boletim da Sociedade de Língua Portuguesa, n.º 1, 1949.

Particípio passado duplo

Cuidado com os temas!

      Apesar de considerar que os diversos temas, seis ou sete, tratados em cada emissão não têm muita articulação entre si, no que o telespectador perde, pois retém menos informação, acho que o programa Cuidado com a Língua! cumpre bem com o que deve ser um serviço público. De lamentar é as outras televisões não terem programas semelhantes, de divulgação e defesa da língua portuguesa. O meio, contudo, tem limitações. Pergunto a mim mesmo que utilidade pode ter tratar em televisão um aspecto da língua como o do duplo particípio passado. Não nos esqueçamos que o público-alvo não são os especialistas da língua. O ritmo a que tudo é tratado — e não estou a falar da voz off de Maria Flor Pedroso, que é excelente, bem colocada, que não nos deixa cansados como a de certos colegas seus da rádio, que falam a mata-cavalo — não é o mais adequado para falar da língua. É, ainda assim, de aplaudir, pois põe ao alcance de todos, quase imperceptivelmente, uma solução para dúvidas de sempre que nunca se preocuparam em resolver.
      Bem fariam os responsáveis da RTP se mandassem publicar nos principais jornais, semana a semana, a transcrição das várias emissões do programa. Entretanto, deixo aqui a transcrição do tema relativo aos particípios passados duplos.

      «Será que se diz morrido ou morto? E, da mesma forma, matado ou morto? Matar e morrer são dois bons exemplos de verbos com duplo particípio passado. Matar, ter, haver matado; ser, estar morto; e morrer, ter, haver morrido; ser, estar morto. A diferença está no verbo auxiliar com que se conjugam. Nós tínhamos matado o cordeiro quando… e não Nós tínhamos morto o cordeiro quando. Foi morto por uma bala e não Foi matado por uma bala. Se não tivesse morrido tão jovem e não Se não tivesse morto tão jovem. Apareceu morto na praia e não Apareceu morrido na praia. Existem muitos outros verbos com duplo particípio passado, ou seja, com um particípio passado regular e um irregular:

Acender: acendido/aceso
Dispersar: dispersado/disperso
Dissolver: dissolvido/dissoluto
Empregar: empregado/empregue
Encarregar: encarregado/encarregue
Ganhar: ganhado/ganho
Imergir: imergido/imerso
Imprimir: imprimido/impresso
Pagar: pagado/pago.»

Pronúncia: «período»

Não diga PERIÚDO!

      É: — pe – o – do.
     O o era breve em grego e em latim.

Vasco Botelho de Amaral, in A Bem da Língua Portuguesa, 
boletim da Sociedade de Língua Portuguesa, n.º 1, 1949.

A moda das palavras: «evento»

Imagem: http://www.hbo.com/

Associação de ideias

      Cada vez que passo por Envendos, a caminho dos enigmáticos montes Hermínios, lembro-me sempre de duas coisas: de a determinada altura (não avanço uma data porque, como dizia J. M. Barrie, não sou suficientemente novo para saber tudo) os Portugueses, ou pelo menos alguns, terem descoberto a palavra «evento», embora lidimamente portuguesa porque bem latina; e da série Os Sopranos, em que durante vários episódios vimos o casal Carmela e Tony a insistir para que o filho mais novo, AJ, frequentasse certo curso de «event planning». O adolescente enjoado e indolente abespinhava-se sempre e perguntava que raio era isso. Também eu tenho um ódio de estimação a esta palavrinha inofensiva. Certame, acontecimento, iniciativa… tudo menos «evento».

Ordem directa

É escritor?

Não abuse da ordem directa!

      Fénelon confessou que tal construção exclui toda a suspensão do espírito, toda a expectação, toda a surpresa, e muitas vezes toda a cadência majestosa!

Vasco Botelho de Amaral, in A Bem da Língua Portuguesa, 
boletim da Sociedade de Língua Portuguesa, n.º 1, 1949.

Pluralização de apelidos

Dou-lhe 20 valores

      Dá gosto ver num texto de Marcelo Rebelo de Sousa (ainda que possa ser, estamos entendidos, emenda de revisor) a pluralização de apelidos, matéria que já aqui tratei. Leia-se: «O PCP vai convidar o Partido Comunista da Coreia do Norte para um Encontro Internacional, em Lisboa. É nestas coisas que se vê que o PCP, às vezes, parece os Bourbons. Não esquece nada mas também não aprende nada» («PCP igual aos Bourbons», «Blogue», Sol, 11.11.2006, p. 70). Claro que aquele «Encontro Internacional» não tem de estar em caixa alta e uma vírgula antes da adversativa vinha a calhar. Vejam como escrevem os Italianos: «Erano nell’antica roccaforte dei Borboni…» «Estavam no antigo bastião dos Bourbons…» Repare-se que o singular é «Borbone». Entre nós, há alguma relutância (e ignorância) na pluralização dos apelidos. Contudo, parece que por vezes os jornalistas, escritores e tradutores o fazem inevitavelmente, como neste título do Diário de Notícias: «Loureiros escolhiam árbitros para o Boavista» (Carlos Rodrigues Lima, 6.09.2006, p. 24). Se em vez da família Loureiro fosse a família Bonaparte ou Habsburgo, dificilmente escreveriam «os Bonapartes» ou «os Habsburgos». Felizmente há revisores.

Topónimo: Samatra

Sumatra, não!

      Os próprios Ingleses reconhecem que foram os Portugueses que lhes deram a conhecer o nome de Samatra!

Vasco Botelho de Amaral, in A Bem da Língua Portuguesa, 
boletim da Sociedade de Língua Portuguesa, n.º 1, 1949.

Toponímia portuguesa

Sic probo…

      É-me frequentemente solicitada ajuda e pedida bibliografia sobre toponímia, uma preocupação constante de tradutores e de revisores. Sobre topónimos portugueses há uma obra interessante. Na realidade, é uma obra contra outra obra. Com o título Toponímia Portuguesa (Um Exame a Um Dicionário), para não enganar ninguém, da autoria de A. de Almeida Fernandes, autor de vasta obra, e editada, em 1999, pela Associação para a Defesa da Cultura Arouquense, pode ler-se numa nota inicial (Esclarecimento): «Elaborar um dicionário onomástico português, como o executou o Dr. José Pedro Machado, é uma deficientíssima aventura, toponimicamente: primeiro, porque se ignora na quase totalidade a toponímia rústica, a qual as matrizes prediais podem informar, ainda que mesmo elas com deficiências; depois, porque nada é possível sem respeitar-se a lei toponímica lógica ou da congruência, o que não faz aquele autor, que parece ignorá-la de todo (e, com ele, e como ele, os mais “explicadores” ou “etimologistas”, infelizmente), porque a lei fonológica, isto é, a científica, embora indispensável, está longe de bastar. […] Apenas me ocuparei dos nomes que o autor registou. A minha finalidade não é, pois, substituir o Dicionário Onomástico daquele autor por outro de minha lavra, mas simplesmente mostrar os seus erros e equívocos […].» A obra tem umas compactas 576 páginas de muita erudição e fundamentada discordância.

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