A moda das palavras: «evento»

Imagem: http://www.hbo.com/

Associação de ideias

      Cada vez que passo por Envendos, a caminho dos enigmáticos montes Hermínios, lembro-me sempre de duas coisas: de a determinada altura (não avanço uma data porque, como dizia J. M. Barrie, não sou suficientemente novo para saber tudo) os Portugueses, ou pelo menos alguns, terem descoberto a palavra «evento», embora lidimamente portuguesa porque bem latina; e da série Os Sopranos, em que durante vários episódios vimos o casal Carmela e Tony a insistir para que o filho mais novo, AJ, frequentasse certo curso de «event planning». O adolescente enjoado e indolente abespinhava-se sempre e perguntava que raio era isso. Também eu tenho um ódio de estimação a esta palavrinha inofensiva. Certame, acontecimento, iniciativa… tudo menos «evento».

Ordem directa

É escritor?

Não abuse da ordem directa!

      Fénelon confessou que tal construção exclui toda a suspensão do espírito, toda a expectação, toda a surpresa, e muitas vezes toda a cadência majestosa!

Vasco Botelho de Amaral, in A Bem da Língua Portuguesa, 
boletim da Sociedade de Língua Portuguesa, n.º 1, 1949.

Pluralização de apelidos

Dou-lhe 20 valores

      Dá gosto ver num texto de Marcelo Rebelo de Sousa (ainda que possa ser, estamos entendidos, emenda de revisor) a pluralização de apelidos, matéria que já aqui tratei. Leia-se: «O PCP vai convidar o Partido Comunista da Coreia do Norte para um Encontro Internacional, em Lisboa. É nestas coisas que se vê que o PCP, às vezes, parece os Bourbons. Não esquece nada mas também não aprende nada» («PCP igual aos Bourbons», «Blogue», Sol, 11.11.2006, p. 70). Claro que aquele «Encontro Internacional» não tem de estar em caixa alta e uma vírgula antes da adversativa vinha a calhar. Vejam como escrevem os Italianos: «Erano nell’antica roccaforte dei Borboni…» «Estavam no antigo bastião dos Bourbons…» Repare-se que o singular é «Borbone». Entre nós, há alguma relutância (e ignorância) na pluralização dos apelidos. Contudo, parece que por vezes os jornalistas, escritores e tradutores o fazem inevitavelmente, como neste título do Diário de Notícias: «Loureiros escolhiam árbitros para o Boavista» (Carlos Rodrigues Lima, 6.09.2006, p. 24). Se em vez da família Loureiro fosse a família Bonaparte ou Habsburgo, dificilmente escreveriam «os Bonapartes» ou «os Habsburgos». Felizmente há revisores.

Topónimo: Samatra

Sumatra, não!

      Os próprios Ingleses reconhecem que foram os Portugueses que lhes deram a conhecer o nome de Samatra!

Vasco Botelho de Amaral, in A Bem da Língua Portuguesa, 
boletim da Sociedade de Língua Portuguesa, n.º 1, 1949.

Toponímia portuguesa

Sic probo…

      É-me frequentemente solicitada ajuda e pedida bibliografia sobre toponímia, uma preocupação constante de tradutores e de revisores. Sobre topónimos portugueses há uma obra interessante. Na realidade, é uma obra contra outra obra. Com o título Toponímia Portuguesa (Um Exame a Um Dicionário), para não enganar ninguém, da autoria de A. de Almeida Fernandes, autor de vasta obra, e editada, em 1999, pela Associação para a Defesa da Cultura Arouquense, pode ler-se numa nota inicial (Esclarecimento): «Elaborar um dicionário onomástico português, como o executou o Dr. José Pedro Machado, é uma deficientíssima aventura, toponimicamente: primeiro, porque se ignora na quase totalidade a toponímia rústica, a qual as matrizes prediais podem informar, ainda que mesmo elas com deficiências; depois, porque nada é possível sem respeitar-se a lei toponímica lógica ou da congruência, o que não faz aquele autor, que parece ignorá-la de todo (e, com ele, e como ele, os mais “explicadores” ou “etimologistas”, infelizmente), porque a lei fonológica, isto é, a científica, embora indispensável, está longe de bastar. […] Apenas me ocuparei dos nomes que o autor registou. A minha finalidade não é, pois, substituir o Dicionário Onomástico daquele autor por outro de minha lavra, mas simplesmente mostrar os seus erros e equívocos […].» A obra tem umas compactas 576 páginas de muita erudição e fundamentada discordância.

Apostila: «bilhética»

Ou melhor

      Uma consulente do Ciberdúvidas, citando uma notícia publicada no jornal O Primeiro de Janeiro, quis saber se a palavra «bilhética» existe, pois que a não encontrou em nenhum dos dicionários que consultou. O consultor responde que se trata de um neologismo, avança com as ocorrências do termo no Google e acaba com a seguinte observação: «O significado desta nova palavra parece ser “estudo e planeamento de sistemas de bilhetes”.» Ora, no contexto da notícia que a consulente cita, não é seguramente nem parece ser esse o significado, e isso todos podemos ver. «Nova bilhética na STCP. No dia 1 de Janeiro do próximo ano toda a rede da STCP estará equipada com o sistema intermodal. A partir de hoje arranca uma fase de transição que permitirá aos clientes aderir à nova bilhética sem contacto. O passe e as senhas tradicionais vão acabar.» O mero adjectivo («nova») e a referência a uma «bilhética sem contacto» sugerem que não se trata do «estudo e planeamento de sistemas de bilhetes», mas do próprio sistema e dos bilhetes em si.

Ortoépia: «rapsódia»

Não profira rapzódia!

      O psi grego de rhapsodía e o português ps lêem-se como ps, e não como pz.


Vasco Botelho de Amaral, in A Bem da Língua Portuguesa, 
boletim da Sociedade de Língua Portuguesa, n.º 1, 1949.

Ortoépia: «obsoleto»

Faça o obséquio…

      A convicção com que Vasco Trigo, no Jornal 2: de ontem, pronunciou «obzoletos» faz-me temer o pior. A dúvida sobre se é com e aberto ou fechado sabia que pairava em algumas mentes, nunca sobre o valor do s. Em relação à rádio, João Paulo Meneses (Tudo o que se passa na TSF — … para um «livro de estilo», Editorial Notícias, 2003) diz em relação aos «pequenos erros»: «Podemos rectificar de imediato mas também deixar seguir: se tivermos em conta que qualquer rectificação funciona como um alerta (redobrado) do próprio erro, então nestas pequenas gralhas a correcção não é necessária» (p. 269). Contudo, é comum, na rádio e na televisão, os profissionais corrigirem, se se apercebem e sabem que estão a incorrer em erro, silabadas. Ora, nestes casos o ouvinte ou o telespectador não volta a ouvir o erro — ouve apenas a correcção. Referir o erro, estamos de acordo, seria agravar as consequências do erro. Sei que há professores que incentivam os alunos a escrever num caderninho os erros e, à frente, a forma correcta das palavras. Na minha opinião, esta é uma prática antipedagógica.
      Voltando a «obsoleto», a única sequência obs- em que o s vale por z, mas isso devido a um fenómeno de assimilação, que não ocorreu neste vocábulo, é em «obséquio» (e palavras da família deste), que devemos pronunciar /obzéquio/.

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