Apostila: «bilhética»

Ou melhor

      Uma consulente do Ciberdúvidas, citando uma notícia publicada no jornal O Primeiro de Janeiro, quis saber se a palavra «bilhética» existe, pois que a não encontrou em nenhum dos dicionários que consultou. O consultor responde que se trata de um neologismo, avança com as ocorrências do termo no Google e acaba com a seguinte observação: «O significado desta nova palavra parece ser “estudo e planeamento de sistemas de bilhetes”.» Ora, no contexto da notícia que a consulente cita, não é seguramente nem parece ser esse o significado, e isso todos podemos ver. «Nova bilhética na STCP. No dia 1 de Janeiro do próximo ano toda a rede da STCP estará equipada com o sistema intermodal. A partir de hoje arranca uma fase de transição que permitirá aos clientes aderir à nova bilhética sem contacto. O passe e as senhas tradicionais vão acabar.» O mero adjectivo («nova») e a referência a uma «bilhética sem contacto» sugerem que não se trata do «estudo e planeamento de sistemas de bilhetes», mas do próprio sistema e dos bilhetes em si.


Ortoépia: «rapsódia»

Não profira rapzódia!

      O psi grego de rhapsodía e o português ps lêem-se como ps, e não como pz.


Vasco Botelho de Amaral, in A Bem da Língua Portuguesa, 
boletim da Sociedade de Língua Portuguesa, n.º 1, 1949.

Ortoépia: «obsoleto»

Faça o obséquio…

      A convicção com que Vasco Trigo, no Jornal 2: de ontem, pronunciou «obzoletos» faz-me temer o pior. A dúvida sobre se é com e aberto ou fechado sabia que pairava em algumas mentes, nunca sobre o valor do s. Em relação à rádio, João Paulo Meneses (Tudo o que se passa na TSF — … para um «livro de estilo», Editorial Notícias, 2003) diz em relação aos «pequenos erros»: «Podemos rectificar de imediato mas também deixar seguir: se tivermos em conta que qualquer rectificação funciona como um alerta (redobrado) do próprio erro, então nestas pequenas gralhas a correcção não é necessária» (p. 269). Contudo, é comum, na rádio e na televisão, os profissionais corrigirem, se se apercebem e sabem que estão a incorrer em erro, silabadas. Ora, nestes casos o ouvinte ou o telespectador não volta a ouvir o erro — ouve apenas a correcção. Referir o erro, estamos de acordo, seria agravar as consequências do erro. Sei que há professores que incentivam os alunos a escrever num caderninho os erros e, à frente, a forma correcta das palavras. Na minha opinião, esta é uma prática antipedagógica.
      Voltando a «obsoleto», a única sequência obs- em que o s vale por z, mas isso devido a um fenómeno de assimilação, que não ocorreu neste vocábulo, é em «obséquio» (e palavras da família deste), que devemos pronunciar /obzéquio/.

Citação

«A paradox is truth standing on its head to attract attention.»

«Um paradoxo é uma verdade de pernas para o ar, para chamar a atenção.»
Nicholas Falletta

Lexicografia. Desprevenido

Não é o mesmo

      «Nuno está desprevenido, mas a namorada chega, entretanto, ao local e faz o pagamento» («Caça a alta velocidade», Sónia Graça, Sol, 14.10.2006, p. 32). Nem todos os dicionários registam, no verbete relativo ao adjectivo «prevenido», a acepção de «munido de dinheiro». Os que o fazem, fazem-no de forma diversa.
      Vejamos. O Dicionário Houaiss regista-o numa subentrada como acepção particular: «prevenido adj. que traz dinheiro consigo. Não pôde acompanhá-los ao restaurante porque não estava p.» O Dicionário da Academia, por seu lado, numa técnica que me parece menos apurada, consigna, também como acepção: «prevenido, a adj. Que está preparado. ± PRONTO. ≠ DESPREVENIDO. Não estava prevenida para fazer a conferência por isso fez apenas uma breve alocução. Não pôde comprar a camisola pois não vinha prevenido com dinheiro suficiente
      A maioria dos meus leitores poderá não estar sensibilizada para esta problemática. Contudo, é da máxima importância para um estrangeiro que esteja a aprender português e para qualquer criança até certa idade. Para vocábulos incomuns, é, está bem de ver, importante para qualquer pessoa. Suponhamos agora que um estrangeiro ou uma criança portuguesa só têm, por infausto acaso, a mais recente edição do Dicionário da Língua Portuguesa da Texto Editores (e só refiro este porque o tenho à minha frente, não por qualquer animosidade ou difidência): não ficariam esclarecidos. Uma personagem de uma obra de Robert Walser diz a propósito de determinada situação: «Isto aconteceu nos Cárpatos, o que pode servir de desculpa.» Muitas coisas terão de mudar em Portugal, e entre elas os dicionários.

O regresso do latim

Órfãos da língua

      Não conhecer um pouco que seja de latim é como estimarmos muito o nosso nome mas não querermos saber quem foram os nossos avós. Podíamos pensar que o erro colossal que foi tirar o Latim do currículo do ensino secundário em Portugal ainda foi uma consequência de esta língua ter perdido importância no seio da Igreja Católica, após o Concílio Vaticano II. (A propósito, deve dizer-se que os textos conciliares não decretaram, como muitas vezes se afirma, que se não usasse o latim na Igreja. Na verdade, o que se pode ler naqueles textos é: «Linguae latinae usus, salvo particulari iure, in Ritibus latinis servetur»*, Sacrosanctum Concilium, 36,1.) Na Igreja, o latim caiu em desuso, pela valorização que se deu às línguas vernáculas; no ensino em Portugal, foi escorraçado como coisa inútil. O certo é que, noutros países europeus, o latim se manteve nos currículos escolares e é considerado nuclear, mesmo na Grã-Bretanha, em que a influência do latim no inglês é incomparavelmente menor do que a que teve nas chamadas línguas novilatinas. Talvez com a reintrodução, embora condicionada, do latim na missa o Governo português, e em especial o Ministério da Educação, abra os olhos e reponha o estudo desta língua nos currículos, reparando um erro que tão nefastas consequências tem tido para todo o ensino.
      Termino citando um magnífico texto de Jorge Silva Melo («E sem latim?», Mil Folhas/Público, 17.11.2006, p. 5) sobre o mesmo assunto: «“Não se pode viver sem Rosselini!”, berrava nas ruas o cineclubista apaixonado de Bertolucci. E sem latim, podemos?
      Podemos ignorar o carrilhão que nos atropela a conversa, passar incólume ao lado dos fundamentos daquilo que pensamos, seguir o nosso caminho sem ver as pedras que os romanos (os escravos dos romanos, claro) transportaram, podemos ignorar tudo o que nos fez viver assim, bastardos, neste eterno presente nascido esta manhã na revista do dia? Podemos viver sem latim?»


*«O uso da língua latina, salvo direitos particulares, seja conservado nos ritos latinos.»

Diminutivos em -zinho

A minha receita

      Um vizinho ficou desempregado e com a indemnização quer estabelecer-se com um negócio. Talvez um barzinho, alvitrou. Já há muitos barezinhos aqui no bairro, disseram-lhe as mulherezinhas lá de casa.
      Vejamos se a Dona Gramática concorda. O diminutivo (ainda há menos de um mês ouvi um escritor — um escritor! — dizer «diminuitivo») de «bar» é inequivocamente «barzinho». Já o plural pode dividir as hostes. O sufixo -zinho, amplamente analisado, em especial por estudiosos brasileiros, é muito mais complexo do que o sufixo -inho. Na verdade, é como se fosse um adjectivo colado ao vocábulo primitivo. O processo de pluralização de palavras com este sufixo é o seguinte: separe, no singular, o sufixo do vocábulo primitivo: bar-zinho. Seguidamente, ponha ambos os elementos no plural: bares-zinhos. Por fim, elimine o s da palavra original, e eis o diminutivo pluralizado: barezinhos. Como botãobotõezinhos; balãobalõezinhos; papelpapeizinhos; anzolanzoizinhos; colarcolarezinhos; florflorezinhas; pastelpasteizinhos; coronelcoroneizinhos; mulhermulherezinhas.
      Chegámos aonde eu queria: já vejo muitas cabeças a dizerem que não. O que acontece é que, em Portugal como no Brasil, se verifica uma tendência para limitar o plural dos substantivos terminados em -r à terminação da forma derivada: colarzinho/colarzinhos; florzinha/florzinhas; mulherzinha/mulherzinhas. Contudo, esta é uma forma anómala — legitimada, porém, pelo uso —, que foge à regra culta. Certo é que, ao contrário de outros estudiosos da língua, José Manuel Castro Pinto, no seu excelente Novo Prontuário Ortográfico (Plátano Editora) adverte: «Seria purismo injustificado escrever mulherezinhas e amorezinhos, até porque o plural se forma instintivamente numa relação directa: mulherzinha > mulherzinhas» (p. 60 da 3.ª edição da referida obra). Não afirma, como outros fazem, que seria incorrecto escrever «mulherezinha», porque não seria. Digamos que o purismo está para o erro como um defeito para uma doença: não há uma diferença de grau, mas de natureza.



Língua e ciência

A nossa língua franca

      Digno de ponderada reflexão é o texto de António Fidalgo, professor da Universidade da Beira Interior, a propósito do uso do português na ciência, publicado no dia 12 do corrente no Diário de Notícias («O vernáculo e a ciência em Portugal», p. 7), de que tomo a liberdade de extrair o último parágrafo:

     «Portugal já teve uma época em que as suas elites liam e escreviam em francês. A Geração de 70 foi educada no francês, tal como em francês foram formados os positivistas lusos do final da monarquia e do princípio da república. Dessa formação científica que passou para o povo? Pouco efectivamente. Não se repita agora o erro com o inglês. A cultura científica da sociedade portuguesa tem de ser feita em português, porque só pode ser feita em português. É em português que vivem e pensam os portugueses e será na sua língua que terão de se cultivar cientificamente, caso essa cultura não seja postiça.»

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