Citação

«A paradox is truth standing on its head to attract attention.»

«Um paradoxo é uma verdade de pernas para o ar, para chamar a atenção.»
Nicholas Falletta

Lexicografia. Desprevenido

Não é o mesmo

      «Nuno está desprevenido, mas a namorada chega, entretanto, ao local e faz o pagamento» («Caça a alta velocidade», Sónia Graça, Sol, 14.10.2006, p. 32). Nem todos os dicionários registam, no verbete relativo ao adjectivo «prevenido», a acepção de «munido de dinheiro». Os que o fazem, fazem-no de forma diversa.
      Vejamos. O Dicionário Houaiss regista-o numa subentrada como acepção particular: «prevenido adj. que traz dinheiro consigo. Não pôde acompanhá-los ao restaurante porque não estava p.» O Dicionário da Academia, por seu lado, numa técnica que me parece menos apurada, consigna, também como acepção: «prevenido, a adj. Que está preparado. ± PRONTO. ≠ DESPREVENIDO. Não estava prevenida para fazer a conferência por isso fez apenas uma breve alocução. Não pôde comprar a camisola pois não vinha prevenido com dinheiro suficiente
      A maioria dos meus leitores poderá não estar sensibilizada para esta problemática. Contudo, é da máxima importância para um estrangeiro que esteja a aprender português e para qualquer criança até certa idade. Para vocábulos incomuns, é, está bem de ver, importante para qualquer pessoa. Suponhamos agora que um estrangeiro ou uma criança portuguesa só têm, por infausto acaso, a mais recente edição do Dicionário da Língua Portuguesa da Texto Editores (e só refiro este porque o tenho à minha frente, não por qualquer animosidade ou difidência): não ficariam esclarecidos. Uma personagem de uma obra de Robert Walser diz a propósito de determinada situação: «Isto aconteceu nos Cárpatos, o que pode servir de desculpa.» Muitas coisas terão de mudar em Portugal, e entre elas os dicionários.

O regresso do latim

Órfãos da língua

      Não conhecer um pouco que seja de latim é como estimarmos muito o nosso nome mas não querermos saber quem foram os nossos avós. Podíamos pensar que o erro colossal que foi tirar o Latim do currículo do ensino secundário em Portugal ainda foi uma consequência de esta língua ter perdido importância no seio da Igreja Católica, após o Concílio Vaticano II. (A propósito, deve dizer-se que os textos conciliares não decretaram, como muitas vezes se afirma, que se não usasse o latim na Igreja. Na verdade, o que se pode ler naqueles textos é: «Linguae latinae usus, salvo particulari iure, in Ritibus latinis servetur»*, Sacrosanctum Concilium, 36,1.) Na Igreja, o latim caiu em desuso, pela valorização que se deu às línguas vernáculas; no ensino em Portugal, foi escorraçado como coisa inútil. O certo é que, noutros países europeus, o latim se manteve nos currículos escolares e é considerado nuclear, mesmo na Grã-Bretanha, em que a influência do latim no inglês é incomparavelmente menor do que a que teve nas chamadas línguas novilatinas. Talvez com a reintrodução, embora condicionada, do latim na missa o Governo português, e em especial o Ministério da Educação, abra os olhos e reponha o estudo desta língua nos currículos, reparando um erro que tão nefastas consequências tem tido para todo o ensino.
      Termino citando um magnífico texto de Jorge Silva Melo («E sem latim?», Mil Folhas/Público, 17.11.2006, p. 5) sobre o mesmo assunto: «“Não se pode viver sem Rosselini!”, berrava nas ruas o cineclubista apaixonado de Bertolucci. E sem latim, podemos?
      Podemos ignorar o carrilhão que nos atropela a conversa, passar incólume ao lado dos fundamentos daquilo que pensamos, seguir o nosso caminho sem ver as pedras que os romanos (os escravos dos romanos, claro) transportaram, podemos ignorar tudo o que nos fez viver assim, bastardos, neste eterno presente nascido esta manhã na revista do dia? Podemos viver sem latim?»


*«O uso da língua latina, salvo direitos particulares, seja conservado nos ritos latinos.»

Diminutivos em -zinho

A minha receita

      Um vizinho ficou desempregado e com a indemnização quer estabelecer-se com um negócio. Talvez um barzinho, alvitrou. Já há muitos barezinhos aqui no bairro, disseram-lhe as mulherezinhas lá de casa.
      Vejamos se a Dona Gramática concorda. O diminutivo (ainda há menos de um mês ouvi um escritor — um escritor! — dizer «diminuitivo») de «bar» é inequivocamente «barzinho». Já o plural pode dividir as hostes. O sufixo -zinho, amplamente analisado, em especial por estudiosos brasileiros, é muito mais complexo do que o sufixo -inho. Na verdade, é como se fosse um adjectivo colado ao vocábulo primitivo. O processo de pluralização de palavras com este sufixo é o seguinte: separe, no singular, o sufixo do vocábulo primitivo: bar-zinho. Seguidamente, ponha ambos os elementos no plural: bares-zinhos. Por fim, elimine o s da palavra original, e eis o diminutivo pluralizado: barezinhos. Como botãobotõezinhos; balãobalõezinhos; papelpapeizinhos; anzolanzoizinhos; colarcolarezinhos; florflorezinhas; pastelpasteizinhos; coronelcoroneizinhos; mulhermulherezinhas.
      Chegámos aonde eu queria: já vejo muitas cabeças a dizerem que não. O que acontece é que, em Portugal como no Brasil, se verifica uma tendência para limitar o plural dos substantivos terminados em -r à terminação da forma derivada: colarzinho/colarzinhos; florzinha/florzinhas; mulherzinha/mulherzinhas. Contudo, esta é uma forma anómala — legitimada, porém, pelo uso —, que foge à regra culta. Certo é que, ao contrário de outros estudiosos da língua, José Manuel Castro Pinto, no seu excelente Novo Prontuário Ortográfico (Plátano Editora) adverte: «Seria purismo injustificado escrever mulherezinhas e amorezinhos, até porque o plural se forma instintivamente numa relação directa: mulherzinha > mulherzinhas» (p. 60 da 3.ª edição da referida obra). Não afirma, como outros fazem, que seria incorrecto escrever «mulherezinha», porque não seria. Digamos que o purismo está para o erro como um defeito para uma doença: não há uma diferença de grau, mas de natureza.



Língua e ciência

A nossa língua franca

      Digno de ponderada reflexão é o texto de António Fidalgo, professor da Universidade da Beira Interior, a propósito do uso do português na ciência, publicado no dia 12 do corrente no Diário de Notícias («O vernáculo e a ciência em Portugal», p. 7), de que tomo a liberdade de extrair o último parágrafo:

     «Portugal já teve uma época em que as suas elites liam e escreviam em francês. A Geração de 70 foi educada no francês, tal como em francês foram formados os positivistas lusos do final da monarquia e do princípio da república. Dessa formação científica que passou para o povo? Pouco efectivamente. Não se repita agora o erro com o inglês. A cultura científica da sociedade portuguesa tem de ser feita em português, porque só pode ser feita em português. É em português que vivem e pensam os portugueses e será na sua língua que terão de se cultivar cientificamente, caso essa cultura não seja postiça.»

Palavras homófonas

De outiva

      A partir de determinada idade, dir-se-ia, as palavras homófonas* deixam de constituir um problema. Pelo menos, para quem não é analfabeto funcional. (A propósito, comungo inteiramente da opinião de que nunca se deverá fazer dobragens em Portugal, pois em muitos casos as legendas serão as únicas palavras, tirando a correspondência, os talões do Multibanco e a omnipresente publicidade, que algumas pessoas lêem em toda a vida.) Ontem, alguém escreveu qualquer coisa como «[…] da reforma cluniacense, traduzida na riqueza mobiliária — na altura incalculável — dos cálices, báculos, crossas e relicários». Logo se afirmou que havia ali um erro indesculpável: a ortografia da palavra assinalada, no sentido que o contexto exige, é croça. Ora, não é assim ou não é tão simples. Ainda no último programa do Prof. José Hermano Saraiva (infelizmente sem legendas…), lá apareceu uma croça: a capa de palha que se usa no campo para se abrigar da chuva. Ou terá sido uma crossa? Foi uma croça, não há dúvida. Há um relativo consenso sobre a matéria.
      E no caso que cito, o do báculo episcopal, como deverá ser? Croça ou crossa? Aqui sim, há dúvidas. Se o étimo for o francês crosse, crossa deverá ser. Se for do baixo latim crocia, devemos grafar «croça». Domingos Vieira, que a dá como proveniente do baixo latim crucia ou crocia, regista a ortografia croça (ou coroça, como variante). O mesmo e pelas mesmas razões diz Plácido Barbosa, entre outros. Por outro lado, não podemos esquecer que há quem lhe dê como étimo o germânico krukkja, o que legitimaria igualmente a grafia croça. Enquanto não houver um conhecimento mais aprofundado do étimo, prefiro seguir — até para ser coerente com a preferência pela locução crossa da aorta**, que já me vi na contingência de ter de escrever — a forma registada no Dicionário Houaiss: crossa.


* Relembro a definição: palavras homófonas são aquelas que têm o mesmo som, mas se escrevem de forma diferente, como «à», contracção da preposição com o artigo, e «há», forma do verbo haver. Podemos distinguir, como fazem os Brasileiros, entre homófonas heterográficas (ou, entre nós, apenas homófonas), que são as palavras que se pronunciam da mesma forma, mas que se escrevem de forma diferente, como acento e assento; aço e asso; cem e sem; censo e senso; cerrar e serrar; cervo e servo; cessão e sessão; cinto e sinto; concelho e conselho; coser e cozer; era e hera; nós e noz; paço e passo; vós e voz; etc., e homófonas homográficas (ou, entre nós, homónimas), que são as palavras que se escrevem e pronunciam da mesma maneira, mas têm significado diferente, como amo (verbo) e amo (substantivo); canto (verbo) e canto (substantivo); cedo (verbo) e cedo (advérbio); conto (verbo) e conto (substantivo); rio (verbo) e rio (substantivo); saia (verbo) e saia (substantivo), etc.

** É curioso, na verdade, que ninguém tenha dúvidas em designar o arcus aortae como «crossa da aorta», pela semelhança, a curvatura, que tem com o báculo episcopal. Neste caso, parece não haver dúvidas de que o étimo é o francês.

Léxico: liceidade

Esta serve

      Há palavras que, embora virtualmente pudessem ser usadas de uma forma mais generalizada, ficaram ligadas a determinadas áreas. É o caso deste vocábulo de que hoje quero falar: liceidade. Uma busca no Google permite-nos saber que a única área do saber em que se usa, e não muito, é no Direito e, curiosamente, mais no que se refere às questões da bioética.
      De um relatório-parecer sobre a reprodução medicamente assistida (3/CNE/93), extraio o seguinte trecho: «Do ponto de vista ético, os embriões excedentários criam o mais grave dos problemas da FIVETE e ZIFT. Calcula-se que, só em França, existam actualmente 10 000 embriões excedentários congelados. Para muitos deles já não subsiste um projecto parental. Os destinos possíveis são: destruição, dação a um outro casal infértil ou uso para experiências de investigação não em seu benefício (ver II, 3) Existe, a nível mundial, uma irredutível controvérsia sobre a liceidade destes destinos, baseada na diversidade de opiniões acerca do estatuto do embrião — tem ele, ou não, a mesma dignidade da pessoa humana plenamente desenvolvida? Merece, ou não, a mesma protecção e respeito?» Está — condição para Mário Crespo a aceitar como legítima, acatável — dicionarizada. Em francês também existe, e com um campo de aplicação semelhante ao português: «LICÉITÉ, subst. fém. DR. CANON. Caractère d’un acte permis par la loi. Toutes les conditions sont observées pour que le sacrement soit administré conformément aux exigences de la morale et du droit canonique. […] la licéité et la validité posent des conditions à la fois dans le ministre, le sujet et le sacrement (Théol. cath. t. 14, 1 1939, p. 635). Prononc. : [liseite]. Étymol. et Hist. 1907 dr. canon. (Lar. pour tous). Dér. du lat. licere « être permis »; suff. -(i)té*; cf. le m. fr. licitité (1530 PALSGR., p. 237 b), dér. de licite*.» E no italiano: liceità. «L’essere lecito, l’essere permesso: la l. di un’azione, di un comportamento chiave di ricerca: liceità» (In De Mauro, um dos melhores dicionários de italiano online).

Gentílico: fueguino

Imagem: http://www.larc1.com/

Terra do Fogo

      Cara Ivette Ferreira: o natural ou habitante da Terra do Fogo designa-se «fueguino», por estranho que, à primeira vista, possa parecer, já que foi Fernão de Magalhães a dar o nome de Terra do Fogo a este fim do mundo. Contudo, «fueguino» vem de «Fuego» — Terra del Fuego —, como está bem de ver.

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