Léxico: «conversadeira»

Imagem: http://www.santos.sp.gov.br/
Vai falando…

      Outrora, muito antes de existir quase tudo o que define o nosso quotidiano e de se começar a construir em altura, numa tentativa de encaixar o maior número possível de seres humanos no espaço mais pequeno, algumas casas tinham assentos de pedra ou de alvenaria junto às janelas — eram as conversadeiras. Tipicamente portuguesas, as janelas de conversadeiras foram levadas para outras paragens, como, por exemplo, para o Brasil. A imagem que ilustra este texto é do Mosteiro e Colégio de São Bento, em São Paulo, Brasil, activíssimo centro cultural. Quem sabe se Frei Gaspar da Madre de Deus, um dos maiores historiadores do Brasil, não se sentou ali. Curioso, por outro lado, é o mosteiro pertencer aos beneditinos, ordem cujas regras insistem tanto no valor do silêncio.
     E, porque conversa puxa conversar, a verdade é que, em tempo de conversadeiras ou de chat rooms, todos sabemos que há conversas e conversas. O nosso adagiário reflecte-o:

Conversa comprida faz quem quer.
Conversa de amigos, roubo de tempo.
Conversa é valentia.
Conversa fiada não bota panela no fogo.
Conversa não resolve.
Conversando é que a gente se entende.
Conversação escandalosa argúi zelo danado.
Conversar com quem sabe porque descansa a gente.

Verbo «externalizar»

Vamos pôr tudo cá para fora

      O leitor Nuno Magalhães pediu-me que comentasse o seguinte texto de Vital Moreira, publicado no passado dia 9 no blogue Causa Nossa, sobre a legitimidade do verbo externalizar.

«Susceptibilidades

      O excelente Mário Crespo (SIC Notícias) não gostou de ver a palavra “externalizar” impressa num diploma legislativo, achando que ninguém entende o seu significado. Fica-lhe mal a observação. Mesmo se ainda não dicionarizado (mas quanto tempo demoram os neologismos a entrar nos dicionários?), esse termo segue o padrão de formação de verbos a partir de adjectivos na nossa língua (externo>externalizar), tal como o paralelo “exteriorizar” (de “exterior”), sendo hoje correntemente utilizado no âmbito da teoria da gestão, incluindo na administração pública (“nova gestão pública”), para designar a substituição de serviços administrativos pela contratação de serviços a entidades externas, ou seja, a entidades privadas, constituindo portanto um dos meios privilegiados para reduzir o peso da Administração Pública.»

      Embora Vital Moreira o tenha explicado cabalmente, é de realçar que o verbo, que é um neologismo, está regularmente formado (o nosso léxico tem cerca de quatro centenas de verbos terminados em -lizar) e, aparentemente, faz falta, uma vez que tem um campo de aplicação específico, o da economia e gestão, no qual não existe outro que expresse o mesmo conceito. Ainda recentemente se podia ler no Jornal de Negócios a seguinte definição de externalizar (que, esta sim, merecia figurar como abonação na próxima edição do Dicionário da Academia): «Externalizar quer dizer converter organismos em empresas (como na empresarialização dos hospitais), fazer parcerias público-privadas (como nas estradas, nas SCUT) ou privatizar (como vender empresas de transportes). A saúde é externalizável? E a educação? E as prisões? E...?» («O Estado que merecemos», Pedro S. Guerreiro, 31.03.2006). E sim, fica-lhe mal, a Mário Crespo, a observação.
 

Verbo «abusar»

Até quando, Catilina…

      O leitor Hugo Xavier pergunta-me se é correcto o uso que actualmente se faz ― que alguns jornalistas fazem, melhor ― do verbo abusar na voz passiva («a criança foi abusada», especifica o leitor). Dá depois como exemplo uma notícia do Correio da Manhã publicada no dia 7 do corrente, citando algumas frases: «[…] deteve indivíduo de 52 anos por abusar de deficiente […]»; «[…] homem de 38 anos por abusar ex-namorada de 43 […]»; «[…] por abusar mulher de 15, deficiente […]». Vamos por partes: o verbo abusar não é susceptível de ser usado na voz passiva, pois é preposicionado*. Quanto aos outros três exemplos que aduziu, é diferente: o jornalista usou o verbo na voz activa, o que é correcto, e usou-o com propriedade. Contudo, somente a primeira («abusar de deficiente») está correcta, pois apenas nela se usa a preposição que rege obrigatoriamente este verbo.

* Mas o P. António Vieira escreveu: «Amizades […] que no mundo se usam, e também nas que se abusam fora do mundo.» Regência hoje desusada.

«Topikar» e «paklé»

Imagem: http://i14.ebayimg.com/
Em Goa, de chapéu

      Até meados da década de 1990, via no Metro, com alguma frequência, um senhor baixo, com cerca de 80 anos. Era impossível deixar de reparar nele. Em plena Lisboa de fim de século, apresentava-se imaculadamente vestido com roupas dos trópicos. Não apenas calças e casaco caqui, o que apesar de tudo não é ainda hoje invulgar, mas também e exoticamente com o típico chapéu colonial introduzido pelos Ingleses nas suas colónias africanas e asiáticas. (E em Portugal fabricado pela Real e Imperial Chapelaria a Vapor de Costa Braga & Filhos, com instalações na Rua da Firmeza, no Porto.) Tão tipicamente ocidental, como se sabe, que na Índia os Ingleses eram conhecidos por topikar, numa alusão ao facto de usarem chapéu. O que, aliás, tem paralelo com os Portugueses, que eram designados em Goa por paklé (singular: pakló), o que se devia ao facto de usarem, quando houve o encontro de povos, chapéus ornados com penas (pak, em concani). Ainda hoje, época que prescindiu de qualquer ornamento ou protecção na cabeça, os goeses que se reúnem na Praça da Figueira tratam ― sem saberem porquê, muitas vezes ― os brancos por paklé.

Léxico: «gelaba» e «xeique»

Ao lado

      «Mohamed Ouakalou é um jovem marroquino de 26 anos, vestido com uma Djellaba, túnica tradicional do Sul de Marrocos» («Acabou-se o jejum. Muçulmanos celebraram o fim do Ramadão no Porto», Nuno Escobar de Lima, Sol, 28.10.2006, p. 36). Pois é, mas os dicionários registam gelaba e jilaba. «A associação de mesquitas de Sydney suspendeu por três meses o sheik Taj Din al-Hilali’s» («Sheik australiano lança polémica», Sol, 28.10.2006, p. 72). Pois é, mas os dicionários registam xeque e xeique.

Cule, evolução semântica


[…] aqui, estou metido num hotel, e quando discuto,
é sobre câmbios — e quando penso, é sobre coolies.

Eça de Queirós em carta a Ramalho Ortigão, 1873

O nosso cônsul em Havana

      Quando um tratado anglo-espanhol de 1817 tornou ilegal o tráfico de escravos, que afinal só já perto do fim do século, em 1886, acabaria, Cuba precisou de crescente mão-de-obra para as plantações de cana-de-açúcar que substituísse os escravos com que tinha podido contar durante mais de 300 anos. Foi precisamente nesta altura que se pensou levar os cules, primeiro de Hong Kong e depois de Macau. Como o porto de Macau era território português, a questão da emigração passou a constituir uma preocupação do Estado português. Quando Eça de Queirós, nomeado cônsul de 1.ª classe nas Antilhas Espanholas, chegou a Havana, em Dezembro de 1872, à falta de outros problemas ou interesses, passou a analisar a situação de quase escravatura que os cules sofriam.
      A palavra «cule» na Índia significa apenas um carregador ou trabalhador braçal. Encontravam-se, naturalmente, na base da escala social (mas acima, numa sociedade tão complexamente estratificada, dos intocáveis), e por isso a determinada altura começaram a emigrar. Quando Gandhi estava na África do Sul, a palavra «cule» tinha uma forte conotação de desprezo, e todos os indianos eram designados cules. Os ingleses que estavam na colónia, numa demonstração de crassa ignorância, também chamavam samis aos cules, que é uma palavra que vem do tâmil e significa patrão, mestre (é o swami do sânscrito).

Semântica: «pontífice»

O fazedor de pontes

      De alguma maneira, com as jornadas inter-religiosas de Assis, o papel do Papa João Paulo II (Bento XVI, como se sabe, manifesta algumas reservas em relação a estes encontros) cumpriu-se integralmente. Como também é sabido, a Igreja Católica herdou — não forjou — o termo latino «pontifex» para designar o papa. Pontifex era o construtor de pontes romano (pontis facere), que, nos collegia fabrorum romanos, detinha a primazia. Apesar de tudo, convenhamos, no contexto social, um construtor de pontes não passava de um vulgar artífice. Por isso, na verdade, o pontifex maximus que os imperadores e os papas vão juntar aos demais títulos tinha origem na designação de um alto funcionário romano com funções sagradas — fazia sacrifícios nas pontes (facere in ponte), pois as pontes eram consideradas, na Antiguidade, locais sagrados. Havia simultaneamente oito pontífices em funções e ao principal era dado o nome de pontifex maximus. Vem a propósito lembrar que a ideia de ligação, conexão, é tão intrínseca à religião que este substantivo vem mesmo de religare, religar.

Anglicismo: «cópia»

O legendador copista

      A romancista espanhola Rosa Montero foi entrevistada por Paula Moura Pinheiro na edição do programa Câmara Clara da última sexta-feira. Quando, a determinada altura, se falou de Herman Melville e dos escassos exemplares que terá vendido do fabuloso Moby Dick, Rosa Montero afirmou que teriam sido «diecisiete ejemplares». O legendador achou que escrever «exemplares» não denotaria todo o esforço que terá feito para fazer a tradução. Logo, vá de escrever que foram «dezassete cópias». Contudo, «cópia», nesta acepção, é um puro anglicismo. Escusado será dizer que alguns dicionários já acolhem este significado — mas por distracção ou falta de critério, decerto.

Arquivo do blogue