Uso da vírgula

Bem me parecia

      «Di conseguenza, l’amore per antonomasia — vale a dire l’eterno e increato Iddio — deve per forza essere mistero in supremo grado: deve essere il Mistero per eccellenza.» Ou seja, para o tradutor português: «Consequentemente, o amor por antonomásia — quer dizer o eterno e o incriado Deus — deve forçosamente ser mistério em supremo grau: deve ser o Mistério por excelência.» Quase bem. Na verdade, falta uma vírgula após a expressão explicativa «quer dizer». À semelhança de outras, explicativas ou correctivas, como ou melhor, digo melhor, ou antes, quero dizer, aliás, digo, ou seja, por exemplo, isto é, etc., em que também se deverá usar pelo menos uma vírgula a isolar do resto da frase.

Tradução: «tramcar»

Imagem: http://upload.wikimedia.org/
Americanos em Lisboa

«Chora, s. m. (de Shore, antr.). Carro de tracção animal para transporte colectivo, usado em Lisboa nos fins do século XIX e princípios do XX» (Grande Dicionário da Língua Portuguesa).

      Por coincidência, numa mesma semana, deparei-me com um problema de tradução que também obrigou um leitor a pedir-me ajuda. A palavra em causa é tramcar. O contexto, em ambos os casos, mostrava que não se tratava de um eléctrico. (Para um brasileiro, porém, seria sempre e só «bonde».) Era de um veículo a tracção animal que se tratava.
      Mais uma infausta vez, é da qualidade de dicionários bilingues que estamos a falar. O meu leitor usara uma edição, que não identificou, do Dicionário Inglês-Português da Porto Editora. Neste dicionário, como tradução do vocábulo tramcar regista-se apenas «eléctrico». Ora, a verdade é que sendo puxado por muares, uma ou duas parelhas, não são eléctricos. Estes veículos chamavam-se, em Portugal, americanos. Em Lisboa, a primeira linha, entre Santos e Santa Apolónia, abriu a 17 de Novembro de 1873. O último parágrafo d’Os Maias fala de uma corrida de Carlos e de João da Ega para apanharem um americano: «De novo a lanterna deslizou e fugiu. Então, para apanhar o americano, os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela Rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia.» No Porto, a linha de americanos abrira mais cedo, a 9 de Março de 1872. Uns anos mais tarde, alguns destes americanos (fabricados, alguns, na Inglaterra pela Starbuck Car & Wagon Co. Ltd, Birkenhead) foram adaptados a eléctricos.
      Carlos do Carmo canta um fado, com letra de Ary dos Santos, «O Amarelo da Carris», através do qual ficamos a conhecer outro nome para este veículo de tracção animal: «O amarelo da Carris/já teve um avô outrora,/que era o chora./Teve um pai americano,/foi inglês por muito ano,/só é português agora.»

Tradução: «pechina»

Imagem: http://www.brynmawr.edu/

Ainda os termos de arquitectura

      A propósito da dúvida do leitor Luís C. Martins, lembro-me de recentemente me ter aparecido uma tradução em que no original, espanhol, se usava o vocábulo pechina. Solução do tradutor? Deixar para o revisor… Claro, bem entendido, o tradutor sabia do que se tratava — mas qual a palavra portuguesa correspondente? Em espanhol, pechina, do latim pecten,-inis («Cada uno de los cuatros triángulos curvilíneos que forman el anillo de la cúpula com los arcos torales sobre que estriba»). Em catalão, petxina, com o mesmo étimo («Cadascun dels quatre triangles curvilinis situats entre els arcs torals, sobre els quals descansa directament l’anell de la cúpula»). Em francês, pendentif, do latim pendēns,-entis («Construction en triangle sphérique concave, entre les grands arcs soutenant une coupole, permettant de passer du plan carré au plan circulaire ou octogonal»). Em inglês, com étimo francês, pendentive («A triangular section of vaulting between the rim of a dome and each adjacent pair of the arches that support it»). Circunlóquios, só em último caso: parte triangular da abóbada que serve para sustentar a volta de uma cúpula. Uma só palavra: penacho. Ou, menos idiossincrático, pendente.

[Espanhol: pechina. Português: penacho ou pendente.]

Problemas de lexicografia

Fraldas e borboletas

      Numa fase da vida em que palavras e expressões como colostro, córion, corpo lúteo, saco vitelino, vérnix caseoso, antiemético, prolactina e dezenas de outras passaram a fazer parte do meu vocabulário, não me passaria despercebido o vocábulo «fraldário». O Centro Comercial Colombo, por exemplo, tem um fraldário. Na definição do Dicionário Houaiss: «fraldário s. m. local público com instalação especial para a mudança de fraldas de crianças (p. ex., em centros comerciais, em praias etc.).» É dos poucos dicionários que registam este novo termo. Contudo, vê-se que é necessário acrescentar uma nova acepção, pois que o conceito e a realidade existem: a de móvel em que se muda a fralda às crianças.
      De facto, o recurso ao sufixo -ário, um dos mais produtivos em língua portuguesa na formação de adjectivos e substantivos, deu origem a um vocábulo bem formado, eufónico e necessário. (Ainda recentemente se lia no Diário de Notícias: «Borboletário único na Europa abriu a portas por um dia», Diana Barros, 11.09.2006, p. 29. Ora, experimentem abrir um dicionário e procurem o vocábulo «borboletário». E ainda há quem diga que a língua portuguesa está fossilizada…)
      Hão-de convir que não é muito prático dizer: «Se faz favor, queria um móvel onde se mudam as fraldas às crianças.» Neste aspecto, os Espanhóis não nos ganham, já que têm de dizer, num circunlóquio, «un mueble para cambiar pañales».
      E, a propósito de «pañal», veja-se o que diz o Dicionário de Espanhol-Português da Porto Editora, da autoria de J. Martínez Almoyna: «pañal, s. m. cueiro, fralda de criança; fralda da camisa do homem; pl. cueiros; fig. primeiros princípios de educação; estar uno en pañales, ter pouco ou nenhum conhecimento duma coisa.» Faz corresponder directamente ao espanhol pañal o português cueiro. Tratando-se de uma palavra corrente, não confundiria o leitor português. O leitor espanhol, todavia, poderia ser induzido em erro, pois na realidade ao espanhol pañal corresponde, em termos de frequência, o português «fralda». Só como sinónimo se deveria indicar o vocábulo «cueiro». Se o dicionário fosse muito completo, poderia indicar igualmente o provincianismo «panal». É pena que a última edição deste dicionário, de Agosto de 2005, não tenha acolhido a proposta do professor Álvaro Iriarte Sanromán, da Universidade do Minho, que dava a seguinte redacção ao verbete:

«pañal […] s.m. Fralda (peça de material absorvente para envolver as nádegas das crianças de peito); Los pañales desechables son hechos de celulosa: As fraldas descartáveis são feitas de celulose. 2. Cueiro, fralda (faixa de pano para envolver as nádegas das crianças de peito); Hay que cambiar los pañales del niño para proteger la piel: É preciso mudar os cueiros do bebé para proteger a pele. • Estar en ~s: Estar a zero.»

Tradução: «girola»

Buscas infrutíferas

      O leitor Luís C. Martins pergunta-me como se deve traduzir o termo espanhol girola. Para quem não sabe, é uma palavra comum em arquitectura e história de arte e significa, segundo o Diccionario da Real Academia Española, «nave o conjunto de naves que en la arquitectura románica o gótica circundan el altar mayor, rodeadas por el ábside, y, por extensión, la misma nave en catedrales o iglésias de cualquier estilo». Ou seja? Continuamos a ter dicionários bilingues mal estruturados, que, em vez de darem o termo equivalente, nos dão a definição, o que é quase sempre inservível num trabalho de tradução. Apesar de o DRAE registar que é um vocábulo de etimologia desconhecida, podemos quase seguramente dá-lo como derivado do francês carole — que em português deu charola. Muito conhecida, entre nós, é a charola do Convento de Cristo. O termo deambulatório é sinónimo.

«Charola, s. f. Corredor semicircular entre o corpo da igreja e a fábrica do altar-mor» (Grande Dicionário da Língua Portuguesa).

«Carole subst. fém. ARCHIT. Circuit des bas côtés qui entourent le chœur d'une église où ils forment l'abside. (GAY t. 1 1887). Carole de chœur (Nouv. Lar. ill.). (Le Trésor de la Langue Française Informatisé).

Tradução: «esperpento»

A esmo

      Se compreendo o que pode levar um tradutor a verter o espanhol cañones para cânones, entre muitos outros exemplos reais e frequentes de que já aqui tenho falado, é em vão que me esforço para perceber porque é que vocábulos que não existem, nem sequer vagamente semelhantes, na língua de chegada, ficam tal qual nas traduções. Vejamos um caso.
«El carácter sombrío de sus composiciones (Las coristas, La visita del obispo, Los desheredados, etc.) le relacionó con la tendencia al esperpento, característica de algunos escritores de la generación del 98, y com un fondo plástico de tipo goyesco.» O tradutor, num momento de displicência absoluta, traduziu assim: «O carácter sombrio das composições (As Coristas, A Visita do Bispo, Os Deserdados, etc.) relacionou-o com a tendência para o esperpento, característica de alguns escritores da geração de 98, e com um fundo plástico de tipo goyesco.»
      No contexto, esperpento, vocábulo cuja etimologia se desconhece, poderá traduzir-se por «grotesco». Segundo o Diccionario de la Real Academia Española, significa «1. m. Hecho grotesco o desatinado. 2. m. Género literario creado por Ramón del Valle-Inclán, escritor español de la generación del 98, en el que se deforma la realidad, recargando sus rasgos grotescos, sometiendo a una elaboración muy personal el lenguaje coloquial y desgarrado. 3. m. coloq. Persona o cosa notable por su fealdad, desaliño o mala traza».

Acrónimos

Serviço público

      Alguns, poucos, jornais publicam regularmente textos de especialistas sobre a língua portuguesa. O Correio da Manhã tem Ferreira Fernandes. Criativo, com um domínio notável da língua, culto, na sua pequenina coluna na última página do jornal faz as vezes de consultor linguístico:

«A mentira do acrónimo

Quando apareceram, deram-lhes um nome: SCUTS. Se assassinaram o belo nome de ‘liceu’ para inventar a ‘escola secundária C+S’, pareceu-nos normal baptizar estradas com um palavrão. Os mais letrados sabiam que aquilo era um acrónimo: isto é, abreviaturas que se tinham transformado em palavra comum. Mas raros sabiam o significado das abreviaturas. Passámos a dizer SCUTS para aqui, SCUTS para ali, como se disséssemos Álea das Margens Verdejantes. Os tempos não estão para poesia. Um destes dias, vieram dizer-nos: os asfaltos, tal como os almoços, não são grátis. Por esta altura, quantos se recordam que SCUTS quer dizer estradas Sem Custos para os UTilizadoreS? E se alguém protesta pela incoerência do nome, haverá quem responda: “E ONU é de Nações Unidas, é?”» (Correio da Manhã, 20.10.2006, p. 52).

Léxico: «xátria» ou «chátria»

Janelas cegas

      Os meus leitores já perceberam há muito a minha predilecção pelo Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado. Desde o início dos anos 80 a usá-lo, conheço-o relativamente bem. Considero-o muito bom, mas, como é inerente a tudo o que é criado pelo homem, com falhas. Uma delas constitui mesmo, devo dizê-lo, um dos mais graves erros em lexicografia: algumas entradas, sem a respectiva definição, remetem para entradas inexistentes. É o que acontece, por exemplo, com o vocábulo «xátria», cujo verbete remete para «chátria», considerado mais correcto, mas que não se encontra no dicionário. De qualquer modo, convenho que seria muito mais grave que um dicionário actual o fizesse, quando se dispõe agora de meios tecnológicos avançadíssimos.
      E a propósito de xátria, devo referir um texto («Conversões em massa entre os ‘intocáveis’», p. 37), publicado na edição de 21 de Outubro do Expresso, da autoria de Constantino Xavier, correspondente em Deli, em que se utiliza o vocábulo. Refiro-o, contudo, pelo aportuguesamento bem conseguido de outros vocábulos. O lead: «Os dálitas, ou ‘intocáveis’, a mais baixa das castas indianas, estão a abandonar o hinduísmo para se converterem ao cristianismo e ao budismo.» Mais à frente: «Especialmente no mundo rural, são frequentes os casos em que os dálitas (como preferem ser chamados) são impedidos de aceder a poços de água comuns, proibidos de entrar em espaços públicos e assassinados por casarem com parceiros de castas superiores.» E todas as castas lhes são superiores, isto porque «segundo a tradição hindu, as castas evoluíram a partir do corpo divino — os sacerdotes brâmanes da cabeça, os guerreiros xátrias dos braços, os comerciantes vaixás das coxas e, finalmente, os trabalhadores sudras dos pés. Só os ‘intocáveis’ ficaram de fora, impedidos de aspirar à reincarnação».
      Claro que preferem ser chamados dálitas (dalit), porque é muito mais sugestivo da condição social em que estão recluídos, pois «dálita» significa «oprimido». Anteriormente, eram chamados achuta. Gandhi, por sua vez, deu-lhes o nome harijan (filhos de Deus).
      Finalmente, leio neste texto outro aportuguesamento, este de um topónimo: «Nos estados onde o partido nacionalista do Bharatiya Janata Party forma governo (Rajastão, Guzerate e Madia Pradexe), já foram adoptadas leis que proíbem ou limitam as conversões, impondo, por exemplo, autorização policial prévia.» Refiro-me, neste caso, a «Madia Pradexe». De facto, esta é uma forma de representarmos o som final [sh], à semelhança, por exemplo, do inicial, como em Xangai.

Arquivo do blogue