Tradução: «girola»

Buscas infrutíferas

      O leitor Luís C. Martins pergunta-me como se deve traduzir o termo espanhol girola. Para quem não sabe, é uma palavra comum em arquitectura e história de arte e significa, segundo o Diccionario da Real Academia Española, «nave o conjunto de naves que en la arquitectura románica o gótica circundan el altar mayor, rodeadas por el ábside, y, por extensión, la misma nave en catedrales o iglésias de cualquier estilo». Ou seja? Continuamos a ter dicionários bilingues mal estruturados, que, em vez de darem o termo equivalente, nos dão a definição, o que é quase sempre inservível num trabalho de tradução. Apesar de o DRAE registar que é um vocábulo de etimologia desconhecida, podemos quase seguramente dá-lo como derivado do francês carole — que em português deu charola. Muito conhecida, entre nós, é a charola do Convento de Cristo. O termo deambulatório é sinónimo.

«Charola, s. f. Corredor semicircular entre o corpo da igreja e a fábrica do altar-mor» (Grande Dicionário da Língua Portuguesa).

«Carole subst. fém. ARCHIT. Circuit des bas côtés qui entourent le chœur d'une église où ils forment l'abside. (GAY t. 1 1887). Carole de chœur (Nouv. Lar. ill.). (Le Trésor de la Langue Française Informatisé).

Tradução: «esperpento»

A esmo

      Se compreendo o que pode levar um tradutor a verter o espanhol cañones para cânones, entre muitos outros exemplos reais e frequentes de que já aqui tenho falado, é em vão que me esforço para perceber porque é que vocábulos que não existem, nem sequer vagamente semelhantes, na língua de chegada, ficam tal qual nas traduções. Vejamos um caso.
«El carácter sombrío de sus composiciones (Las coristas, La visita del obispo, Los desheredados, etc.) le relacionó con la tendencia al esperpento, característica de algunos escritores de la generación del 98, y com un fondo plástico de tipo goyesco.» O tradutor, num momento de displicência absoluta, traduziu assim: «O carácter sombrio das composições (As Coristas, A Visita do Bispo, Os Deserdados, etc.) relacionou-o com a tendência para o esperpento, característica de alguns escritores da geração de 98, e com um fundo plástico de tipo goyesco.»
      No contexto, esperpento, vocábulo cuja etimologia se desconhece, poderá traduzir-se por «grotesco». Segundo o Diccionario de la Real Academia Española, significa «1. m. Hecho grotesco o desatinado. 2. m. Género literario creado por Ramón del Valle-Inclán, escritor español de la generación del 98, en el que se deforma la realidad, recargando sus rasgos grotescos, sometiendo a una elaboración muy personal el lenguaje coloquial y desgarrado. 3. m. coloq. Persona o cosa notable por su fealdad, desaliño o mala traza».

Acrónimos

Serviço público

      Alguns, poucos, jornais publicam regularmente textos de especialistas sobre a língua portuguesa. O Correio da Manhã tem Ferreira Fernandes. Criativo, com um domínio notável da língua, culto, na sua pequenina coluna na última página do jornal faz as vezes de consultor linguístico:

«A mentira do acrónimo

Quando apareceram, deram-lhes um nome: SCUTS. Se assassinaram o belo nome de ‘liceu’ para inventar a ‘escola secundária C+S’, pareceu-nos normal baptizar estradas com um palavrão. Os mais letrados sabiam que aquilo era um acrónimo: isto é, abreviaturas que se tinham transformado em palavra comum. Mas raros sabiam o significado das abreviaturas. Passámos a dizer SCUTS para aqui, SCUTS para ali, como se disséssemos Álea das Margens Verdejantes. Os tempos não estão para poesia. Um destes dias, vieram dizer-nos: os asfaltos, tal como os almoços, não são grátis. Por esta altura, quantos se recordam que SCUTS quer dizer estradas Sem Custos para os UTilizadoreS? E se alguém protesta pela incoerência do nome, haverá quem responda: “E ONU é de Nações Unidas, é?”» (Correio da Manhã, 20.10.2006, p. 52)


Léxico: «xátria» ou «chátria»

Janelas cegas

      Os meus leitores já perceberam há muito a minha predilecção pelo Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado. Desde o início dos anos 80 a usá-lo, conheço-o relativamente bem. Considero-o muito bom, mas, como é inerente a tudo o que é criado pelo homem, com falhas. Uma delas constitui mesmo, devo dizê-lo, um dos mais graves erros em lexicografia: algumas entradas, sem a respectiva definição, remetem para entradas inexistentes. É o que acontece, por exemplo, com o vocábulo «xátria», cujo verbete remete para «chátria», considerado mais correcto, mas que não se encontra no dicionário. De qualquer modo, convenho que seria muito mais grave que um dicionário actual o fizesse, quando se dispõe agora de meios tecnológicos avançadíssimos.
      E a propósito de xátria, devo referir um texto («Conversões em massa entre os ‘intocáveis’», p. 37), publicado na edição de 21 de Outubro do Expresso, da autoria de Constantino Xavier, correspondente em Deli, em que se utiliza o vocábulo. Refiro-o, contudo, pelo aportuguesamento bem conseguido de outros vocábulos. O lead: «Os dálitas, ou ‘intocáveis’, a mais baixa das castas indianas, estão a abandonar o hinduísmo para se converterem ao cristianismo e ao budismo.» Mais à frente: «Especialmente no mundo rural, são frequentes os casos em que os dálitas (como preferem ser chamados) são impedidos de aceder a poços de água comuns, proibidos de entrar em espaços públicos e assassinados por casarem com parceiros de castas superiores.» E todas as castas lhes são superiores, isto porque «segundo a tradição hindu, as castas evoluíram a partir do corpo divino — os sacerdotes brâmanes da cabeça, os guerreiros xátrias dos braços, os comerciantes vaixás das coxas e, finalmente, os trabalhadores sudras dos pés. Só os ‘intocáveis’ ficaram de fora, impedidos de aspirar à reincarnação».
      Claro que preferem ser chamados dálitas (dalit), porque é muito mais sugestivo da condição social em que estão recluídos, pois «dálita» significa «oprimido». Anteriormente, eram chamados achuta. Gandhi, por sua vez, deu-lhes o nome harijan (filhos de Deus).
      Finalmente, leio neste texto outro aportuguesamento, este de um topónimo: «Nos estados onde o partido nacionalista do Bharatiya Janata Party forma governo (Rajastão, Guzerate e Madia Pradexe), já foram adoptadas leis que proíbem ou limitam as conversões, impondo, por exemplo, autorização policial prévia.» Refiro-me, neste caso, a «Madia Pradexe». De facto, esta é uma forma de representarmos o som final [sh], à semelhança, por exemplo, do inicial, como em Xangai.

Léxico: celação


Amor tussisque non celantur.
O amor, como a tosse, não se esconde.

OVÍDIO
Esconde-esconde

      Pelas mais diversas razões, há mulheres que escondem a gravidez. Avultarão os casos em que se trata de adolescentes que têm de esconder o estado em que se encontram por temerem a reacção dos pais. Há um termo na língua portuguesa, registado em poucos dicionários e que nunca vi ser utilizado, que refere essa atitude: celação. Se o critério para admitir um determinado vocábulo nos dicionários fosse apenas a frequência com que é usado, poucos nos restariam, e, de expurgo em expurgo, um dicionário de escassas páginas acolheriam todo o nosso património lexical. Ora, como nem é de estranhar, o Dicionário da Academia deixou à porta o vocábulo «celação». Ao invés, o Dicionário Houaiss regista-o. Do latim celatione-, pertence à mesma família das palavras «cela», «céu» (coelum, em latim), «clandestino» e, mais estranhamente, «cor», entre muitas outras. O verbo correspondente é celare.

«Celação, s. f. (do lat. celatione-). Acto de ocultar uma deformação ou um fenómeno fisiológico, como a gravidez (Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coord. por José Pedro Machado).»

«celação s.f. dissimulação ou encobrimento de deformação ou fenómeno fisiológico, como a gravidez. ■ ETIM lat. celatio,onis ‘acção de esconder’, do v. celo,as,avi,atum,are ‘ocultar, esconder, encobrir, iludir’ (Dicionário Houaiss).»

«celation n. Med. The concealing of pregnancy, or of the birth of a child [L celatio, -onis, celare conceal] (The New International Webster’s Comprehensive Dictionary of the English Language).»

«Oxford English Dictionary»


Ladrilhos e dicionários
     
      Ao passar por uma confeitaria na Baixa (às vezes saio de casa…), vi na montra uma pirâmide de ladrilhos de marmelada. Não será, convenho, uma expressão muito comum, mas que é bonita, sugestiva, isso parece-me inequívoco. E ao pensar nisto, lembrei-me da palavra brick-tea e do Dr. William Chester Minor. Sabem quem é? Foi um dos mais prolíficos colaboradores do Oxford English Dictionary, com cerca de 10 mil fichas de abonações. Semanalmente, da sua cela do Hospital Prisional Psiquiátrico de Broadmoor, Berkshire, onde estava rodeado de livros antigos, enviava os seus verbetes manuscritos para o Scriptorium, em Oxford, a sede da equipa do OED, liderada pelo Dr. James Murray. Uma história admirável que, um pouco romanceada, se pode ler na obra O Professor e o Louco, de Simon Winchester, traduzida por Eugénia Antunes e publicada pelo Círculo de Leitores e pela Temas e Debates, em 2001. Capitão-médico do Exército dos Estados Unidos da América, Minor nascera em 1834 na ilha de Ceilão, o que de alguma maneira explica o fascínio que sentia pelas palavras anglo-indianas — como brick-tea: «folhas de chá prensadas em forma de pequenos tijolos ou ladrilhos, outrora usados pelos Chineses como moeda em trocas comerciais» (p. 162 da obra citada). Como diria Camilo, esta é uma obra que não merece perder-se no mar morto das bibliotecas inúteis.

Lógica: dilema

Dilema duplo

      Um velho professor de Lógica faz um acordo com um dos seus alunos. O aluno estaria desobrigado de pagar as lições no caso de perder a sua primeira causa. Findo o curso, o estudante não aceitou nenhuma causa. A fim de cobrar a dívida, o mestre processou-o. O jovem defendeu-se com este argumento: ou ganho ou perco a causa. Se ganhar, não terei de pagar as lições (porque o professor terá perdido a acção de cobrança); se perder, também não terei de pagar as lições (em vista do acordo feito com o professor). Logo, não terei, em qualquer caso, de pagar as lições.
      O professor, no entanto, redarguiu deste modo: ou ganho ou perco a causa. Se ganhar, o aluno terá de pagar-me (porque terei ganho a acção de cobrança); se perder, o aluno também terá de pagar-me (porque terá vencido a primeira causa). Logo, o aluno terá de, em qualquer caso, pagar.


(Adaptado da obra Lógica, de Wesley C. Salmon, 6.ª ed., Guanabara-Koogan, Rio de Janeiro, s/d.)

Moçárabes e muladis

Etimologia mística

      Nome que se dava aos cristãos da Hispânia e da Sicília submetidos aos muçulmanos? São os moçárabes, pois claro. Para alguns, provém do árabe must’arab, que literalmente significa «o que se tornou árabe, que provém de outra raça». Segundo outros, procede do hebraico môsha hárâbba, qualquer coisa como «salvação ampla, plena». À primeira vista, até se diria o contrário: para os muçulmanos, a conversão significaria a completa salvação daqueles bárbaros.
      Por vezes apresentado como sinónimo, mas que o não é, muladi (do árabe hispânico muwalladin, pl. de muwállad, e este do árabe clássico muwallad, «engendrado de mãe não árabe») era o cristão espanhol que durante a dominação dos árabes em Espanha abraçava o Islamismo e vivia entre os muçulmanos. O Grande Dicionário da Língua Portuguesa apresenta-nos uma definição algo nebulosa: «Muladi, adj. e s. 2 gén. Designação dada pelos historiadores árabes muçulmanos aos habitantes da Península Hispânica filhos de convertidos ao Cristianismo.» Nem o Dicionário Houaiss nem o Dicionário da Academia registam o vocábulo «muladi», falha mais estranha no primeiro que no segundo.
      A diferença, apesar de tudo, é clara: o moçárabe estava submetido aos muçulmanos, mas conservava as suas crenças e o direito de continuar a praticar a sua religião. O muladi, por seu lado, é o cristão que se converteu ao Islamismo.
[Espanhol: muladí e mozárabe.]

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