Léxico: celação


Amor tussisque non celantur.
O amor, como a tosse, não se esconde.

OVÍDIO
Esconde-esconde

      Pelas mais diversas razões, há mulheres que escondem a gravidez. Avultarão os casos em que se trata de adolescentes que têm de esconder o estado em que se encontram por temerem a reacção dos pais. Há um termo na língua portuguesa, registado em poucos dicionários e que nunca vi ser utilizado, que refere essa atitude: celação. Se o critério para admitir um determinado vocábulo nos dicionários fosse apenas a frequência com que é usado, poucos nos restariam, e, de expurgo em expurgo, um dicionário de escassas páginas acolheriam todo o nosso património lexical. Ora, como nem é de estranhar, o Dicionário da Academia deixou à porta o vocábulo «celação». Ao invés, o Dicionário Houaiss regista-o. Do latim celatione-, pertence à mesma família das palavras «cela», «céu» (coelum, em latim), «clandestino» e, mais estranhamente, «cor», entre muitas outras. O verbo correspondente é celare.

«Celação, s. f. (do lat. celatione-). Acto de ocultar uma deformação ou um fenómeno fisiológico, como a gravidez (Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coord. por José Pedro Machado).»

«celação s.f. dissimulação ou encobrimento de deformação ou fenómeno fisiológico, como a gravidez. ■ ETIM lat. celatio,onis ‘acção de esconder’, do v. celo,as,avi,atum,are ‘ocultar, esconder, encobrir, iludir’ (Dicionário Houaiss).»

«celation n. Med. The concealing of pregnancy, or of the birth of a child [L celatio, -onis, celare conceal] (The New International Webster’s Comprehensive Dictionary of the English Language).»

«Oxford English Dictionary»


Ladrilhos e dicionários
     
      Ao passar por uma confeitaria na Baixa (às vezes saio de casa…), vi na montra uma pirâmide de ladrilhos de marmelada. Não será, convenho, uma expressão muito comum, mas que é bonita, sugestiva, isso parece-me inequívoco. E ao pensar nisto, lembrei-me da palavra brick-tea e do Dr. William Chester Minor. Sabem quem é? Foi um dos mais prolíficos colaboradores do Oxford English Dictionary, com cerca de 10 mil fichas de abonações. Semanalmente, da sua cela do Hospital Prisional Psiquiátrico de Broadmoor, Berkshire, onde estava rodeado de livros antigos, enviava os seus verbetes manuscritos para o Scriptorium, em Oxford, a sede da equipa do OED, liderada pelo Dr. James Murray. Uma história admirável que, um pouco romanceada, se pode ler na obra O Professor e o Louco, de Simon Winchester, traduzida por Eugénia Antunes e publicada pelo Círculo de Leitores e pela Temas e Debates, em 2001. Capitão-médico do Exército dos Estados Unidos da América, Minor nascera em 1834 na ilha de Ceilão, o que de alguma maneira explica o fascínio que sentia pelas palavras anglo-indianas — como brick-tea: «folhas de chá prensadas em forma de pequenos tijolos ou ladrilhos, outrora usados pelos Chineses como moeda em trocas comerciais» (p. 162 da obra citada). Como diria Camilo, esta é uma obra que não merece perder-se no mar morto das bibliotecas inúteis.

Lógica: dilema

Dilema duplo

      Um velho professor de Lógica faz um acordo com um dos seus alunos. O aluno estaria desobrigado de pagar as lições no caso de perder a sua primeira causa. Findo o curso, o estudante não aceitou nenhuma causa. A fim de cobrar a dívida, o mestre processou-o. O jovem defendeu-se com este argumento: ou ganho ou perco a causa. Se ganhar, não terei de pagar as lições (porque o professor terá perdido a acção de cobrança); se perder, também não terei de pagar as lições (em vista do acordo feito com o professor). Logo, não terei, em qualquer caso, de pagar as lições.
      O professor, no entanto, redarguiu deste modo: ou ganho ou perco a causa. Se ganhar, o aluno terá de pagar-me (porque terei ganho a acção de cobrança); se perder, o aluno também terá de pagar-me (porque terá vencido a primeira causa). Logo, o aluno terá de, em qualquer caso, pagar.

(Adaptado da obra Lógica, de Wesley C. Salmon, 6.ª ed., Guanabara-Koogan, Rio de Janeiro, s/d.)

Moçárabes e muladis

Etimologia mística

      Nome que se dava aos cristãos da Hispânia e da Sicília submetidos aos muçulmanos? São os moçárabes, pois claro. Para alguns, provém do árabe must’arab, que literalmente significa «o que se tornou árabe, que provém de outra raça». Segundo outros, procede do hebraico môsha hárâbba, qualquer coisa como «salvação ampla, plena». À primeira vista, até se diria o contrário: para os muçulmanos, a conversão significaria a completa salvação daqueles bárbaros.
      Por vezes apresentado como sinónimo, mas que o não é, muladi (do árabe hispânico muwalladin, pl. de muwállad, e este do árabe clássico muwallad, «engendrado de mãe não árabe») era o cristão espanhol que durante a dominação dos árabes em Espanha abraçava o Islamismo e vivia entre os muçulmanos. O Grande Dicionário da Língua Portuguesa apresenta-nos uma definição algo nebulosa: «Muladi, adj. e s. 2 gén. Designação dada pelos historiadores árabes muçulmanos aos habitantes da Península Hispânica filhos de convertidos ao Cristianismo.» Nem o Dicionário Houaiss nem o Dicionário da Academia registam o vocábulo «muladi», falha mais estranha no primeiro que no segundo.
      A diferença, apesar de tudo, é clara: o moçárabe estava submetido aos muçulmanos, mas conservava as suas crenças e o direito de continuar a praticar a sua religião. O muladi, por seu lado, é o cristão que se converteu ao Islamismo.
[Espanhol: muladí e mozárabe.]

Nomenclatura dos seres

Ratos e muito queijo

      «O Mus Cypriacus foi identificado na ilha mediterrânica de Chipre — daí o nome a condizer — e o seu estudo foi publicado na revista científica Zootaxa. […] E o seu estudo revelou que os Mus Cypriaticus [sic] pertence afinal à mesma espécie desses roedores da Idade da Pedra e é um verdadeiro fóssil vivo, que chegou até hoje, vindo do passado» («Há uma nova espécie de rato na Europa», Filomena Naves, Diário de Notícias, 13.10.2006, p. 23). Apesar de já aqui ter abordado esta questão duas vezes (ver textos «Moderna e um pouco burra» e «Napoleão não é para aqui chamado»), não será excessivo, dada a frequência do erro, dedicar-lhe mais um texto.
      A nomenclatura científica, escrevi então e mantenho enquanto não se realizar outro congresso que altere as regras, exige que no nome composto dos seres vivos se grafe com maiúscula a inicial da primeira palavra e com minúscula a da segunda. Uma vez que a jornalista cita a BBC News online, deveria ter reparado que é assim que está grafado: «To understand the history of Mus cypriacus, Dr Cucchi and colleagues compared the shape of its teeth with fossils of mice collected on Cyprus.» Naturalmente que, falhando a jornalista, os revisores deveriam emendar.

Sefarditas e asquenazitas

A importância da Bíblia

      A leitura da Bíblia devia ser obrigatória. Claro, num Estado laico, só os pais poderiam obrigar (ou, se parecer muito coercitivo, incentivar, estimular o interesse) os filhos a ler este texto fundamental da cultura universal. Recentemente, alguém me perguntava que nome se dá aos judeus da Europa Central e de Leste. Depois de ter respondido que era asquenazitas ou asquenazins (do hebraico אַשְׁכֲּנָזִים), que falavam o iídiche, ao passo que aos judeus da Península Ibérica se dava o nome de sefarditas ou sefardis (do hebraico ספרדים), que falavam ladino, acrescentei que na Bíblia poderia encontrar a matriz semântica do nome, pois que no Génesis (10,1-5) se pode ler: «Esta é a descendência dos filhos de Noé: Sem, Cam e Jafet. Nasceram-lhes filhos após o dilúvio. Filhos de Jafet: Gomer, Magog, Madai, Javan, Tubal, Méchec e Tirás. Filhos de Gomer: Asquenaz, Rifat e Togarma. Filhos de Javan: Elicha, Társis, Kitim e Rodanim. Deles nasceram os povos que se dispersaram por países e línguas, por famílias e nações.»

Uso da maiúscula

Letra grelada

      «Um dos primeiros museus do país surgiu na capital baixo-alentejana, pouco depois da refundação da diocese, em 1770, por iniciativa de Frei Manuel do Cenáculo, revela José António Falcão» («Diocese de Beja inaugura mais um núcleo da sua rede museológica», Carlos Dias, Público, 10.10.2006, p. 53).
      «Para a presidência da Real Mesa Censória [o marquês de Pombal] escolheu o bispo de Beja, frei Manuel do Cenáculo (1724-1814), pois conciliava as qualidades exigidas de “varão dos mais sábios e autorizados” e “erudito nas letras sagradas e humanas; prudente, zeloso do argumento da Religião e do Estado e bem instruído nos direitos do sacerdócio e do Império”» («Cenáculo e a censura intelectual», António Valdemar, Actual/Expresso, 7.10.2006, p. 62).
      Apesar de viver num século caótico no que respeita à grafia do português, foi o poeta António Feliciano de Castilho que em certa ocasião se referiu ao uso injustificado das maiúsculas como «letra grelada». Este malfadado vezo continua ainda hoje. A ideia de que a maiúscula serve para salientar determinadas palavras a que se dá especial valor perdeu-se em grande parte. Para não me cingir ao presente, cito um opúsculo que tenho à minha frente intitulado Regras para Aprender a Língua Portuguesa segundo o Acordo Ortográfico Luso-Brasileiro, da autoria de J. Estêvão Pinto. Na parte final desta obra, na secção «Frases de aplicação de algumas regras», pode ler-se: «O marquês de Pombal foi ministro de D. José I»; «O rei da Inglaterra chama-se Jorge».
      Há, sei perfeitamente, casos muito mais injustificados de uso da maiúscula, sobretudo quando inclui a palavra «presidente». Vejamos alguns:

«O chefe da diplomacia da Bielorrússia, Sergei Lavrov, veio ontem dizer que a polícia mostrou “mostrou contenção e paciência” durante as manifestações que, ao longo de toda a semana, encheram as ruas de Minsk em contestação à reeleição do Presidente do país, Alexander Lukachenko» («Ministro bielorrusso diz que polícia foi “contida”», Público, 27.3.2006).
«Antes de sobrevoar a Base Naval de Lisboa num helicóptero Lync, o Presidente esteve embarcado na fragata Corte Real. Aqui assistiu a dois briefings, um do CEMA sobre os meios e objectivos da Armada, outro em pleno centro de comando do navio sobre a operação virtual em que “participou”» («Presidente elogia esforço do Governo com militares», Manuel Carlos Freire, Diário de Notícias, 1.06.2006, p. 5).
«A intervenção do Presidente afegão surge num momento em que as forças da NATO desencadearam uma importante ofensiva no Sul do país — considerado um dos bastiões dos talibãs — para o subtrair ao controlo de facto dos islamitas, entrando em zonas onde o Governo de Cabul não tem meios para fazer sentir a sua presença» («Karzai adverte Ocidente para fracasso afegão», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 23.06.2006, p. 11).
«Candidato da esquerda a Presidente paralisa Cidade do México» (Dulce Furtado, Público, 1.08.2006, p. 19).

Pluralização de marcas


Então, o que é que se diz aqui?

      Segundo o Diário de Notícias, «rejuvenescer e posicionar o Licor Beirão como a primeira bebida da noite, assim como divulgar a nova rotulagem da garrafa é o objectivo da mais recente campanha da marca» («Licor Beirão quer rejuvenescer imagem»). A jornalista Sofia Canelas de Castro, do Correio da Manhã, esteve no local das filmagens do novo anúncio da marca e conta-nos o que (ou)viu: «De volta ao ‘set’ de filmagens, Quintela repete-se, sem revelar cansaço. “Então, o que é que se bebe aqui? Sirva já três licores Beirão, um com sombrinha para a senhora.”» Pois é, mas o que nós ouvimos no anúncio é: «Então, o que é que se bebe aqui? Sirva já três Licor Beirão, um com sombrinha para a senhora.»
      Terá a jornalista do Correio da Manhã pretendido corrigir, mesmo inconscientemente, ou ouviu mal? De facto, é com alguma estranheza que ouvimos a sequência «três Licor Beirão». Porque é que não se faz a concordância se os nomes são todos portugueses? Se a marca tivesse uma grafia estranha à língua portuguesa, seria de admitir a referência ao plural através do singular, porque haveria então uma elipse: «Por favor, dê-me três [comprimidos da marca] Atarax.» No caso que nos ocupa, há uma segunda dificuldade: o substantivo «licor» faz parte da marca: «Licor Beirão». Se pluralizarmos, será o todo, que passará assim a nome comum: «licores beirões». Uma solução de compromisso seria pluralizar somente o substantivo «licor», tanto mais que a estranheza no anúncio advém de se usar «três licor» (foi a «solução» da jornalista Sofia Canelas de Castro).
      Havia uma forma de contornar — que por vezes se revela a melhor opção — a dificuldade, que era dizer: «Então, o que é que se bebe aqui? Sirva já três cálices de Licor Beirão, um com sombrinha para a senhora.» Talvez fosse menos eficaz e criativa, mas seria incontestavelmente a mais correcta.

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