Nomenclatura dos seres

Ratos e muito queijo

      «O Mus Cypriacus foi identificado na ilha mediterrânica de Chipre — daí o nome a condizer — e o seu estudo foi publicado na revista científica Zootaxa. […] E o seu estudo revelou que os Mus Cypriaticus [sic] pertence afinal à mesma espécie desses roedores da Idade da Pedra e é um verdadeiro fóssil vivo, que chegou até hoje, vindo do passado» («Há uma nova espécie de rato na Europa», Filomena Naves, Diário de Notícias, 13.10.2006, p. 23). Apesar de já aqui ter abordado esta questão duas vezes (ver textos «Moderna e um pouco burra» e «Napoleão não é para aqui chamado»), não será excessivo, dada a frequência do erro, dedicar-lhe mais um texto.
      A nomenclatura científica, escrevi então e mantenho enquanto não se realizar outro congresso que altere as regras, exige que no nome composto dos seres vivos se grafe com maiúscula a inicial da primeira palavra e com minúscula a da segunda. Uma vez que a jornalista cita a BBC News online, deveria ter reparado que é assim que está grafado: «To understand the history of Mus cypriacus, Dr Cucchi and colleagues compared the shape of its teeth with fossils of mice collected on Cyprus.» Naturalmente que, falhando a jornalista, os revisores deveriam emendar.

Sefarditas e asquenazitas

A importância da Bíblia

      A leitura da Bíblia devia ser obrigatória. Claro, num Estado laico, só os pais poderiam obrigar (ou, se parecer muito coercitivo, incentivar, estimular o interesse) os filhos a ler este texto fundamental da cultura universal. Recentemente, alguém me perguntava que nome se dá aos judeus da Europa Central e de Leste. Depois de ter respondido que era asquenazitas ou asquenazins (do hebraico אַשְׁכֲּנָזִים), que falavam o iídiche, ao passo que aos judeus da Península Ibérica se dava o nome de sefarditas ou sefardis (do hebraico ספרדים), que falavam ladino, acrescentei que na Bíblia poderia encontrar a matriz semântica do nome, pois que no Génesis (10,1-5) se pode ler: «Esta é a descendência dos filhos de Noé: Sem, Cam e Jafet. Nasceram-lhes filhos após o dilúvio. Filhos de Jafet: Gomer, Magog, Madai, Javan, Tubal, Méchec e Tirás. Filhos de Gomer: Asquenaz, Rifat e Togarma. Filhos de Javan: Elicha, Társis, Kitim e Rodanim. Deles nasceram os povos que se dispersaram por países e línguas, por famílias e nações.»

Uso da maiúscula

Letra grelada

      «Um dos primeiros museus do país surgiu na capital baixo-alentejana, pouco depois da refundação da diocese, em 1770, por iniciativa de Frei Manuel do Cenáculo, revela José António Falcão» («Diocese de Beja inaugura mais um núcleo da sua rede museológica», Carlos Dias, Público, 10.10.2006, p. 53).
      «Para a presidência da Real Mesa Censória [o marquês de Pombal] escolheu o bispo de Beja, frei Manuel do Cenáculo (1724-1814), pois conciliava as qualidades exigidas de “varão dos mais sábios e autorizados” e “erudito nas letras sagradas e humanas; prudente, zeloso do argumento da Religião e do Estado e bem instruído nos direitos do sacerdócio e do Império”» («Cenáculo e a censura intelectual», António Valdemar, Actual/Expresso, 7.10.2006, p. 62).

      Apesar de viver num século caótico no que respeita à grafia do português, foi o poeta António Feliciano de Castilho que em certa ocasião se referiu ao uso injustificado das maiúsculas como «letra grelada». Este malfadado vezo continua ainda hoje. A ideia de que a maiúscula serve para salientar determinadas palavras a que se dá especial valor perdeu-se em grande parte. Para não me cingir ao presente, cito um opúsculo que tenho à minha frente intitulado Regras para Aprender a Língua Portuguesa segundo o Acordo Ortográfico Luso-Brasileiro, da autoria de J. Estêvão Pinto. Na parte final desta obra, na secção «Frases de aplicação de algumas regras», pode ler-se: «O marquês de Pombal foi ministro de D. José I»; «O rei da Inglaterra chama-se Jorge».
      Há, sei perfeitamente, casos muito mais injustificados de uso da maiúscula, sobretudo quando inclui a palavra «presidente». Vejamos alguns:

«O chefe da diplomacia da Bielorrússia, Sergei Lavrov, veio ontem dizer que a polícia mostrou “mostrou contenção e paciência” durante as manifestações que, ao longo de toda a semana, encheram as ruas de Minsk em contestação à reeleição do Presidente do país, Alexander Lukachenko» («Ministro bielorrusso diz que polícia foi “contida”», Público, 27.3.2006).
«Antes de sobrevoar a Base Naval de Lisboa num helicóptero Lync, o Presidente esteve embarcado na fragata Corte Real. Aqui assistiu a dois briefings, um do CEMA sobre os meios e objectivos da Armada, outro em pleno centro de comando do navio sobre a operação virtual em que “participou”» («Presidente elogia esforço do Governo com militares», Manuel Carlos Freire, Diário de Notícias, 1.06.2006, p. 5).
«A intervenção do Presidente afegão surge num momento em que as forças da NATO desencadearam uma importante ofensiva no Sul do país — considerado um dos bastiões dos talibãs — para o subtrair ao controlo de facto dos islamitas, entrando em zonas onde o Governo de Cabul não tem meios para fazer sentir a sua presença» («Karzai adverte Ocidente para fracasso afegão», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 23.06.2006, p. 11).
«Candidato da esquerda a Presidente paralisa Cidade do México» (Dulce Furtado, Público, 1.08.2006, p. 19).

Pluralização de marcas


Então, o que é que se diz aqui?

      Segundo o Diário de Notícias, «rejuvenescer e posicionar o Licor Beirão como a primeira bebida da noite, assim como divulgar a nova rotulagem da garrafa é o objectivo da mais recente campanha da marca» («Licor Beirão quer rejuvenescer imagem»). A jornalista Sofia Canelas de Castro, do Correio da Manhã, esteve no local das filmagens do novo anúncio da marca e conta-nos o que (ou)viu: «De volta ao ‘set’ de filmagens, Quintela repete-se, sem revelar cansaço. “Então, o que é que se bebe aqui? Sirva já três licores Beirão, um com sombrinha para a senhora.”» Pois é, mas o que nós ouvimos no anúncio é: «Então, o que é que se bebe aqui? Sirva já três Licor Beirão, um com sombrinha para a senhora.»
      Terá a jornalista do Correio da Manhã pretendido corrigir, mesmo inconscientemente, ou ouviu mal? De facto, é com alguma estranheza que ouvimos a sequência «três Licor Beirão». Porque é que não se faz a concordância se os nomes são todos portugueses? Se a marca tivesse uma grafia estranha à língua portuguesa, seria de admitir a referência ao plural através do singular, porque haveria então uma elipse: «Por favor, dê-me três [comprimidos da marca] Atarax.» No caso que nos ocupa, há uma segunda dificuldade: o substantivo «licor» faz parte da marca: «Licor Beirão». Se pluralizarmos, será o todo, que passará assim a nome comum: «licores beirões». Uma solução de compromisso seria pluralizar somente o substantivo «licor», tanto mais que a estranheza no anúncio advém de se usar «três licor» (foi a «solução» da jornalista Sofia Canelas de Castro).
      Havia uma forma de contornar — que por vezes se revela a melhor opção — a dificuldade, que era dizer: «Então, o que é que se bebe aqui? Sirva já três cálices de Licor Beirão, um com sombrinha para a senhora.» Talvez fosse menos eficaz e criativa, mas seria incontestavelmente a mais correcta.

Frutariano?

Sobre dietas
      
      Se come carne, é carnívoro; se come frutos, é frugívoro; se come vegetais, é… vegetariano? Pelo menos no Brasil, a quem se alimenta de frutos também se dá o nome de frutariano, à semelhança de vegetariano. Frutariano vem do inglês fruitarian, que, não estando muito presente em dicionários, é relativamente fácil de encontrar em certas obras. Leio-a, por exemplo, na autobiografia de Gandhi: «It may be recalled that during the whole of this period of penance I was a strict fruitarian» (An Autobiography — The Story of My Experiments with Truth). Vegetariano vem do inglês vegetarian (embora, possivelmente, através do francês végétarien), e é um vocábulo relativamente recente. Foi, tanto quanto é possível dizê-lo, usado pela primeira vez na reunião fundacional da Sociedade Vegetariana do Reino Unido, realizada em Northwood Villa, Kent, a 30 de Setembro de 1847. Antes, os que não comiam carne eram conhecidos por pitagóricos, porque Pitágoras seguia este regime alimentar.
      Claro que o elemento -voro é muito mais abundante, por razões óbvias, na nossa língua. Deixo apenas alguns exemplos:

aerívoro
apívoro
aurívoro
bananívoro
carnívoro
crudívoro
culicívoro
detritívoro
florívoro
formicívoro
frugívoro
frutívoro
fumívoro
glandívoro
graminívoro
granívoro
herbívoro
hominívoro
ignívoro
insectívoro
lardívoro
larvívoro
leguminívoro
lenhívoro
lignívoro
limívoro
melívoro
merdívoro
mucívoro
muscívoro
nucívoro
omnívoro
orizívoro
ossívoro
ovívoro
piscívoro
putrívoro
radicívoro
ratívoro
sacarívoro
salicívoro
sanguívoro
vermívoro
viscívoro

Ortoépia: algoz

E quem o diz?

      Na resposta, hoje, a uma dúvida de uma consulente, a consultora do Ciberdúvidas Eva Arim afirma que o substantivo comum «algoz» se pronuncia com o aberto [ó] no português europeu, e no português do Brasil com o fechado [ô], como no vocábulo «arroz». Ora, não me parece. No Vocabulário da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves, farol que continua a conduzir-nos, recomenda-se a pronúncia com o fechado. Seguindo-lhe a lição, o mesmo se afirma em obras como o Prontuário Fácil da Língua Portuguesa, de D’Silvas Filho, ou o Prontuário Ortográfico e Guia da Língua Portuguesa, de Magnus Bergström e Neves Reis, entre muitas outras. Como nada mudou, e como poderia mudar?, continuarei a seguir o que se diz nestas obras.

Estrangeirismos: uso e abuso

Para inglês ler

      Com o tempo, os dicionários unilingues de português vão-se tornando menos úteis do que dicionários bilingues, em especial os de inglês/português. O que é, diga-se já, atribuível em grande parte aos jornalistas.
      Foi com muito agrado que li na obra Tudo o que se passa na TSF — … para um «livro de estilo» (Editorial Notícias, 2003), da autoria de João Paulo Meneses: «O uso de estrangeirismos na comunicação social (um dos prazeres secretos de muitos jornalistas!) é uma forma de erudição. Mas não é a única. Há outras maneiras de contrariar (consciente/inconscientemente?) aquilo que todos aceitam serem duas das principais regras da escrita — neste caso — da rádio: simplicidade e clareza. Na “aldeia global”, os estrangeirismos são cada vez mais frequentes e inevitáveis, mas nem por isso mais desejáveis ou correctos. Como regra, devíamos recusar todos os estrangeirismos, embora se aceitem algumas excepções. Quais? Aquelas palavras que sabemos serem já do domínio público e que admitimos pertencerem ao universo lexical dos nossos ouvintes (ou seja, aquelas que são descodificáveis de imediato)» (pp. 141-142).
      À luz desta regra, tão sensata e enunciada por um jornalista, é claro que é completamente injustificável o uso de «draft» na citação que se segue. «Esta proposta consta de um draft da Unidade de Missão para a Reforma Penal, dirigida por Rui Pereira, que vai entregar no início de Novembro ao Governo o projecto de lei de política criminal. […] A discriminação racial, religiosa ou sexual também faz parte, no draft que a Unidade de Missão já elaborou, das prioridades da política criminal» («Mulheres grávidas que abortem não devem ser julgadas», Ana Sá Lopes, Diário de Notícias, 12.10.2006, p. 19).
      O que a jornalista pretendia comunicar não o pode ser na língua portuguesa? Faltam-nos termos para o exprimir? Pelo contexto, parece tratar-se do que em inglês se diz «draft material», algo como «projecto de documento», «projecto de lei» (expressão que a jornalista acaba por usar na primeira frase) ou mesmo «documento intermédio» ou «documento provisório».
      Gostava de ver a jornalista Ana Sá Lopes entrar em cafés e centros comerciais, por este país fora, e perguntar aos leitores do Diário de Notícias se perceberam a notícia nesta parte.

«Draft: c.1500, spelling variant of draught (q.v.) to reflect change in pronunciation. Meaning “rough copy of a writing” (something “drawn”) is attested from 14c.; that of "preliminary sketch from which a final copy is made" is from 1528. The meaning “to draw off a group for special duty” is from 1703, in U.S. especially of military service; the v. in this sense first recorded 1714. Draftee is from 1866. Sense in bank draft is from 1745» (Online Etymology Dictionary).

Apostila: patrulheiro

Patrulhar a língua

      Não me queria tornar, ainda tão novo, apostilador do Ciberdúvidas. Contudo, outra consulta me faz querer acrescentar alguma nota. Trata-se, desta vez, da legitimidade do uso do vocábulo «patrulheiro». De facto, vejo-o registado pelo menos desde a 2.ª edição do Novo Dicionário Aurélio, em 1986. Entre nós, vejo-o usado desde há cerca de quatro anos para designar precisamente os cidadãos, habitualmente reformados, que patrulham as ruas das cidades, facilitando o atravessamento às crianças das escolas. Cheguei mesmo a ver algumas vezes um, todo senhor da sua autoridade e com uma braçadeira vermelha, em Odivelas. Em dicionários publicados em Portugal ainda não teve entrada. O que não é, todavia, motivo para deixarmos de o usar, se o entendermos necessário, evidentemente. Veja-se o que acontece com o vocábulo, tão politicamente conotado, «controleiro». Continua no limbo: nenhum dicionário que eu conheça o regista, e contudo ele segue a sua vida. Ultimamente, vi-o mesmo, mais liberto das peias políticas, proposto como tradução do inglês «controller».
      Exemplar é, a este propósito, o trabalho da Academia Francesa, que no decurso de cada revisão do seu dicionário apresenta uma lista exemplificativa, disponível online, das palavras que suprimiu e das que admitiu, como se pode ver aqui.

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