Frutariano?

Sobre dietas
      
      Se come carne, é carnívoro; se come frutos, é frugívoro; se come vegetais, é… vegetariano? Pelo menos no Brasil, a quem se alimenta de frutos também se dá o nome de frutariano, à semelhança de vegetariano. Frutariano vem do inglês fruitarian, que, não estando muito presente em dicionários, é relativamente fácil de encontrar em certas obras. Leio-a, por exemplo, na autobiografia de Gandhi: «It may be recalled that during the whole of this period of penance I was a strict fruitarian» (An Autobiography — The Story of My Experiments with Truth). Vegetariano vem do inglês vegetarian (embora, possivelmente, através do francês végétarien), e é um vocábulo relativamente recente. Foi, tanto quanto é possível dizê-lo, usado pela primeira vez na reunião fundacional da Sociedade Vegetariana do Reino Unido, realizada em Northwood Villa, Kent, a 30 de Setembro de 1847. Antes, os que não comiam carne eram conhecidos por pitagóricos, porque Pitágoras seguia este regime alimentar.
      Claro que o elemento -voro é muito mais abundante, por razões óbvias, na nossa língua. Deixo apenas alguns exemplos:

aerívoro
apívoro
aurívoro
bananívoro
carnívoro
crudívoro
culicívoro
detritívoro
florívoro
formicívoro
frugívoro
frutívoro
fumívoro
glandívoro
graminívoro
granívoro
herbívoro
hominívoro
ignívoro
insectívoro
lardívoro
larvívoro
leguminívoro
lenhívoro
lignívoro
limívoro
melívoro
merdívoro
mucívoro
muscívoro
nucívoro
omnívoro
orizívoro
ossívoro
ovívoro
piscívoro
putrívoro
radicívoro
ratívoro
sacarívoro
salicívoro
sanguívoro
vermívoro
viscívoro

Ortoépia: algoz

E quem o diz?

      Na resposta, hoje, a uma dúvida de uma consulente, a consultora do Ciberdúvidas Eva Arim afirma que o substantivo comum «algoz» se pronuncia com o aberto [ó] no português europeu, e no português do Brasil com o fechado [ô], como no vocábulo «arroz». Ora, não me parece. No Vocabulário da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves, farol que continua a conduzir-nos, recomenda-se a pronúncia com o fechado. Seguindo-lhe a lição, o mesmo se afirma em obras como o Prontuário Fácil da Língua Portuguesa, de D’Silvas Filho, ou o Prontuário Ortográfico e Guia da Língua Portuguesa, de Magnus Bergström e Neves Reis, entre muitas outras. Como nada mudou, e como poderia mudar?, continuarei a seguir o que se diz nestas obras.

Estrangeirismos: uso e abuso

Para inglês ler

      Com o tempo, os dicionários unilingues de português vão-se tornando menos úteis do que dicionários bilingues, em especial os de inglês/português. O que é, diga-se já, atribuível em grande parte aos jornalistas.
      Foi com muito agrado que li na obra Tudo o que se passa na TSF — … para um «livro de estilo» (Editorial Notícias, 2003), da autoria de João Paulo Meneses: «O uso de estrangeirismos na comunicação social (um dos prazeres secretos de muitos jornalistas!) é uma forma de erudição. Mas não é a única. Há outras maneiras de contrariar (consciente/inconscientemente?) aquilo que todos aceitam serem duas das principais regras da escrita — neste caso — da rádio: simplicidade e clareza. Na “aldeia global”, os estrangeirismos são cada vez mais frequentes e inevitáveis, mas nem por isso mais desejáveis ou correctos. Como regra, devíamos recusar todos os estrangeirismos, embora se aceitem algumas excepções. Quais? Aquelas palavras que sabemos serem já do domínio público e que admitimos pertencerem ao universo lexical dos nossos ouvintes (ou seja, aquelas que são descodificáveis de imediato)» (pp. 141-142).
      À luz desta regra, tão sensata e enunciada por um jornalista, é claro que é completamente injustificável o uso de «draft» na citação que se segue. «Esta proposta consta de um draft da Unidade de Missão para a Reforma Penal, dirigida por Rui Pereira, que vai entregar no início de Novembro ao Governo o projecto de lei de política criminal. […] A discriminação racial, religiosa ou sexual também faz parte, no draft que a Unidade de Missão já elaborou, das prioridades da política criminal» («Mulheres grávidas que abortem não devem ser julgadas», Ana Sá Lopes, Diário de Notícias, 12.10.2006, p. 19).
      O que a jornalista pretendia comunicar não o pode ser na língua portuguesa? Faltam-nos termos para o exprimir? Pelo contexto, parece tratar-se do que em inglês se diz «draft material», algo como «projecto de documento», «projecto de lei» (expressão que a jornalista acaba por usar na primeira frase) ou mesmo «documento intermédio» ou «documento provisório».
      Gostava de ver a jornalista Ana Sá Lopes entrar em cafés e centros comerciais, por este país fora, e perguntar aos leitores do Diário de Notícias se perceberam a notícia nesta parte.

«Draft: c.1500, spelling variant of draught (q.v.) to reflect change in pronunciation. Meaning “rough copy of a writing” (something “drawn”) is attested from 14c.; that of "preliminary sketch from which a final copy is made" is from 1528. The meaning “to draw off a group for special duty” is from 1703, in U.S. especially of military service; the v. in this sense first recorded 1714. Draftee is from 1866. Sense in bank draft is from 1745» (Online Etymology Dictionary).

Apostila: patrulheiro

Patrulhar a língua

      Não me queria tornar, ainda tão novo, apostilador do Ciberdúvidas. Contudo, outra consulta me faz querer acrescentar alguma nota. Trata-se, desta vez, da legitimidade do uso do vocábulo «patrulheiro». De facto, vejo-o registado pelo menos desde a 2.ª edição do Novo Dicionário Aurélio, em 1986. Entre nós, vejo-o usado desde há cerca de quatro anos para designar precisamente os cidadãos, habitualmente reformados, que patrulham as ruas das cidades, facilitando o atravessamento às crianças das escolas. Cheguei mesmo a ver algumas vezes um, todo senhor da sua autoridade e com uma braçadeira vermelha, em Odivelas. Em dicionários publicados em Portugal ainda não teve entrada. O que não é, todavia, motivo para deixarmos de o usar, se o entendermos necessário, evidentemente. Veja-se o que acontece com o vocábulo, tão politicamente conotado, «controleiro». Continua no limbo: nenhum dicionário que eu conheça o regista, e contudo ele segue a sua vida. Ultimamente, vi-o mesmo, mais liberto das peias políticas, proposto como tradução do inglês «controller».
      Exemplar é, a este propósito, o trabalho da Academia Francesa, que no decurso de cada revisão do seu dicionário apresenta uma lista exemplificativa, disponível online, das palavras que suprimiu e das que admitiu, como se pode ver aqui.

Publicidade

Em que se fala de má publicidade e tiros

      Neste anúncio da Portugal Telecom, que está a ser publicado, em página inteira, em vários jornais, podemos ler: «Chamadas grátis para sempre? Épa, inventam tudo!» Não terão antes pretendido escrever «EPA», abreviatura de Escola Prática de Artilharia? Então, está o acento agudo a mais. Estou a brincar. E, o que é pior, parece que também eles estão a brincar. Vejamos. «Épa» não existe, mas ninguém — a PT, os Gato Fedorento, a agência de publicidade — se deu ao trabalho de consultar um dicionário. Para quê, não é? Se isto tem tudo tanta graça, mas tanta… Deveriam ter escrito, já todos os meus leitores viram isso, desta forma: «Chamadas grátis para sempre? Eh, pá, inventam tudo!» «Eh», no caso, é uma interjeição que exprime surpresa. «Pá» é a forma abreviada de «rapaz», usada como interlocutório pessoal. Tornou-se, depois do 25 de Abril, bordão de linguagem, marcando o tratamento nas relações sociais. Lembro-me sempre, quando penso em «pá», de Otelo Saraiva de Carvalho, que ainda hoje, passados mais de trinta anos, profere «pá» com uma frequência estonteante. Parece uma G3: pá-pá-pá-pá-pá-pá-pá-pá-pá…

Falso cognato: «compound»

Canetas e braços partidos

      Na Província da Fronteira Noroeste, no Paquistão, ocorre uma escaramuça. Nada de importante, mas ainda assim, um homem faz uma fractura no braço. «His horse had fallen on him when it was shot. The break was a bad one, a compound fracture of the forearm, near the wrist.» O tradutor português, sem surpresa para nós, complica a situação: «A fractura era má, uma fractura composta do antebraço, junto do pulso.» Em Portugal, imagino, ninguém saberia tratar este tipo de fractura, e o homem poderia morrer. E o leitor também sairia maltratado do mau encontro, pois de certeza sabe que o inglês «compound fracture» significa «fractura exposta». Se devolvesse o livro, aí sim, o leitor-consumidor deveria ter direito a «compound interests», juros compostos.

Apostila: arma de antecarga

Pela boca

      Hoje apetece-me fazer uma apostila a uma consulta ao Ciberdúvidas. Trata-se da locução «arma de antecarga», que está dicionarizada, por exemplo, no Dicionário Houaiss e não nos dicionários portugueses. Em espanhol diz-se, de facto, «arma de avancarga» e significa o mesmo que «arma de carregar pela boca». Quero apenas acrescentar que usei a locução em textos que por aí circulam e que corresponde ao inglês «muzzle-loading». Como na frase que se segue: «The muzzle-loaded rifle was decorated along all of its wooden surfaces with gleaming discs, scrolls, and diamond shapes fashioned from brass and silver coins and polished to a dazzling brilliance» (Shantaram, Gregory David Roberts).

Ortografia: «falaxa»

Castanhas ou negros?

      O leitor J. Gomes pergunta-me se se pode aportuguesar o vocábulo «falasha» para «falacha», como vê em alguns textos. A resposta é não. «Falacha», como se pode ler no Grande Dicionário da Língua Portuguesa, é um provincianismo que designa «um bolo feito de castanhas». Característico, ao que parece, dos concelhos de Cinfães e de Mesão Frio. Uma vez que estamos na época das castanhas, veja aqui uma receita de falachas. Falaxas, como está dicionarizado em português, são os judeus da Etiópia (entre os quais, sabe-se, terá sido comum a prática dessa atrocidade que é a excisão feminina), durante muito tempo conhecidos como os Judeus da Abissínia. Perseguidos durante séculos pelas autoridades, restam tão-somente cerca de 20 mil na Etiópia, depois de terem sido algumas centenas de milhares. O nome «falacha» provém de um antigo vocábulo do geez* que significa «exilado», emigrado», «estrangeiro».

* Língua litúrgica da Igreja Ortodoxa Etíope cuja escrita é em bustrofédon: maneira de escrever em que a primeira linha, em vez de terminar na borda do papel, dá uma volta semicircular, para continuar por baixo, da direita para a esquerda, tornando depois a baixar e a voltar da esquerda para a direita, e assim por diante.

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