Falso cognato: «compound»

Canetas e braços partidos

      Na Província da Fronteira Noroeste, no Paquistão, ocorre uma escaramuça. Nada de importante, mas ainda assim, um homem faz uma fractura no braço. «His horse had fallen on him when it was shot. The break was a bad one, a compound fracture of the forearm, near the wrist.» O tradutor português, sem surpresa para nós, complica a situação: «A fractura era má, uma fractura composta do antebraço, junto do pulso.» Em Portugal, imagino, ninguém saberia tratar este tipo de fractura, e o homem poderia morrer. E o leitor também sairia maltratado do mau encontro, pois de certeza sabe que o inglês «compound fracture» significa «fractura exposta». Se devolvesse o livro, aí sim, o leitor-consumidor deveria ter direito a «compound interests», juros compostos.

Apostila: arma de antecarga

Pela boca

      Hoje apetece-me fazer uma apostila a uma consulta ao Ciberdúvidas. Trata-se da locução «arma de antecarga», que está dicionarizada, por exemplo, no Dicionário Houaiss e não nos dicionários portugueses. Em espanhol diz-se, de facto, «arma de avancarga» e significa o mesmo que «arma de carregar pela boca». Quero apenas acrescentar que usei a locução em textos que por aí circulam e que corresponde ao inglês «muzzle-loading». Como na frase que se segue: «The muzzle-loaded rifle was decorated along all of its wooden surfaces with gleaming discs, scrolls, and diamond shapes fashioned from brass and silver coins and polished to a dazzling brilliance» (Shantaram, Gregory David Roberts).

Ortografia: «falaxa»

Castanhas ou negros?

      O leitor J. Gomes pergunta-me se se pode aportuguesar o vocábulo «falasha» para «falacha», como vê em alguns textos. A resposta é não. «Falacha», como se pode ler no Grande Dicionário da Língua Portuguesa, é um provincianismo que designa «um bolo feito de castanhas». Característico, ao que parece, dos concelhos de Cinfães e de Mesão Frio. Uma vez que estamos na época das castanhas, veja aqui uma receita de falachas. Falaxas, como está dicionarizado em português, são os judeus da Etiópia (entre os quais, sabe-se, terá sido comum a prática dessa atrocidade que é a excisão feminina), durante muito tempo conhecidos como os Judeus da Abissínia. Perseguidos durante séculos pelas autoridades, restam tão-somente cerca de 20 mil na Etiópia, depois de terem sido algumas centenas de milhares. O nome «falacha» provém de um antigo vocábulo do geez* que significa «exilado», emigrado», «estrangeiro».

* Língua litúrgica da Igreja Ortodoxa Etíope cuja escrita é em bustrofédon: maneira de escrever em que a primeira linha, em vez de terminar na borda do papel, dá uma volta semicircular, para continuar por baixo, da direita para a esquerda, tornando depois a baixar e a voltar da esquerda para a direita, e assim por diante.

Topónimo: Sanchoão

Hirto e firme

      Todos os anos tenho de escrever — não interessa agora porquê — o nome da ilha onde São Francisco Xavier, o padroeiro das missões, morreu, a 3 de Dezembro de 1522. Como seria extremamente difícil, e supinamente ridículo, escrever esse topónimo em caracteres chineses, resta-nos a transliteração. Assim, não é raro ver escrito que este santo morreu em Chang-Chuen-Shan, embora não falte quem jure que São Francisco terá acabado os seus dias em Sancian. Outros ainda, com a mesma convicção, afirmam que foi em Sanchian. Outros, em Changchuen-shan. Outros, Shang-tschuan. Outros, Chang-tchouen. Eu, sem jurar, continuo a escrever, ano após ano, que foi na ilha de Sanchoão, pertencente ao Império do Meio. Voltamos a falar em 2007.


Etimologia: Gardunha

Refúgio

      De regresso dos montes Hermínios, atravessei a serra da Gardunha. Situada entre os rios Pônsul e Zêzere, com 20 quilómetros de comprimento e 10 quilómetros de largura, atingindo os 1227 metros de altitude, a serra da Gardunha também é conhecida por Guardunha (do árabe «refúgio). Nela nasce o rio Ocresa, um dos afluentes do Tejo. Claro que as placas da Brisa anunciam o «rio Ocreza», mas uns bons quilómetros à frente noutra placa pode ler-se «Paúl do Boquilobo». Percebe-se: tiveram receio de estar a escrever em inglês. Paul* só em Paul McCartney. Apenas uma conjunção particularmente harmoniosa de ignorância e obstinação permite que escrevam mal e não corrijam nunca. Por outro lado, os ladrões de alumínio não são coleccionadores de anomalias, como há, por exemplo, filatelistas que dão tudo por tudo por um selo com qualquer defeito: falta de serrilhado, imagem invertida, etc.

* Sabemos, assim, que conhecem a regra: põe-se o acento agudo no i ou no u que são tónicas e que não formam ditongo com a vogal anterior. Esperamos que aprendam agora que uma das excepções é precisamente a das palavras, oxítonas ou paroxítonas, em que aquelas letras são seguidas de l, m, n, r ou z que não iniciam sílaba e ainda nh: adail, hiulco, paul; Caim, Coimbra, ruim; constituinte, saindo, triunfo; demiurgo, influir, sairdes; aboiz, juiz, raiz; fuinha, moinho, rainha.

Revisão e tradução

Os limites da revisão

      Um mafioso está nas ilhas Maurícias a traficar passaportes falsificados. Espera receber o que pediu por eles e voltar ao seu país. Algo começa a correr mal, pois o interessado diz-lhe que, ao contrário do que estava combinado, vai pagar em rupias mauricianas, que é uma moeda restrita. Acrescenta, contudo, que poderá proceder ao câmbio, com toda a segurança, junto de outro comparsa. Depois de alguma contrariedade inicial, o mafioso pede que o seu contacto o leve a essa terceira personagem. «’You’ll have to go there alone, man,’ the passenger said, laughing happily. ‘He’s in Singapore.’» E o tradutor escreve, e bem: «— Terás de ir lá sozinho, meu — disse o passageiro, rindo alegremente. — Ele está em Singapura.» Como reagirá o mafioso? Vejamos: «‘Singa-fucking-pore!’ I shouted, as that little whirlwind flared in my mind.» E o nosso tradutor, como reagirá ele? «— Singapura?! Merda!! — gritei, com aquele pequeno furacão a crescer na minha mente.»
      Para onde foi o jogo linguístico, menor aliás, do original? O que deve fazer o revisor? Se este corresponder ao protótipo que está na mente de alguns profissionais do meio editorial, limitar-se-á a reflectir se os pontos de interrogação e de exclamação não estarão trocados, tentando interpretar o que tem mais força, se a exclamação se a interrogação, um esforço inglório e que escapará ao escrutínio da esmagadora maioria dos leitores. Formalmente, está tudo correcto, ou não? Os dicionários, é óbvio, de nada servem neste aperto. Se estiver a rever em Word e tiver instalado o FLIP, este ainda lhe dirá, numa advertência escusada e antiescatológica: «Calão (sem sugestões)». Se o revisor não se encaixar, e será bom para todos que não, a começar talvez pelo tradutor, na imagem do manga-de-alpaca caça-gralhas, proporá um jogo linguístico equivalente ao do original. Algo como: «— Singaporra! — gritei, com aquele pequeno furacão a crescer na minha mente.» Claro que o título deste texto poderia ser, e estaria a falar do mesmo:

Os limites da tradução

Determinação de topónimos

Imagem: http://formiguinha.blogs.sapo.pt/2005/07/
Falamos do mesmo?

      Ultimamente, é comum ouvir-se na rádio e na televisão «o Monsanto». Lembram-se daquela regra de perguntar aos naturais ou residentes como se diz? Ora, da minha janela avisto… o quê? Avisto Monsanto. Os meus vizinhos com janelas a deitar para aqueles lados dizem-me o mesmo: avistam Monsanto. Se pensarmos neste nome exclusivamente como um orónimo ou orotopónimo (nome designativo de montanhas, montes, colinas e afins), pois que se trata de uma serra, talvez se possa concordar com o uso do artigo, tanto por causa da etimologia (monte Tagro → monte Sacro → monte Santo → Monsanto), como por razões de analogia, já que também se diz, embora constituam excepções, «o Gerês», «a Malcata», «a Arrábida» (ver texto «Artigo em nomes de localidades»). Como topónimo (e só dissocio uma coisa da outra para fins de análise), a designar mais precisamente o Parque Florestal de Monsanto, creio que a determinação não faz sentido. E, de facto, não ouço ninguém na rua dizer «o Monsanto». Parece, pois, um modismo de radialistas.

Livro de Estilo

Revisores e normas

      Nem todas as publicações periódicas têm, como deviam, Livro de Estilo. É verdade que nem sempre os leitores sabem que determinada publicação tem este instrumento uniformizador, pois que nem sempre é objecto de edição comercializável, como fazem o Público e a TSF, por exemplo. Recentemente, foi-me pedida a redacção de um destes textos normativos para uma publicação e sei que será apenas um instrumento interno. É bem verdade que se escreve correctamente, e com critérios uniformes, em certas publicações que não têm Livro de Estilo: estão lá os revisores para isso. Contudo, se há mais do que um revisor ou se há rotatividade, o risco de deriva na forma como se grafa, além de outros aspectos gramaticais, pois que um Livro de Estilo tem uma vocação mais abrangente, é real. Ocorreu-me esta reflexão a propósito da seguinte frase do Diário de Notícias: «A barragem de Alqueva é este fim-de-semana a capital nacional do catamaran» («Velas ao vento na barragem de Alqueva», Roberto Dores, 6.10.2006, p. 31). Um Livro de Estilo recomendaria (ah, pois, as mãos dos jornalistas permanecem sempre livres) que se não usasse a grafia inglesa de um vocábulo procedente de outra língua — em especial porque, no caso em apreço, este vocábulo está há muito adaptado à língua portuguesa. A recomendação legitimaria, por sua vez, a emenda que o revisor deveria fazer.
      A propósito, «catamarã» vem, já aqui o registei no texto «Asiatismos. Índia e Ceilão», do tâmil e, se está registado no inglês desde 1673, no português é usado desde o século XVI.


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