Bandeira dos piratas


Abordar!

      Apesar de não nos faltarem obras sobre pirataria, de ficção e não só, é muito raro ver o nome que tinha a universalmente conhecida bandeira dos piratas. Mesmo nas traduções, e ainda que no original apareça o nome em inglês, é comum ver-se assim referida — bandeira dos piratas. A verdade é que, tirando o próprio termo «pirata», cujo étimo é grego, muitos dos vocábulos deste campo lexical são ingleses ou franceses. Alguns aportuguesámo-los, como o francês boucanier («Aventurier d’Amérique et des Antilles chassant le bœuf sauvage pour boucaner la viande et faire le commerce des peaux»; por extensão de sentido: «Pirate écumant, au XVIIe siècle, les mers de l’Amérique et des Antilles»), que é o étimo do nosso bucaneiro. Ou flibustier («Membre d’une association de pirates des mers d’Amérique»), origem do nosso flibusteiro. A bandeira com a caveira e as tíbias cruzadas, porém, não tem nome entre nós, nem sequer nos preocupámos em aportuguesá-lo. Ao que parece, e independentemente da sua etimologia, aliás bem longe de ser incontroversa, logo em 1785 se registava no inglês, na obra A Classical Dictionary of the Vulgar Tongue, de Francis Grose, a designação «Jolly Roger» para a bandeira dos piratas.

Etimologia: testemunha

É de homem

      Todos temos consciência de como, de uma maneira geral, ainda somos relutantes em ir a tribunal prestar testemunho acerca de quaisquer factos que interesse averiguar. Na província, correm como anedotas episódios hilariantes sobre esta realidade e, até há pouco tempo, estava enraizado no imaginário colectivo o risco de a testemunha ficar detida em vez do próprio arguido. Ir testemunhar voluntariamente parecia ser coisa só de homens intimoratos.
      Parece que a própria etimologia do vocábulo «testemunha» já determinava a atitude. De facto, «testemunha» provém do latim testis (no português antigo, usava-se o vocábulo «teste» nesta acepção; modernamente, qualquer teste, e este chegou-nos também do latim através do inglês, comprova, atesta algo), que por sua vez procede da raiz indo-europeia tris-, a que pertence também, por exemplo, a palavra inglesa tree. A ideia é a de alguém, imparcial, que está no meio, qual árvore bem fincada no chão, das partes interessadas, que testemunha o acordo. Ora, da mesma palavra latina testis provém, e era aqui que queria chegar, o vocábulo «testículo» — o órgão que atesta a virilidade de um homem.

Etimologia: Santarém

Santa etimologia

      Século VI. Filha dos senhores de Sellium (Tomar), Irene ou Iria, natural de Nabância, começou muito cedo a professar a religião cristã num mosteiro da ordem beneditina. Vítima de uma intriga engendrada pelo monge Remígio, seu mestre, foi decapitada e lançada por Britaldo (ou Banão) num pego do rio Nabão, e o seu corpo sepultado pelos anjos nas areias do Tejo, junto a Scalabis. Em sua homenagem, esta localidade passou, no século seguinte, a chamar-se Santarém (Santa Irene ou Iria). Lendária ou não, é a explicação que temos para a etimologia do topónimo Santarém. Ao contrário de inúmeros santos aémeros (os que não são celebrados em dia especial, por ignorar-se a data da sua morte), Santa Iria tem um dia em que é festejada: 20 de Outubro.

Léxico: pastifício

Imagem: http://www.pastificiopetropolis.com.br/

Sucos & Massas


      Em Setembro, um consulente brasileiro, Paulo Pérsio, perguntava à equipa do Ciberdúvidas se existia um adjectivo que exprimisse a noção associada à locução «de suco», para referir uma indústria que produz sumos. Depois de referir «suculento», o consultor concluiu, sensatamente, que não se aplicava com propriedade e, inferimos, que não existe vocábulo para o exprimir. O que é, tanto quanto sei, verdade. E este é ou pode ser o primeiro passo para criar ou adaptar de outra língua esse vocábulo de que se precisa.
Lembremo-nos do termo «pastifício», usado para designar a indústria de massas alimentícias, levado na bagagem cultural e linguística dos italianos que emigraram para o Brasil. Actualmente, depois de ter sido introduzido no léxico no início do século XX, faz parte do dia-a-dia dos Brasileiros. De alguns, pelo menos. Em contrapartida, quem o conhece em Portugal? Os imigrantes brasileiros, pois claro!

Léxico: «hálux»

Da mão para o pé

      É verdade que o vocábulo «polegar» também se aplica ao dedo grande do pé. Contudo, o ideal é fazer corresponder a cada conceito um vocábulo diferente. É prosseguindo por este caminho que a ambiguidade (que, de resto, tem causas muito mais vastas) é menor naquilo que dizemos e escrevemos. Os Brasileiros, que são mais criativos e liberais, libérrimos, na verdade, na linguagem, dão o nome de «dedão» ao dedo grande do pé — e o Dicionário Houaiss regista-o. O vocábulo que designa, de forma inequívoca e com propriedade, esse dedo é «hálux». Os joanetes (vocábulo que vem do espanhol «juanete», registando o Diccionario de la Real Academia Española que é assim porque provém de «Juan, nombre rústico frecuente, pues se atribuía a rústicos ser juanetudo») têm a designação médica de «hallux valgo». O Chico Fininho, de Carlos Tê e Rui Veloso, tinha joanetes — e muita droga no corpo, o que é pior.


Multiúsos

Nada disso

      Tratava-se de traduzir o termo inglês «all-purpose» e a frase era a seguinte: «But like some all-purpose brainbooster, the prefrontal area is spectacularly flexible, able to engaje in a greater range of tasks than any other neural structure.» O tradutor verteu-a assim: «Mas como uma espécie de impulsionador cerebral multi-usos, a área pré-frontal é espectacularmente flexível, capaz de desempenhar uma gama de tarefas muito mais ampla do que qualquer outra estrutura neural.» Recentemente, também li no Diário de Notícias: «Novo pavilhão multiusos abre no dia 28» (12.09.2006, p. 33). A verdade, porém, é que a palavra é grave (como a maioria das palavras portuguesas) e, por ter o acento tónico no u, que é precedido de vogal com a qual não forma ditongo, tem de ter acento gráfico: multiúsos. Pela sua formação irregular, é, contudo, uma palavra que se deve evitar, substituindo-a vantajosamente por «polivalente», por exemplo. O que, afinal, sucede muitas vezes, pois que deverá haver mais «pavilhões polivalentes» do que «pavilhões multiúsos». Vendo bem, talvez não haja sequer um «pavilhão multiúsos», mas somente «multi-usos» ou «multiusos».

Plural de lugar-tenente

Realmente…

      «But I did not have a fearsome mace in my hands, and two of my lieutenants pinning Vassos to the wall.» Traduzir de forma incontroversa? Só para espanhol. «Pero yo no tenía una maza terrorífica en las manos ni a dos de mis lugartenientes incrustando a Vassos en la pared.» Para português: o tradutor A, munido do Dicionário da Academia, afiança que é: «Mas não tinha uma maça nas minhas mãos, nem dois dos meus lugar-tenentes a bloquear Vassos contra a parede.» O tradutor B, com o Dicionário Aurélio nas mãos, fá-lo aproximadamente da mesma forma, e sobretudo faz fé no plural do vocábulo «lugar-tenente» que vê registado neste dicionário: lugar-tenentes. A maioria dos dicionários e prontuários guarda um silêncio prudente (ou displicente) sobre a questão, pelo que do tradutor C ao tradutor X tudo é feito com muita fé nesse silêncio e alguma no revisor. Chega o tradutor Z, possuidor do Dicionário Houaiss, e escreve: «Mas não tinha uma clava nas minhas mãos nem dois dos meus lugares-tenentes a cravar Vassos contra a parede.» Quem tem razão? Atendendo à etimologia — locum tenens —, diria que é quem opta pelo plural «lugar-tenente». Todavia, face às regras, de resto também controversas, do plural dos nomes compostos, parece ser «lugares-tenentes», pois que estamos perante dois substantivos e claramente não se trata de uma excepção (como os casos em que a segunda palavra denota uma ideia de fim, função ou semelhança, de que já aqui falei), e aí temos o plural de lugar-comum: lugares-comuns. Em que é que estes lugares, de resto pouco amenos, diferem entre si? Por fim: na verdade, há uma forma incontroversa de traduzirmos lieutenants, que é locotenentes. Só com ela podemos enfrentar a simplicidade do espanhol.

Léxico: murco

Bons genes

      Os mancebos romanos que não queriam cumprir o serviço militar obrigatório — algo mais longo do que alguma vez foi em Portugal, mesmo em tempos da guerra colonial —, e não seriam poucos, decepavam o dedo polegar. Para estes mancebos, que não seriam, aposto, vistos com bons olhos pelos demais cidadãos nem considerados heróis, havia uma designação: murcos. Termo que, por extensão de sentido, passou a designar qualquer cobarde. Curiosamente, é a este comportamento que se deve também a origem do nosso termo poltrão (e do francês poltron, com o mesmo significado, tal como do italiano poltrone), hoje em dia pouco usado, que provém de pollice trunco (pólex truncado, ou, num português mais moderno, polegar truncado, cortado). Não é impossível que o nosso morcão tenha aqui o seu étimo, mas disso falarei noutro dia.

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