Léxico: «pastifício»

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Sucos & Massas

      Em Setembro, um consulente brasileiro, Paulo Pérsio, perguntava à equipa do Ciberdúvidas se existia um adjectivo que exprimisse a noção associada à locução «de suco», para referir uma indústria que produz sumos. Depois de referir «suculento», o consultor concluiu, sensatamente, que não se aplicava com propriedade e, inferimos, que não existe vocábulo para o exprimir. O que é, tanto quanto sei, verdade. E este é ou pode ser o primeiro passo para criar ou adaptar de outra língua esse vocábulo de que se precisa.
Lembremo-nos do termo «pastifício», usado para designar a indústria de massas alimentícias, levado na bagagem cultural e linguística dos italianos que emigraram para o Brasil. Actualmente, depois de ter sido introduzido no léxico no início do século XX, faz parte do dia-a-dia dos Brasileiros. De alguns, pelo menos. Em contrapartida, quem o conhece em Portugal? Os imigrantes brasileiros, pois claro!

Léxico: «hálux»

Da mão para o pé

      É verdade que o vocábulo «polegar» também se aplica ao dedo grande do pé. Contudo, o ideal é fazer corresponder a cada conceito um vocábulo diferente. É prosseguindo por este caminho que a ambiguidade (que, de resto, tem causas muito mais vastas) é menor naquilo que dizemos e escrevemos. Os Brasileiros, que são mais criativos e liberais, libérrimos, na verdade, na linguagem, dão o nome de «dedão» ao dedo grande do pé — e o Dicionário Houaiss regista-o. O vocábulo que designa, de forma inequívoca e com propriedade, esse dedo é «hálux». Os joanetes (vocábulo que vem do espanhol «juanete», registando o Diccionario de la Real Academia Española que é assim porque provém de «Juan, nombre rústico frecuente, pues se atribuía a rústicos ser juanetudo») têm a designação médica de «hallux valgo». O Chico Fininho, de Carlos Tê e Rui Veloso, tinha joanetes — e muita droga no corpo, o que é pior.

Multiúsos

Nada disso

      Tratava-se de traduzir o termo inglês «all-purpose» e a frase era a seguinte: «But like some all-purpose brainbooster, the prefrontal area is spectacularly flexible, able to engaje in a greater range of tasks than any other neural structure.» O tradutor verteu-a assim: «Mas como uma espécie de impulsionador cerebral multi-usos, a área pré-frontal é espectacularmente flexível, capaz de desempenhar uma gama de tarefas muito mais ampla do que qualquer outra estrutura neural.» Recentemente, também li no Diário de Notícias: «Novo pavilhão multiusos abre no dia 28» (12.09.2006, p. 33). A verdade, porém, é que a palavra é grave (como a maioria das palavras portuguesas) e, por ter o acento tónico no u, que é precedido de vogal com a qual não forma ditongo, tem de ter acento gráfico: multiúsos. Pela sua formação irregular, é, contudo, uma palavra que se deve evitar, substituindo-a vantajosamente por «polivalente», por exemplo. O que, afinal, sucede muitas vezes, pois que deverá haver mais «pavilhões polivalentes» do que «pavilhões multiúsos». Vendo bem, talvez não haja sequer um «pavilhão multiúsos», mas somente «multi-usos» ou «multiusos».

Plural de lugar-tenente

Realmente…

      «But I did not have a fearsome mace in my hands, and two of my lieutenants pinning Vassos to the wall.» Traduzir de forma incontroversa? Só para espanhol. «Pero yo no tenía una maza terrorífica en las manos ni a dos de mis lugartenientes incrustando a Vassos en la pared.» Para português: o tradutor A, munido do Dicionário da Academia, afiança que é: «Mas não tinha uma maça nas minhas mãos, nem dois dos meus lugar-tenentes a bloquear Vassos contra a parede.» O tradutor B, com o Dicionário Aurélio nas mãos, fá-lo aproximadamente da mesma forma, e sobretudo faz fé no plural do vocábulo «lugar-tenente» que vê registado neste dicionário: lugar-tenentes. A maioria dos dicionários e prontuários guarda um silêncio prudente (ou displicente) sobre a questão, pelo que do tradutor C ao tradutor X tudo é feito com muita fé nesse silêncio e alguma no revisor. Chega o tradutor Z, possuidor do Dicionário Houaiss, e escreve: «Mas não tinha uma clava nas minhas mãos nem dois dos meus lugares-tenentes a cravar Vassos contra a parede.» Quem tem razão? Atendendo à etimologia — locum tenens —, diria que é quem opta pelo plural «lugar-tenente». Todavia, face às regras, de resto também controversas, do plural dos nomes compostos, parece ser «lugares-tenentes», pois que estamos perante dois substantivos e claramente não se trata de uma excepção (como os casos em que a segunda palavra denota uma ideia de fim, função ou semelhança, de que já aqui falei), e aí temos o plural de lugar-comum: lugares-comuns. Em que é que estes lugares, de resto pouco amenos, diferem entre si? Por fim: na verdade, há uma forma incontroversa de traduzirmos lieutenants, que é locotenentes. Só com ela podemos enfrentar a simplicidade do espanhol.

Léxico: murco

Bons genes

      Os mancebos romanos que não queriam cumprir o serviço militar obrigatório — algo mais longo do que alguma vez foi em Portugal, mesmo em tempos da guerra colonial —, e não seriam poucos, decepavam o dedo polegar. Para estes mancebos, que não seriam, aposto, vistos com bons olhos pelos demais cidadãos nem considerados heróis, havia uma designação: murcos. Termo que, por extensão de sentido, passou a designar qualquer cobarde. Curiosamente, é a este comportamento que se deve também a origem do nosso termo poltrão (e do francês poltron, com o mesmo significado, tal como do italiano poltrone), hoje em dia pouco usado, que provém de pollice trunco (pólex truncado, ou, num português mais moderno, polegar truncado, cortado). Não é impossível que o nosso morcão tenha aqui o seu étimo, mas disso falarei noutro dia.

Ortografia: bel-prazer

Belo serviço…

      Esta noite sonhei que toda a gente sabia escrever correctamente a palavra «bel-prazer». Sonhos… A verdade é que, já acordado, me contentava se todos os tradutores a soubessem escrever. Modesto, nem me importo que eles não saibam que «bel» é a forma apocopada de «belo» — mas que ainda assim o escrevam e saibam que é uma palavra composta. Escreverem uma vida inteira «a seu belo prazer» não abona nada a favor da sua cultura. E assim, sem tir-te nem guar-te, o que era sonho poderá tornar-se realidade.

Género de sentinela

Alerta!

      Desta vez não se trata das legendas de qualquer filme, matéria inesgotável, mas tão-somente do título. Não tinha, quem o traduziu, pensar-se-ia, muito por onde errar. E, no entanto, errou. O vocábulo «sentinela» não é um nome comum de dois, como, por exemplo, artista (o artista/a artista; o jornalista/a jornalista; o jurista/a jurista; o turista/a turista…), mas sim sobrecomum, como a criança, o cônjuge, o indivíduo, a testemunha, etc. Logo, correctamente seria «A Sentinela», pois é do género feminino. Se, por algum preconceito inominável, o responsável pela tradução queria um sinónimo do género masculino, tinha esculca. É um erro muito comum, em especial nas traduções.
 

Tradução: «stepping-stone»

Imagem: http://www.amblesideprimary.com/
De um lado para o outro

      A leitora Isabel Martins pergunta-me como traduzir a palavra inglesa «stepping-stone» (A stone to raise the feet above the surface of water or mud in walking). Nada mais simples: alpondras. Ou pondras: pedras colocadas de margem a margem numa ribeira, riacho ou lameiro, para dar passagem a pé enxuto. As alpondras estão sempre num vau, isto é, num trecho pouco fundo da corrente. Camilo nas Novelas do Minho: «Ao repontar da manhã, atravessámos o Vizela por umas alpondras sobre as quais se encurvam hoje os arcos da Ponte Nova» («Gracejos que matam», prefácio e fixação de texto de J. Cândido Martins, Edições Caixotim, 1.ª ed., 2006, p. 51).

Actualização em 2.5.2010

      Por vezes, vê-se em traduções: «E embora no mundo da carne tivesse falhado, no mundo das mentes voei, talvez não como um pássaro voa, mas como um homem a avançar rapidamente por cima de uma infinidade de alpondras, cada nova pedra fornecendo uma plataforma da qual saltar para muitas outras» (O Fim do Senhor Y, Scarlett Thomas. Tradução de Inês Castro e revisão de Duarte Camacho. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008, p. 144).

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