Ortografia: bel-prazer

Belo serviço…

      Esta noite sonhei que toda a gente sabia escrever correctamente a palavra «bel-prazer». Sonhos… A verdade é que, já acordado, me contentava se todos os tradutores a soubessem escrever. Modesto, nem me importo que eles não saibam que «bel» é a forma apocopada de «belo» — mas que ainda assim o escrevam e saibam que é uma palavra composta. Escreverem uma vida inteira «a seu belo prazer» não abona nada a favor da sua cultura. E assim, sem tir-te nem guar-te, o que era sonho poderá tornar-se realidade.

Género de sentinela


Alerta!

      Desta vez não se trata das legendas de qualquer filme, matéria inesgotável, mas tão-somente do título. Não tinha, quem o traduziu, pensar-se-ia, muito por onde errar. E, no entanto, errou. O vocábulo «sentinela» não é um nome comum de dois, como, por exemplo, artista (o artista/a artista; o jornalista/a jornalista; o jurista/a jurista; o turista/a turista…), mas sim sobrecomum, como a criança, o cônjuge, o indivíduo, a testemunha, etc. Logo, correctamente seria «A Sentinela», pois é do género feminino. Se, por algum preconceito inominável, o responsável pela tradução queria um sinónimo do género masculino, tinha esculca. É um erro muito comum, em especial nas traduções.
 

Tradução: «stepping-stone»

Imagem: http://www.amblesideprimary.com/

De um lado para o outro


      A leitora Isabel Martins pergunta-me como traduzir a palavra inglesa «stepping-stone» (A stone to raise the feet above the surface of water or mud in walking). Nada mais simples: alpondras. Ou pondras: pedras colocadas de margem a margem numa ribeira, riacho ou lameiro, para dar passagem a pé enxuto. As alpondras estão sempre num vau, isto é, num trecho pouco fundo da corrente. Camilo nas Novelas do Minho: «Ao repontar da manhã, atravessámos o Vizela por umas alpondras sobre as quais se encurvam hoje os arcos da Ponte Nova» («Gracejos que matam», prefácio e fixação de texto de J. Cândido Martins, Edições Caixotim, 1.ª ed., 2006, p. 51).

Actualização em 2.5.2010

      Por vezes, vê-se em traduções: «E embora no mundo da carne tivesse falhado, no mundo das mentes voei, talvez não como um pássaro voa, mas como um homem a avançar rapidamente por cima de uma infinidade de alpondras, cada nova pedra fornecendo uma plataforma da qual saltar para muitas outras» (O Fim do Senhor Y, Scarlett Thomas. Tradução de Inês Castro e revisão de Duarte Camacho. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008, p. 144).

Farmacopeia antiga

Rua Marechal Saldanha, 1, 1249-069 Lisboa

Na botica


      Ainda não tive oportunidade de visitar o Museu da Farmácia, o que é pena, pois sempre tive um grande fascínio por aqueles boiões de vidro coalhado (alguns da Real Fábrica de Coina, sei agora) e de porcelana branca e azul, almofarizes, etc. Tanto mais que lhe foi atribuído o prémio de Melhor Museu Português 1996\97\98 e Melhor Projecto Farmacêutico 99. Entretanto, aqui ficam alguns termos da farmacopeia antiga.

Diacímino m. Velha droga citada nas farmacopeias e cuja base eram os cominhos.
Diagrídio m. Nome que se dava à escamónea nas antigas farmacopeias.
Duela f. Peso antigo das farmácias, equivalente a um terço da onça.
Egozeron m. Farinha de alforvas, nos velhos livros de Farmácia.
Encardia f. Segundo as velhas farmacopeias, era determinada pedra em que se via uma figura de coração e que tinha aplicação terapêutica.
Forsina f. Designação dada na Farmácia antiga ao excremento das pombas.
Galen f. Na antiga Farmácia chamava-se assim à carne de raposa, seca.
Gali m. Farm. Ant. Antiga designação do anil.
Gecazum m. Nome dado nos velhos livros de terapêutica à rã.
Lirino adj. Ant. Dizia-se de certo unguento feito com folhas de lírio.
Orviatão m. Farm. Ant. Medicamento eficaz para todas as espécies de dores de barriga.
Petálio m. Na farmacopeia antiga, unguento de folhas de nardo.
Rasina f. Ant. Pez que se reduzia a pó e se empregava em Farmácia.

Constar

Não me consta

      A revista VIP decidiu auscultar «O último suspiro dos Beatles» (texto de José Carlos Cruz, VIP n.º 479, 20.09.2006). «O mais multifacetado músico [George Harrison] da banda (consta-se que tocava mais de 20 instrumentos) assinou apenas uma música neste álbum: Here Comes The Sun, composta num lindo dia de sol, como confessou o músico.» Há-de ser tudo verdade, mas o certo é que o verbo constar não é reflexivo, nem eu tenho a culpa disso. É em vão que consultamos a melhor obra no género — o Dicionário de Verbos e Regimes, de Francisco Fernandes — em busca da forma reflexiva deste verbo. Há-de ser confusão.

Ratisbona

Coisa de brichotes

      Qual Regensburg, qual quê! Leia-se Vasco Graça Moura: «Quem se tenha dado ao trabalho de ler o texto da intervenção do Papa Bento XVI na Universidade de Ratisbona, sabe que as suas palavras, no tocante ao ponto que recentemente se tornou tão controverso, foram as seguintes: […]» («O terrorismo do alvoroço hipócrita», Diário de Notícias, 20.09.2006, p. 8). Se há vocábulo correspondente em português, não temos de usar os topónimos na sua ortografia e pronúncia estrangeiras. No caso, «Ratisbona» vem do francês «Ratisbone», é bem verdade, mas está conforme com a nossa língua.

Café-concerto

Alto e pára o baile!

      «O chá dançante regressa hoje ao Café Concerto do Teatro Municipal da Guarda» («Guarda. Danças tradicionais agitam chá dançante», Diário de Notícias, 20.09.06, p. 34). É para maiores de 50 anos, pelo que vou ter de esperar ainda uns bons anos. Deo gratias! Por infausto acaso, para o jornalista (ou será para nós, leitores pagantes?), tanto «chá-dançante» como «café-concerto» se escrevem como acabei de fazer, com hífen. São palavras compostas. A única diferença é que o plural da primeira é «chás-dançantes» e o da segunda, «cafés-concerto», isto porque o segundo elemento («concerto») denota uma ideia de fim, determinando o primeiro. Outros exemplos semelhantes a «café-concerto»:
  • carro-patrulha/carros-patrulha;
  • contrato-programa/contratos-programa;
  • data-limite/datas-limite;
  • escola-modelo/escolas-modelo;
  • Estado-nação/Estados-nação;
  • Estado-vassalo/Estados-vassalo;
  • máquina-ferramenta/máquinas-ferramenta;
  • navio-patrulha/navios-patrulha;
  • palavra-chave/palavras-chave

Regência do verbo precisar

Está certo no Brasil

      «Não precisa correr para garantir chegada a Castro Verde a horas de visitar o Tesouro da Basílica Real, sendo que Beja (a menos de 30 quilómetros pelo IP2) pode ser o local ideal para pernoitar» («À descoberta de tesouros alentejanos», Roberto Dores, Diário de Notícias, 20.09.2006, p. 34). O verbo precisar, pelo menos em Portugal, é regido da preposição de: «preciso de comer», «preciso de bons dicionários», etc. No Brasil, é comum e tida como correcta a forma não preposicionada. Como o Diário de Notícias se publica somente em Portugal, deve ater-se — e dar formação aos seus jornalistas que aborde estes aspectos — às normas vigentes.

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