Farmacopeia antiga

Rua Marechal Saldanha, 1, 1249-069 Lisboa

Na botica


      Ainda não tive oportunidade de visitar o Museu da Farmácia, o que é pena, pois sempre tive um grande fascínio por aqueles boiões de vidro coalhado (alguns da Real Fábrica de Coina, sei agora) e de porcelana branca e azul, almofarizes, etc. Tanto mais que lhe foi atribuído o prémio de Melhor Museu Português 1996\97\98 e Melhor Projecto Farmacêutico 99. Entretanto, aqui ficam alguns termos da farmacopeia antiga.

Diacímino m. Velha droga citada nas farmacopeias e cuja base eram os cominhos.
Diagrídio m. Nome que se dava à escamónea nas antigas farmacopeias.
Duela f. Peso antigo das farmácias, equivalente a um terço da onça.
Egozeron m. Farinha de alforvas, nos velhos livros de Farmácia.
Encardia f. Segundo as velhas farmacopeias, era determinada pedra em que se via uma figura de coração e que tinha aplicação terapêutica.
Forsina f. Designação dada na Farmácia antiga ao excremento das pombas.
Galen f. Na antiga Farmácia chamava-se assim à carne de raposa, seca.
Gali m. Farm. Ant. Antiga designação do anil.
Gecazum m. Nome dado nos velhos livros de terapêutica à rã.
Lirino adj. Ant. Dizia-se de certo unguento feito com folhas de lírio.
Orviatão m. Farm. Ant. Medicamento eficaz para todas as espécies de dores de barriga.
Petálio m. Na farmacopeia antiga, unguento de folhas de nardo.
Rasina f. Ant. Pez que se reduzia a pó e se empregava em Farmácia.

Constar

Não me consta

      A revista VIP decidiu auscultar «O último suspiro dos Beatles» (texto de José Carlos Cruz, VIP n.º 479, 20.09.2006). «O mais multifacetado músico [George Harrison] da banda (consta-se que tocava mais de 20 instrumentos) assinou apenas uma música neste álbum: Here Comes The Sun, composta num lindo dia de sol, como confessou o músico.» Há-de ser tudo verdade, mas o certo é que o verbo constar não é reflexivo, nem eu tenho a culpa disso. É em vão que consultamos a melhor obra no género — o Dicionário de Verbos e Regimes, de Francisco Fernandes — em busca da forma reflexiva deste verbo. Há-de ser confusão.

Ratisbona

Coisa de brichotes

      Qual Regensburg, qual quê! Leia-se Vasco Graça Moura: «Quem se tenha dado ao trabalho de ler o texto da intervenção do Papa Bento XVI na Universidade de Ratisbona, sabe que as suas palavras, no tocante ao ponto que recentemente se tornou tão controverso, foram as seguintes: […]» («O terrorismo do alvoroço hipócrita», Diário de Notícias, 20.09.2006, p. 8). Se há vocábulo correspondente em português, não temos de usar os topónimos na sua ortografia e pronúncia estrangeiras. No caso, «Ratisbona» vem do francês «Ratisbone», é bem verdade, mas está conforme com a nossa língua.

Café-concerto

Alto e pára o baile!

      «O chá dançante regressa hoje ao Café Concerto do Teatro Municipal da Guarda» («Guarda. Danças tradicionais agitam chá dançante», Diário de Notícias, 20.09.06, p. 34). É para maiores de 50 anos, pelo que vou ter de esperar ainda uns bons anos. Deo gratias! Por infausto acaso, para o jornalista (ou será para nós, leitores pagantes?), tanto «chá-dançante» como «café-concerto» se escrevem como acabei de fazer, com hífen. São palavras compostas. A única diferença é que o plural da primeira é «chás-dançantes» e o da segunda, «cafés-concerto», isto porque o segundo elemento («concerto») denota uma ideia de fim, determinando o primeiro. Outros exemplos semelhantes a «café-concerto»:
  • carro-patrulha/carros-patrulha;
  • contrato-programa/contratos-programa;
  • data-limite/datas-limite;
  • escola-modelo/escolas-modelo;
  • Estado-nação/Estados-nação;
  • Estado-vassalo/Estados-vassalo;
  • máquina-ferramenta/máquinas-ferramenta;
  • navio-patrulha/navios-patrulha;
  • palavra-chave/palavras-chave

Regência do verbo precisar

Está certo no Brasil

      «Não precisa correr para garantir chegada a Castro Verde a horas de visitar o Tesouro da Basílica Real, sendo que Beja (a menos de 30 quilómetros pelo IP2) pode ser o local ideal para pernoitar» («À descoberta de tesouros alentejanos», Roberto Dores, Diário de Notícias, 20.09.2006, p. 34). O verbo precisar, pelo menos em Portugal, é regido da preposição de: «preciso de comer», «preciso de bons dicionários», etc. No Brasil, é comum e tida como correcta a forma não preposicionada. Como o Diário de Notícias se publica somente em Portugal, deve ater-se — e dar formação aos seus jornalistas que aborde estes aspectos — às normas vigentes.

Uso do hífen

Diferenças

      «Quatro mortos, nenhum dos quais americano, são o saldo negro no já de si sinistro quadro do Médio-Oriente» («A semana que passa…», Expresso, 16.09.2006, p. 6). Esta fúria hifenizadora influenciou outras publicações, mas não, pelo menos no que diz respeito a esta locução, o rival («Este semanário não oferece brindes nem faz promoções») Sol: «A diplomacia regressou ao Médio Oriente pela força» («Obrigados a negociar», Carlos Ferreira Madeira, Sol, 16.09.2006, p. 32).

Extra/extras

Concordem

      «Ministro proíbe gastos extras às direcções dos hospitais» (Público, 20.08.2006, p. 26). «3000 vagas extra geram polémica e levam sindicatos a pedir repetição de concursos» (Pedro Sousa Tavares, Diário de Notícias, 17.09.2006, p. 19). Já aqui tinha referido este erro relativamente comum. Ora, como adjectivo que é, «extra» tem de concordar com o substantivo que qualifica: «3000 vagas extras». Se tiverem dúvidas, façam como acabaram por fazer no corpo desta última notícia: «3000 vagas adicionais».

Erros

Nada de novo debaixo do Sol

      Pelo menos no que respeita ao aspecto que aqui interessa, a língua. Erros ortográficos («precaridade», «contra-proposta», «bem disposto», «TV’s», «dona-de-casa», «transsexual», «contra-golpes», «tromba de água», «horário-nobre», «semi-públicos», etc.), falta de critério («1 500 escolas», «2.749 vítimas»; «Pennsylvania», «Pensilvânia»), critério errado («SIC estreia novela ousada», «Um pouco de Portugal na NBC», «TVI à frente em Setembro»)… Contudo, em termos sintácticos não há nada de especial a assinalar. No que já li, nunca falta clareza nem lógica na exposição das ideias, o que é dizer muito. Em suma, e apesar do que fica acima, o semanário Sol é citável, o que não se pode dizer de todos os jornais.

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