Uso do itálico

Nem pensar

      «E entretanto aventam-se uma série de nomes para quem poderá vir a coadjuvar Brown na nova direcção do Labour» («Oposição a Blair vai pedir a sua demissão no congresso do Labour», Público, 20.08.2006, p. 22).
      «E em Maio do ano passado foi o primeiro trabalhista a conseguir uma terceira vitória consecutiva para o Labour» («Blair não avança data mas sai no espaço de um ano», Susana Salvador, Diário de Notícias, 8.09.2006, p. 14).
      As regras sobre o uso do itálico não prevêem que se grafe o nome das instituições — neste caso, um partido político — em itálico, independentemente de o nome ter tradução ou não.

Advérbio onde

É simples

      «Fidalgo, oficial do Exército (onde chegou a general), escritor e secretário particular de el-rei durante o reinado de D. Carlos (1889-1908)» («A minha rua tem o nome de um deputado», Rui Ramos, Público, 26.08.2006, p. 11). Trata-se do conde de Arnoso, amigo de Eça de Queirós. E o erro, onde está? Pois está no «onde», advérbio de lugar que se deverá utilizar somente na referência a um local. Infelizmente, é um erro com raízes bem fundas e, o que é pior, cada vez mais tolerado.

Baluchistão, Balochistão ou Baluquistão?

É só escolher

      «Quetta, capital da província paquistanesa do Baluchistão, foi ontem palco de incidentes violentos, entre elementos tribais e a polícia» («Agitação tribal afecta província do Baluchistão», Luís Naves, Diário de Notícias, 30.08.2006, p. 9).
      «Um líder rebelde do Balochistão, morto pelas forças de segurança paquistanesas, foi ontem enterrado na sua terra natal, numa cerimónia apressada» («Funeral de líder rebelde no Balochistão sob vigilância», Público, 2.09.2006, p. 18).
      A imprensa brasileira parece preferir a forma Baluquistão, mais rara entre nós, que balançamos entre Baluchistão e Balochistão. Não parece, contudo, haver razões para preferir uma forma a outra.

Uso da maiúscula

O país em grande

      «A neve pode regressar ao Sul do País já amanhã», Diário de Notícias, 22.2.2006, última página.
      «Nos últimos anos, esta zona do País tem registado um aumento constante da taxa de natalidade e, para estes números, muito têm contribuído os bebés filhos de imigrantes», 24 Horas, 24.2.2006, p. 13.
      «A partir desta semana quatro pontos [sic] móveis de atendimento da Segurança Social vão percorrer todo o País», Focus, n.º 334, 8.3.2006, p. 8.
      «Durante umas horas, cerca de 300 cidadãos portadores de deficiência, de todas as idades e provenientes de 20 instituições de todo o País, tiveram a oportunidade de testar uma gama variada de jogos da Idade Média», Correio da Manhã, 12.3.2006, p. 21.
      «A ideia já está a ser “vendida” a várias autarquias do País (as interessadas já são quase 30) e resulta de uma parceria entre a Construtora de Crestins (especializada em obras na via pública) e a agência Imginew», Visão, n.º 678, 2 a 8 de Março de 2006.
      «Especialmente quando uma nova geração estiver madura para dirigir o País, já que não é com esta que nos safamos», Sábado, n.º 96, 2 a 8 de Março de 2006, p. 87.
      «Gulbenkian: um “país” dentro do País...», José Carlos Vasconcelos, JL, 5.07.2006, p. 3.

Lei de Tobler-Moussafia

A fala do povo

      Como se sabe, as formas clíticas, na variedade europeia do português moderno, não podem ocupar posição inicial absoluta de frase, conforme o enunciado da Lei Tobler-Moussafia. Excepções, na verdade, apenas as encontraremos em frases feitas, pertencentes ao falar do povo. Ainda assim, é óbvio que começaram por ter um sujeito expresso a anteceder o pronome átono. T’arrenego e Me melem se… são os exemplos mais conhecidos. Com o tempo, estas frases feitas tornaram-se exclamações.

Senão e se não

Distingamos

      O leitor Pedro Pereira pergunta-me se na frase que se segue, que leu no jornal Público, não se deveria ter usado senão em vez de se não. «Como por certo notará, os destaques da maioria, se não da totalidade, dos textos de opinião são excertos do texto ligeiramente reduzidos, já que o corpo de letra utilizado é maior.» A resposta é não. Ora, segundo as regras, estando o verbo subentendido, estamos perante uma conjunção condicional a introduzir uma oração na negativa. É como se se tivesse escrito: «Como por certo notará, os destaques da maioria, se não for da totalidade, dos textos de opinião […].»

Tradução

Vocações erradas

      Um dos meus temas preferidos, os meus leitores já sabem isso, é a leviandade com que se faz alguma tradução em Portugal. É preciso ver que alguns textos não têm, por opção meramente economicista, suponho, revisão. Este exemplo chegou-me recentemente às mãos. Se por um lado demonstra cabalmente que os dicionários que temos não são os melhores, também deixa ver claramente que há muitos curiosos a ganhar a vida nesta área. Vejamos o que diz o original: «En esta simpática escena, el perrito faldero parece ser el único que presta atención a los músicos, mientras dos abates y un monje juegan una partida de naipes ignorando por completo al conjunto.» O pouco discernimento do tradutor deu isto: «Nesta simpática cena, o cão efeminado parece ser o único que presta atenção aos músicos, enquanto os dois abades e um frade jogam às cartas ignorando completamente o conjunto.» Ora, um perro faldero é, na definição do Diccionario de la Real Academia Española, «el que por ser pequeño puede estar en las faldas de las mujeres».
[Perrito faldero: cão de regaço; totó, fraldiqueiro.]

Alcatraz e albatroz

Nem mais

      Agora que Zacarias Moussaoui está na prisão de Florence, Colorado, prisão de segurança máxima também conhecida por «Alcatraz das Rochosas», apetece-me falar das palavras «alcatraz» e «albatroz».
       Alguns preferem «albatroz» a «alcatraz», mas fazem mal: a primeira deriva da segunda. «Albatroz» é uma corruptela inglesa do vocábulo português «alcatraz», que vem do árabe al-ġaţţās (mergulhador). Isto faz-me lembrar uma pessoa que conheço. Por vezes, vem contar-me, com ar de sabichão e como novidade, factos que eu lhe contara. De início chamei-lhe a atenção para o lapso, mas depois passei a ignorar. Vendo bem, até tem uma vantagem: a de refrescar-me a memória.

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