Citação

As espécies de professores

«O professor medíocre, que diz, o bom professor, que explica, o professor superior, que demonstra, e o grande professor, que inspira.»

[The mediocre teacher tells. The good teacher explains. The superior teacher demonstrates. The great teacher inspires.]

William Arthur Ward (1921–1994)

(Apud «Medíocres, bons, superiores e grandes professores», Rui Baptista, Público, 5.08.2005, p. 8)

Livro de estilo da SIC

Pergunte com mais jeitinho…

      No Jornal da Noite da SIC, de ontem, dois repórteres, em duas reportagens diferentes, usaram de uma forma pouco delicada e clara — e pelos vistos em voga na estação — de fazer uma pergunta. Por três vezes, após o entrevistado fazer qualquer afirmação, o repórter inquiria: «Porque?...» O que pode revelar muito poder de síntese e acutilância entre amigos (e inimigos), mas pouco cuidado no âmbito profissional e da comunicação social.

Pronúncia de Gotemburgo

Irmãs desavindas

      Na Antena 1, já se ouve o topónimo Gotemburgo correctamente pronunciado: /Gutemburgo/. Na RTP1, pelo contrário, ainda se pronuncia com o aberto: /Gotemburgo/. A informação ainda não circula bem por aqueles corredores. Esperemos que as coisas melhorem.

Serra d’Ossa, outra vez

Gregos e alentejanos

      «O nome desta famosa serra — d’Ossa —, que segundo as crónicas provém dos Essénios ou Ósseos, remete para a Ursa cuja patronidade proto-histórica como eventual referência religiosa de contornos druídicos parece muito provável (e não só aqui). Do ponto de vista da geografia sagrada assinale-se, porém, a existência de duas montanhas com o mesmo nome (Ossa) na Grécia» (Lugares Mágicos de Portugal, volume VI, «Enigmas», Paulo Pereira, Círculo de Leitores, 2005, p. 177).

Artigo em nomes de localidades

Hum…

      José Rodrigues dos Santos, no Telejornal de ontem, a propósito do incêndio na serra d’Ossa, dizia «em Redondo». Ora, a verdade é que os naturais, os redondeiros, não dizem assim, usam o artigo: o Redondo, no Redondo, vou ao Redondo. As gramáticas, é verdade, não abordam esta questão, mas a língua não está apenas nos dicionários e nas gramáticas. Regra prática, há-a: se o nome da localidade é simultaneamente um substantivo comum, então o nome da localidade tem o género desse substantivo comum: a amadora/a Amadora; a amieira/a Amieira; a azenha/as Azenhas do Mar; a fajã/a Fajã (da Ovelha/de Baixo/de Cima); a figueira/a Figueira da Foz; a foz/a Foz do Arelho; a gafanha/a Gafanha; a glória/a Glória; a guarda/a Guarda; a igrejinha/a Igrejinha; a lixa/a Lixa; a marinha/a Marinha Grande; a meda/a Mêda; a moita/a Moita; a parede/a Parede; a pontinha/a Pontinha; a portela/a Portela; a régua/a Régua; a sertã/a Sertã; o alandroal/o Alandroal; o arco/os Arcos; o barreiro/o Barreiro; o cartaxo/o Cartaxo; o entroncamento/o Entroncamento; o fogueteiro/o Fogueteiro; o fundão/o Fundão; o pinhal/o Pinhal Novo; o pinhão/o Pinhão; o porto/o Porto; o pragal/o Pragal; o sabugal/o Sabugal; o tramagal/o Tramagal; etc. Se, pelo contrário, o nome da localidade não corresponder a um nome comum, então a tendência é para não atribuir género. Mas há excepções, ainda assim: a Amareleja, a Azaruja, a Benedita, a Covilhã (mas existe covilhão, uma espécie de urze), a Golegã, a Lourinhã, a Malcata, a Nazaré, a Trofa, o Crato, o Gerês, o Montijo (embora exista o substantivo comum montijo, ponho algumas reservas, pois é somente um regionalismo alentejano) e outros, que não correspondem a nomes comuns.
      E já que referi a serra d’Ossa, devo referir o lapso de Conceição Lino, no Jornal da Noite (SIC) de anteontem: depois de ter dito que esta serra se situava no Baixo Alentejo e de, minutos depois (e alguns telefonemas de protesto, aposto), ter corrigido a informação, disse «a serra da Ossa». Apesar de envolto em algumas brumas, «Ossa» não corresponde a nenhum nome comum, e toda a gente diz e escreve «serra d’Ossa». «Fogo na serra d’Ossa fez ontem cinco feridos», titulava o Diário de Notícias (11.08.2006, p. 19).

Crise humanitária?

Nem pensar

      Nem o Diário de Notícias escapa a este disparate: «Crise humanitária agrava-se no Líbano» (Susana Salvador, 11.08.2006, p. 15). Consultem num dicionário a entrada respectiva: «humanitário adj.s.m. (1858) 1 que ou aquele que se dedica a promover o bem-estar do homem e o avanço das reformas sociais; filantropo. ETIM fr. humanitaire (1835) ‘que diz respeito à humanidade, que vem em auxílio às necessidades dos homens’» (Dicionário Houaiss). É óbvio que o vocábulo apenas se pode utilizar em expressões que qualifiquem acções benéficas, positivas: ajuda humanitária, corredor humanitário, intervenção humanitária, missão humanitária das ONG, trabalhador humanitário, etc. De contrário, a semântica de cada um dos termos é de sinal oposto. Assim, pode soar mal (para ouvidos habituados ao erro), mas o correcto é «crise humana agrava-se no Líbano» ou tão-somente «crise agrava-se no Líbano».
 

Publicidade I

Latim macarrónico

      Os ebrifestivos anúncios da cerveja Abadia lá andam novamente a estropiar o latim e a nossa paciência por esse país fora. Sejamos claros: está tudo errado. O pior mesmo é que reincidem com um anúncio completamente errado e para o qual alguém — não eu, porque nessa altura este blogue ainda não existia ou eu não estava atento — sugeriu entretanto correcções, pelo que não se aplica o brocardo non bis in idem. De facto, escrever «sapore autenticum est» é um enorme dislate. «Sapor authenticus est» deveriam ter escrito. «Receitae artesanalis» é um disparate ainda maior, pois nem uma palavra nem outra existem em latim, e receitae está declinada num caso que não se adequa ao que se pretende. Mas isto eles também não sabem. A recepta latina tem outro significado. Talvez ex praecepto coquinario traditionis («a partir de receita culinária da tradição», à letra) expressasse esse conceito. Noutro anúncio, lê-se: «Sapore sublimis». Mas sapor não tem e final, como já vimos.
      A UNICER não pode ignorar que se fizeram críticas fundamentadas aos anúncios, mas nem assim exigiu que a agência emendasse. Passados uns meses, volta à carga com os mesmos anúncios e outros igualmente errados. O público-alvo (no qual não me incluo: não gosto de cerveja; prefiro um tinto alentejano, por exemplo) pode não se importar, mas não deixa de ser uma falta de respeito escrever estas trapalhadas e propiná-las ao público. Contratem quem saiba latim, não sejam gananciosos.

Publicidade II

Imagem: http://www.sogrape.pt/

Português macarrónico


      Nos mupis, lê-se no anúncio ao vinho Gazela: «Saboreia o lado da vida que mais gostas». O verbo gostar pede a preposição de: de que gostas. Quem gosta, gosta de alguma coisa, ou não? Mas afinal quem é que está a escrever nestas agências? Criancinhas de 7 anos ou licenciados em Marketing e cursos quejandos? Tenham dó. Contratem revisores, não sejam gananciosos.


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