Serra d’Ossa, outra vez

Gregos e alentejanos

      «O nome desta famosa serra — d’Ossa —, que segundo as crónicas provém dos Essénios ou Ósseos, remete para a Ursa cuja patronidade proto-histórica como eventual referência religiosa de contornos druídicos parece muito provável (e não só aqui). Do ponto de vista da geografia sagrada assinale-se, porém, a existência de duas montanhas com o mesmo nome (Ossa) na Grécia» (Lugares Mágicos de Portugal, volume VI, «Enigmas», Paulo Pereira, Círculo de Leitores, 2005, p. 177).

Artigo em nomes de localidades

Hum…

      José Rodrigues dos Santos, no Telejornal de ontem, a propósito do incêndio na serra d’Ossa, dizia «em Redondo». Ora, a verdade é que os naturais, os redondeiros, não dizem assim, usam o artigo: o Redondo, no Redondo, vou ao Redondo. As gramáticas, é verdade, não abordam esta questão, mas a língua não está apenas nos dicionários e nas gramáticas. Regra prática, há-a: se o nome da localidade é simultaneamente um substantivo comum, então o nome da localidade tem o género desse substantivo comum: a amadora/a Amadora; a amieira/a Amieira; a azenha/as Azenhas do Mar; a fajã/a Fajã (da Ovelha/de Baixo/de Cima); a figueira/a Figueira da Foz; a foz/a Foz do Arelho; a gafanha/a Gafanha; a glória/a Glória; a guarda/a Guarda; a igrejinha/a Igrejinha; a lixa/a Lixa; a marinha/a Marinha Grande; a meda/a Mêda; a moita/a Moita; a parede/a Parede; a pontinha/a Pontinha; a portela/a Portela; a régua/a Régua; a sertã/a Sertã; o alandroal/o Alandroal; o arco/os Arcos; o barreiro/o Barreiro; o cartaxo/o Cartaxo; o entroncamento/o Entroncamento; o fogueteiro/o Fogueteiro; o fundão/o Fundão; o pinhal/o Pinhal Novo; o pinhão/o Pinhão; o porto/o Porto; o pragal/o Pragal; o sabugal/o Sabugal; o tramagal/o Tramagal; etc. Se, pelo contrário, o nome da localidade não corresponder a um nome comum, então a tendência é para não atribuir género. Mas há excepções, ainda assim: a Amareleja, a Azaruja, a Benedita, a Covilhã (mas existe covilhão, uma espécie de urze), a Golegã, a Lourinhã, a Malcata, a Nazaré, a Trofa, o Crato, o Gerês, o Montijo (embora exista o substantivo comum montijo, ponho algumas reservas, pois é somente um regionalismo alentejano) e outros, que não correspondem a nomes comuns.
      E já que referi a serra d’Ossa, devo referir o lapso de Conceição Lino, no Jornal da Noite (SIC) de anteontem: depois de ter dito que esta serra se situava no Baixo Alentejo e de, minutos depois (e alguns telefonemas de protesto, aposto), ter corrigido a informação, disse «a serra da Ossa». Apesar de envolto em algumas brumas, «Ossa» não corresponde a nenhum nome comum, e toda a gente diz e escreve «serra d’Ossa». «Fogo na serra d’Ossa fez ontem cinco feridos», titulava o Diário de Notícias (11.08.2006, p. 19).

Crise humanitária?

Nem pensar

      Nem o Diário de Notícias escapa a este disparate: «Crise humanitária agrava-se no Líbano» (Susana Salvador, 11.08.2006, p. 15). Consultem num dicionário a entrada respectiva: «humanitário adj.s.m. (1858) 1 que ou aquele que se dedica a promover o bem-estar do homem e o avanço das reformas sociais; filantropo. ETIM fr. humanitaire (1835) ‘que diz respeito à humanidade, que vem em auxílio às necessidades dos homens’» (Dicionário Houaiss). É óbvio que o vocábulo apenas se pode utilizar em expressões que qualifiquem acções benéficas, positivas: ajuda humanitária, corredor humanitário, intervenção humanitária, missão humanitária das ONG, trabalhador humanitário, etc. De contrário, a semântica de cada um dos termos é de sinal oposto. Assim, pode soar mal (para ouvidos habituados ao erro), mas o correcto é «crise humana agrava-se no Líbano» ou tão-somente «crise agrava-se no Líbano».
 

Publicidade I

Latim macarrónico

      Os ebrifestivos anúncios da cerveja Abadia lá andam novamente a estropiar o latim e a nossa paciência por esse país fora. Sejamos claros: está tudo errado. O pior mesmo é que reincidem com um anúncio completamente errado e para o qual alguém — não eu, porque nessa altura este blogue ainda não existia ou eu não estava atento — sugeriu entretanto correcções, pelo que não se aplica o brocardo non bis in idem. De facto, escrever «sapore autenticum est» é um enorme dislate. «Sapor authenticus est» deveriam ter escrito. «Receitae artesanalis» é um disparate ainda maior, pois nem uma palavra nem outra existem em latim, e receitae está declinada num caso que não se adequa ao que se pretende. Mas isto eles também não sabem. A recepta latina tem outro significado. Talvez ex praecepto coquinario traditionis («a partir de receita culinária da tradição», à letra) expressasse esse conceito. Noutro anúncio, lê-se: «Sapore sublimis». Mas sapor não tem e final, como já vimos.
      A UNICER não pode ignorar que se fizeram críticas fundamentadas aos anúncios, mas nem assim exigiu que a agência emendasse. Passados uns meses, volta à carga com os mesmos anúncios e outros igualmente errados. O público-alvo (no qual não me incluo: não gosto de cerveja; prefiro um tinto alentejano, por exemplo) pode não se importar, mas não deixa de ser uma falta de respeito escrever estas trapalhadas e propiná-las ao público. Contratem quem saiba latim, não sejam gananciosos.

Publicidade II

Imagem: http://www.sogrape.pt/

Português macarrónico


      Nos mupis, lê-se no anúncio ao vinho Gazela: «Saboreia o lado da vida que mais gostas». O verbo gostar pede a preposição de: de que gostas. Quem gosta, gosta de alguma coisa, ou não? Mas afinal quem é que está a escrever nestas agências? Criancinhas de 7 anos ou licenciados em Marketing e cursos quejandos? Tenham dó. Contratem revisores, não sejam gananciosos.

Gramática e lógica

Imagem: http://www.loderama.com.ar/
A sério?

      A gramática estrutura, como se sabe, as frases, mas não se substitui a uma lógica externa. O Independente foi ouvir Josefina Castro, directora-adjunta da Escola de Criminologia da Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Depois de citar a directora-adjunta — «Não vamos formar polícias» —, escreve o jornalista João Francisco: «Combater os efeitos fantasiosos de séries televisivas como “CSI” ou outras é um dos propósitos daquela escola e da própria licenciatura» («Porto forma especialistas em Criminologia», O Independente, 4.08.2006, p. 12). Imagino a devastação moral provocada pela série CSI por esse país fora, o desperdício de fantasia. Pois eu vejo as coisas ao contrário: por causa de séries televisivas como CSI, da sua fantasia, se quiserem, os candidatos ultrapassaram em muito as vagas para este curso. Desmentir que na realidade o processo de investigação seja como se vê na série não deve erigir-se em missão da escola. Disparate. Aliás, a fantasia é mesmo a única coisa boa para quem daqui a quatro anos tiver a licenciatura em Criminologia e for trabalhar com crianças e jovens meigos como aqueles que assassinaram Gisberta.

Citação

Língua lúdica

      «Manuel Monteiro tem um partido pequenino, de peluche. Nem lá cabe quem o prefira de “pelúcia”, porque tal constituiria fraccionismo e o partido (ao qual a direita voyeuse ainda atribui 0,3%) não tem dimensão que comporte divergências» («Trufas e “Don Pérignon”», Nuno Brederode Santos, Diário de Notícias, 6.08.2006, p. 48).

Léxico: cantautor

As palavras dos outros

      De vez em quando, vão-se insinuando por entre as linhas umas palavrinhas que não são nossas. «Cantautor», que eu conheço há muitos anos, quando comecei a ouvir música espanhola de Joaquín Sabina e outros, é uma delas. Já a tinha lido no Público, recentemente. «Em Setembro há o regresso do cantautor da depressão esquecida numa rumba parola. JP Simões vem com menos veneno, uma lucidez rara e sambas mais pessoais que patriotas» (Público/Y, 26.05.2006, João Bonifácio, p. 39). E agora no Diário de Notícias: «Espectáculo inédito nas serenas noites da Vila Malaspina, entre colinas de recorte suave, foi o de cerca duma dúzia de carabinieri, dispostos aos pares, no exterior e no interior do pátio de acesso livre, antes e durante a actuação da banda israelita do famoso cantautor Hanan Yovel, que se acompanha à guitarra acústica, sendo também acompanhado pela voz da filha, Shira Yovel, e por outros três instrumentistas, na guitarra eléctrica, nas teclas e na percussão» («A guerra a ecoar entre músicas do mundo na Toscânia [sic]», Elisabete França, 6.08.2006, p. 38).
      Talvez nos faça falta, pois expressa um conceito complexo como nenhuma palavra portuguesa equivalente.

«Cantautor, ra. m. y f. Cantante, por lo común solista, que suele ser autor de sus propias composiciones, en las que prevalece sobre la música un mensaje de intención crítica o poética» (Diccionario de la Real Academia Española).

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