Gramática e lógica

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A sério?

      A gramática estrutura, como se sabe, as frases, mas não se substitui a uma lógica externa. O Independente foi ouvir Josefina Castro, directora-adjunta da Escola de Criminologia da Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Depois de citar a directora-adjunta — «Não vamos formar polícias» —, escreve o jornalista João Francisco: «Combater os efeitos fantasiosos de séries televisivas como “CSI” ou outras é um dos propósitos daquela escola e da própria licenciatura» («Porto forma especialistas em Criminologia», O Independente, 4.08.2006, p. 12). Imagino a devastação moral provocada pela série CSI por esse país fora, o desperdício de fantasia. Pois eu vejo as coisas ao contrário: por causa de séries televisivas como CSI, da sua fantasia, se quiserem, os candidatos ultrapassaram em muito as vagas para este curso. Desmentir que na realidade o processo de investigação seja como se vê na série não deve erigir-se em missão da escola. Disparate. Aliás, a fantasia é mesmo a única coisa boa para quem daqui a quatro anos tiver a licenciatura em Criminologia e for trabalhar com crianças e jovens meigos como aqueles que assassinaram Gisberta.

Citação

Língua lúdica

      «Manuel Monteiro tem um partido pequenino, de peluche. Nem lá cabe quem o prefira de “pelúcia”, porque tal constituiria fraccionismo e o partido (ao qual a direita voyeuse ainda atribui 0,3%) não tem dimensão que comporte divergências» («Trufas e “Don Pérignon”», Nuno Brederode Santos, Diário de Notícias, 6.08.2006, p. 48).

Léxico: cantautor

As palavras dos outros

      De vez em quando, vão-se insinuando por entre as linhas umas palavrinhas que não são nossas. «Cantautor», que eu conheço há muitos anos, quando comecei a ouvir música espanhola de Joaquín Sabina e outros, é uma delas. Já a tinha lido no Público, recentemente. «Em Setembro há o regresso do cantautor da depressão esquecida numa rumba parola. JP Simões vem com menos veneno, uma lucidez rara e sambas mais pessoais que patriotas» (Público/Y, 26.05.2006, João Bonifácio, p. 39). E agora no Diário de Notícias: «Espectáculo inédito nas serenas noites da Vila Malaspina, entre colinas de recorte suave, foi o de cerca duma dúzia de carabinieri, dispostos aos pares, no exterior e no interior do pátio de acesso livre, antes e durante a actuação da banda israelita do famoso cantautor Hanan Yovel, que se acompanha à guitarra acústica, sendo também acompanhado pela voz da filha, Shira Yovel, e por outros três instrumentistas, na guitarra eléctrica, nas teclas e na percussão» («A guerra a ecoar entre músicas do mundo na Toscânia [sic]», Elisabete França, 6.08.2006, p. 38).
      Talvez nos faça falta, pois expressa um conceito complexo como nenhuma palavra portuguesa equivalente.

«Cantautor, ra. m. y f. Cantante, por lo común solista, que suele ser autor de sus propias composiciones, en las que prevalece sobre la música un mensaje de intención crítica o poética» (Diccionario de la Real Academia Española).

Uso das aspas

Ser ou não ser

      «Na época trabalha por sua conta e risco, intermediando negócios e actuando no mercado de capitais, por vezes como testa-de-ferro de terceiros» («Jorge de Brito. O empresário que Marcelo apoiou», Cristina Ferreira, Público, 3.08.2006, p. 35). Afinal, Jorge de Brito foi mesmo testa-de-ferro ou não? Se foi, as aspas estão a mais; se não foi, estão as aspas e a palavra: a jornalista deveria então escolher o termo que julgava adequado. É pecha comum entre os jornalistas, esta de usar as aspas em situações que as não requerem.

Elemento ciber-

Língua prò galheiro

      Há já uns meses, alertei aqui para o facto de o nome de determinada coluna de um jornal ter hífen a ligar o elemento ciber e a palavra seguinte, que começava por vogal. Argumentei então que era incorrecto e aduzi o exemplo, abundantemente encontrado na imprensa e não só, do vocábulo «ciberespaço». Pouco depois — e não quero ver aqui uma relação de causa-efeito, pois sou modesto e ninguém me paga o que faço —, a coluna aparecia com o nome correcto. Ao exemplo de hoje aplica-se a mesma argumentação, pelo que vou poupar palavras.
      «A ciber-instalação que os Daft Punk levaram ao palco TMN representou o melhor e mais invulgar concerto desta edição do Festival Sudoeste», «Sudoeste dançou enquanto exclamava “Olhó robô!”», Nuno Galopim, Tiago Pereira e Davide Pinheiro, Diário de Notícias, 7.08.2006, p. 28.
      Já que estou com o lápis vermelho em riste, deixem-me dizer que aquele «olhó» está errado, pois há ali uma contracção: «olha o robô». Logo, «olhò».

Oralidade: elisões e confusões

Escreva isso, por favor

— Vai ali à Repartição de Finanças e pergunta p’la tu’ ti’ Lena. Ouve bem: só a ela é que deves entregar este sobrescrito. Percebeste?
Foi. Perguntou. Não entregou.
— Então, ela estava lá?
— Ninguém conhece lá nenhuma Tutilena.
— Imbecil lobotomizado!

Acepções

Isso mesmo e o contrário

      «Nerved on coffee», diz-se em inglês. «Enervado pelo café.» É interessante como o português tem palavras com determinado significado e, ao mesmo tempo, o oposto. Enervado é o que tem nervos e o que não tem (abatido/excitado). Arrendar tanto significa dar como tomar de arrendamento. Se eu escrever «a Margarida vai arrendar um apartamento na Graça», o meu interlocutor não saberá, se não houver um contexto mais lato, explícito ou implícito, se a Margarida vai ser inquilina ou se é a senhoria (o feudalismo a espreitar numa palavra). Nem eu vos direi, que sou discreto.

Léxico: ulva

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Serendipidade

      Não são só desgostos: ontem aprendi uma nova palavra. Ulva, conheciam? No templo de Éfeso, os capitéis, da ordem jónica, tinham uma faixa ornada com ulvas, elemento vegetalista. Este o contexto em que me surgiu o vocábulo. Mais interessante: Oliveira do Hospital chamou-se, antigamente, Ulvária, porque no local existia um terreno alagadiço em que abundavam as ulvas, plantas que se dão bem nestes ambientes. De Ulvária passou, ao que parece, para Ulveira e, por deturpação, para Oliveira. Do Hospital, está mesmo a ver-se, por causa de uma Comenda da Ordem dos Hospitalários de S. João de Jerusalém, também conhecida por Ordem de Malta. Em 1120, a rainha D. Teresa fez doação desta vila aos cavaleiros da referida ordem.

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