Tradução: «invertir»

Até um catarríneo sem cauda

      Um dos erros mais confrangedores nas traduções de espanhol para português é o de ignorar — como se faltasse contexto — que o verbo «invertir» e palavras da mesma família também significam «investir». Vejamos dois exemplos do mesmo tradutor, na mesma obra mas num lapso temporal alargado. «Un cuadro de Van Gogh es ahora sinónimo de inversión.» Que traduziu assim: «Um quadro de Van Gogh é agora sinónimo de inversão.» Depois de ter aprendido, com a revisão, que tinha feito um trabalho completamente inepto, surgiu-lhe, por infausto acaso, outra frase com o mesmo verbo: «El idealismo de Hegel fue invertido por la dialéctica materialista de Feuerbach y el materialismo histórico de Marx y Engels lo transformó en el programa de acción del socialismo revolucionario y del movimiento obrero a partir de la I Internacional.» Ah, agora o tradutor já não iria ser expungido pelo ominoso deleatur do revisor! E vá de traduzir: «O idealista Hegel foi investido pela dialéctica materialista de Feuerbach e o materialismo histórico de Marx e Engels transformou-o no programa de acção do socialismo revolucionário e do movimento operário a partir da I Internacional.»

Invertir (Del lat. invertĕre). 1. tr. Cambiar, sustituyéndolos por sus contrarios, la posición, el orden o el sentido de las cosas. U. t. en sent. fig. Invertir una tendencia. 2. tr. Emplear, gastar, colocar un caudal. 3. tr. Emplear u ocupar el tiempo. 4. tr. Mat. En una razón, intercambiar numerador y denominador.

Divagações

Quando souberem, avisem-me

      «DIAP tem inquérito-crime sobre o caso Infante Santo», Carlos Rodrigues Lima e Filipe Morais, Diário de Notícias, 27.07.2006, p. 26.
      «Sob [sic] os dois autarcas, que asseguram a gestão do município alentejano entre 2001 e 2004, recaem indícios de crimes de peculato, peculato de uso e abuso de poder. O relatório da auditoria da IGF, que fora pedida [sic] em Janeiro de 2005 pelo actual presidente da câmara, Pedro do Carmo, foi já remetido ao Ministério Público do Tribunal de Ourique, para a abertura de inquérito crime» («Inspecção de Finanças diz que houve crime e desvio de fundos em Ourique», Paula Sanchez, Diário de Notícias (edição online), 17.07.2006).
      «Tribunais a meio-gás com 40% dos juízes de férias», Inês David Bastos, Diário de Notícias, 27.07.2006, p. 2.
      «Melanie C e James Blunt a meio gás», Paula Martinheira, Diário de Notícias (edição online), 19.06.2006.

Rossio ao sul do Tejo

Desnorte

      «Nascido a 1 de Março de 1915 em Rossio ao Sul do Tejo (Abrantes), António Rosa Casaco ingressou na Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE) em 1937, com apenas 21 anos, como agente praticante» («Rosa Casaco secreto até na morte», Expresso, 22.07.2006, p. 28). As palavras que ligam compostos toponímicos grafam-se com minúscula se forem locuções com palavras invariáveis: Viana a par de Alvito e Rossio ao sul do Tejo, por exemplo. Castro Pinto, no seu Novo Prontuário Ortográfico, também regista «Rossio ao Sul do Tejo». Não regista, contudo, o topónimo Viana a par de Alvito, o que não lhe deu oportunidade de pôr em paralelo ambos os topónimos e concluir da necessidade de, em ambos os casos, as locuções serem grafadas em minúscula.

Acertos e desacertos

Está mal

      «A colónia de monachus monachus, nome científico destes animais simpáticos e brincalhões, ascende neste momento na Madeira a 30 exemplares e tem registado nos últimos cinco anos um crescimento constante», «Lobos-marinhos da Madeira crescem e também aparecem», Ana Basílio, Diário de Notícias, 26.07.2006, p. 21.

      «O índice de raios ultravioleta (UV) para as restantes regiões do país vai estar “muito alto”, com grau 10 em quase todo o país», «Amanhã há níveis extremos de radiação ultravioleta», Público, 15.07.2006, p. 28.


Está bem

      «Quase ao pôr do Sol de 21 de Novembro, o tenente Robert Maynard, comandando duas chalupas e 60 homens, encontrou Teach ancorado em Ocracoke», «O mito do Barba-Negra», Joel K. Bourne, Jr., National Geographic, Julho de 2006, p. 80.

      «Há 50 anos, a crise do Suez marcou o fim da era dos impérios e a entrada do Médio Oriente na lógica de equilíbrio de poderes da Guerra Fria», «Crise do Suez marca fim da era dos impérios», Luís Naves, Diário de Notícias, 26.07.2006, p. 12.

Jornais. Tradução

Don’t count on it, Público

      «O Líbano reclama o território, mas Israel argumenta que é com a Síria que as Shebaa Farms devem ser negociadas», «O Partido de Deus e o Estado hebraico», Público, 13.07.2006, p. 15.

      «Quintas de Shebaa. Ocupada por Israel em 1967, esta região agrícola situada entre a Síria e o Líbano tem sido motivo de polémica. Apesar da retirada israelita do Sul do Líbano, em 2000, o Estado hebraico recusou entregar as Quintas de Shebaa ao Líbano, que as reclamam [sic] como suas, afirmando tratar-se de território sírio. Damasco, por seu lado, afirmou que a região pertence ao Líbano. O impasse mantém-se», «Líbano de A a Z. Dos fenícios à Revolução do Cedro», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 19.07.2006, p. 4.

Divisão de palavras

Ir-ra!

      Em parangonas, a perfumada e policroma revista Lux Woman de Julho, num texto (pág. 116) da editora de Beleza Anett Bohme assistida por Inês Correia, titulava: «I-rre-sis-tí-veis!» A divisão de palavras faz-se, como se sabe, fundamentalmente por soletração — mas há algumas regras. Para o caso, o que interessa é que as consoantes dobradas — cc, mm, nn, rr, ss — se separam obrigatoriamente. Para quem não tem tempo nem paciência para interpretar regras, aconselho o Míni Aurélio, que na respectiva entrada regista: «ir.re.sis.tí.vel adj2g. A que não se pode resistir [Pl.: -veis]». A minha edição, a 6.ª, revista e actualizada, com 895 páginas muito manuseáveis, custou-me recentemente, salvo erro, 8 euros na FNAC. A revista Lux Woman custa 3 euros...

Elemento de composição «recém»

Só uma coisinha

      Eu avisei: se se justificasse, voltaria durante as férias. Ora aqui está um bom motivo. «Desde o nascimento tem sido impossível chegar à fala com os recém-papás [,] mas os amigos garantem ao 24horas que correu tudo bem e que a família já está toda reunida em casa, a curtir o menino» («“Já nasceu. O puto é giro”», Vânia Custódio, 24 Horas, 24.07.2006, p. 8). O registo é informalíssimo, de mesa de café, pouco adequado, parece-me, a uma notícia, mas não tenho tempo para adentrar mais nessas apreciações. O que me interessa, já adivinharam, é aquele «recém-papás». Recém é um elemento de composição que só se usa, por mais informal que seja a linguagem, com adjectivo: recém-casado, recém-nascido, recém-licenciado, recém-nomeado, etc. Com um substantivo, jamais. A jornalista deveria ter usado o adjectivo ou o advérbio da mesma família: recente, recentemente.

Pronúncia: Sever

Imagem: http://www.rtp.pt/
Silabadas

      O programa Passeio Público, da Antena 1, foi hoje transmitido a partir da vila alentejana de Marvão. A jornalista Paula Castelar, ao entrevistar uma natural da vila, pronunciou Sever com o segundo e fechado: /Sevêr/. Subtilmente, a entrevistada corrigiu, afirmando que parecia que Paula Castelar tinha adivinhado, pois uma lenda sobre a origem do nome «Sever» refere que um cavaleiro teria dito a umas senhoras que precisavam de se refrescar e compor que perto havia um rio em que «era bom de se ver».
      Parece haver uma grande tendência para pronunciar mal topónimos, como já aqui tenho referido: rio Sabor, Estremoz, Sátão… O que denota não apenas falta de atenção — basta estar atento à forma como os naturais pronunciam —, mas também de cultura.

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