Alcorão, alcorânico

Coerência

      Se o Diário de Notícias escreve, e bem, «Alcorão», tem de escrever, em coerência, «alcorânico». «Estas afirmações confirmam a suspeita da polícia britânica, que logo após identificar os autores dos atentados percebeu que dois deles tinham passado pelo Paquistão e contactado com madrassas* (escolas corânicas)», «Rede da al-Qaeda treinou dois dos terroristas de Londres», Luís Naves, 9.07.2006, p. 13.

* Há quem defenda a grafia «madraça», mas a verdade é que apenas vejo nos dicionários que tenho, e são alguns, «madraçal». Do árabe مدرسة. O plural de madrassa é madaris.

Léxico: «asnático»

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Salvo o devido respeito

      Um dia, elogiei aqui os juízes por darem algum uso a palavras tão incomuns e poéticas como «oblívio». Não era, juro, ironia, como também agora falo a sério ao elogiar o juiz Joel Timóteo, do tribunal de Santa Maria da Feira, por arejar um vocábulo tão solidamente insultuoso como «asnático». Foi desta forma, recordo, que este magistrado adjectivou um argumento apresentado pelo advogado João Castro Baptista ao requerer a abertura de um inquérito («No que se refere à invocada falta de aplicação analógica do artigo 796.º, n.º 3 do CPC, salvo o devido respeito, tal argumento é asnático […]».) O advogado sentiu-se, como era de esperar, ofendido e fez queixa ao Conselho Superior da Magistratura (CSM), que arquivou o caso porque o juiz pediu entretanto desculpas. Por sua vez, o presidente do Conselho Distrital da Ordem dos Advogados questionou-se se agora também se pode chamar asnáticos aos argumentos do CSM.

Asnático, adj. Próprio de asno ou burro; asnal.│Estúpido, tolo, idiota.


Rotinados?

Disse «arroteados»?

      «Os magistrados portugueses ainda estão pouco rotinados com a Internet, numa altura em que se começa a discutir a desmaterialização dos processos e o seu suporte exclusivamente digital» («Um sexto dos magistrados nunca enviou e-mails», Público, 13.07.2006, p. 11).
      É bem verdade que os jornais também são laboratórios de experimentação linguística, mas tem de se ter sensatez e perceber se é mesmo necessário criar uma palavra. Não vou dizer que nunca antes tinha ouvido — mas nunca lido — a palavra «rotinado». O Dicionário Houaiss, por exemplo, regista o verbo «rotinizar», o que daria «rotinizado», tão desnecessário como «rotinado». Em relação à oralidade, mais espontânea, livre, improvisada, temos de ser mais tolerantes, tanto mais que quase nada do que se diz passa à escrita. O pior mesmo é quando passa: «No lançamento oficial do DVD, realizado recentemente em Lisboa, a actriz protagonista e que se tornou célebre com este filme [O Crime do Padre Amaro], Soraia Chaves, disse aos jornalistas que esta edição em DVD “é um colmatar de um ano de trabalho dedicado a este projecto”, desde o início das filmagens, passando pelo lançamento do filme e pela sua exibição em formato de série na televisão» («Soraia Chaves apresentou o DVD de “O Crime do Padre Amaro”, o maior êxito do cinema português», Nuno Cunha, Dica da Semana, 20.07.2006, p. 29). Quanta fidelidade do jornalista...

Aquando de e quando de

Olhe que não

      «Apesar de quando do lançamento de “La possibilité d’une île” (“A Possibilidade de Uma Ilha”) em França, em Setembro de 2005, termos falado aqui do blogue de Michel Houellebecq e da agitação que o lançamento do seu romance estava a provocar na “rentrée” francesa, vale a pena voltar a ir ver, agora, os “sites” do escritor» («Socorro, ele está de regresso!», Isabel Coutinho, «Ciberescritas», Público/Mil Folhas, 15.07.2006, p. 5).
      Apesar de alguns estudiosos da língua afirmarem que a conjunção «quando» não existe seguida da preposição «de», o Dicionário Houaiss e mesmo o Dicionário de Academia registam o contrário. E, o que é mais importante, alguns estudiosos cujas opiniões sigo quase incondicionalmente — como José Neves Henriques — também o defendem. Nesta frase de Isabel Coutinho, o que nos fere um pouco o ouvido é aquela sucessão: «apesar de» + «quando do». Pelo menos em termos eufónicos, a frase ganharia muito se tivesse sido redigida, por exemplo, como segue: «Apesar de, por ocasião do lançamento de […].»

Mandado, Antilíbano, pezinho, «laser»


Última colheita

1
«Na sequência da publicação da peça jornalística, foram revalidados os mandatos de captura contra Casaco e o respectivo procedimento criminal considerado, pelo juiz Cândido Gouveia, “imprescritível”» («Chefe da brigada da PIDE que matou Delgado morre aos 91 anos», FC, Diário de Notícias, 20.07.2006, p. 40). A confusão entre «mandado» e «mandato» continua, pois, e em vários jornais. Não direi todos, mas os melhores dicionários registam para o vocábulo «mandado» o significado de ordem, determinação superior, e por isso «mandado judicial», «mandado de captura», «mandado de prisão», etc. Para «mandato», e o étimo é o mesmo, sendo por isso palavras divergentes, os dicionários registam o significado de autorização conferida a alguém, delegação, procuração, e por isso «mandato eleitoral» «mandato parlamentar», etc.

2

«Com 120 quilómetros de comprimento e dez de largura, fica situado [vale de Bekaa, que representa 40% do solo arável do Líbano] entre os montes Líbano e Anti-Líbano» («Líbano de A a Z», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 19.07.2006, p. 4). O prefixo anti-, já aqui o escrevi mais do que uma vez, é seguido de hífen quando o elemento imediato tem vida própria e começa por h, i, r ou s. Contudo, a regra é omissa em relação a nomes próprios, quer antropónimos, quer topónimos, pelo que teremos de recorrer à analogia. Ora, se se escreve «Tauro» e «Antitauro», outra cadeia montanhosa, decerto que convém escrever «Líbano» e «Antilíbano».

3

«Estudo analisa reacção de recém-nascidos ao teste do pézinho» («Amamentação ajuda bebés a suportar a dor», IGS, Público, 20.07.2006, p. 28). Como «pézinho» surge três vezes no artigo, é de supor que não se trata de uma gralha. Os diminutivos dos substantivos acentuados perdem, isto já todos devíamos saber, o respectivo acento gráfico na formação do diminutivo. Assim, temos: avó faz avozinha; boné faz bonezinho; café faz cafezinho; chaminé faz chaminezinha; chapéu faz chapeuzinho; jacaré faz jacarezinho; pé faz pezinho, etc. Esta regra foi estabelecida pelo Decreto n.º 32/73, de 6 de Fevereiro de 1973, que estipula: «São eliminados da ortografia oficial portuguesa os acentos circunflexos e os acentos graves com que se assinalam as sílabas subtónicas dos vocábulos derivados com o sufixo mente e com os sufixos iniciados por z»: sozinho, amavelmente, cafezinho, unicamente.

4

«As frases são inscritas na casca do ovo recorrendo a um complexo sistema de raio lazer, que deixa uma marca ultrafina que não pode ser apagada» («CBS anuncia nova temporada televisiva nas cascas dos ovos», Rita Siza, 20.07.2006, Público, p. 47). «Lazer» aparece duas vezes no artigo, fazendo supor que não se trata de uma mera gralha. Raio laser. O itálico é aqui obrigatório. Se se tratar de uma tentativa, ainda que desastrada, de aportuguesamento, estamos mal, pois já temos a proposta absurda do «icebergue». Raios «lêiser»? «Láser»?

Publicidade, uso do latim

Imagem: http://www.aguadovimeiro.pt/
Sanum per aqua?

      Lembram-se da campanha publicitária da cerveja Abadia — pretensamente em latim? Lembram-se então do «sapore autenticum est»? É bom que não se lembrem. Desta vez, os publicitários — apesar de a frase circular por aí correcta — voltaram a usar latim macarrónico, sem necessidade. Sendo, como consabidamente é, uma área que movimenta milhões, não sei porque não contratam especialistas em latim. Pelo menos de latim, já que de português estamos conversados.
      A preposição latina per é construída unicamente com acusativo (accusatiuus casus). Se pretendem argumentar que «aqua» é um ablativo de meio, vai ser preciso mais do que uma garrafa de água para se obliterar da minha memória a preposição per. Logo, escrevam «sanum per aquam», «a saúde pela (através da, por meio da, por causa da) água» e esqueçam o que viram em certos sites e nas campanhas de estâncias termais pela Europa fora, sim?
      Como complemento, deixo aqui algumas preposições latinas e os casos que regem (mas não deixem de contratar o especialista).
      Acusativo: ad, adversus, ante, apud, circa, circum, cis, citra, contra, contra, erga, extra, infra, inter, intra, iuxta, ob, penes, per, post, praeter, prope, propter, secundum, supra, trans, ultra, versus. Ablativo: a (ab, abs), coram, cum, de, e (ex), pro, sine, tenus. Acusativo ou ablativo: in, sub, super.

Brandeburgo ou Brandenburgo?

Imagem: http://www.aip.de/
Decidam-se

      «Centenas de milhares de pessoas concentraram-se no centro da cidade de Berlim, na Rua 17 de Junho, em frente da Porta de Brandeburgo, até a festa acabar» (Diário de Notícias, 16.07.2006, p. 40). A verdade é que na imprensa portuguesa ora se lê «Brandeburgo» ora «Brandenburgo». «A Porta de Brandenburgo é um verdadeiro símbolo da cidade e seu cartão de visita. Construída entre 1788 e 1791, é a única porta que resta de entrada na cidade» («Berlim», Ana Luzia Raposo, Expresso/Única, 27.05.2006, p. 108). Em alemão, de facto, é «Brandenburger Tor». Logo, talvez devêssemos todos seguir o exemplo do Expresso. Todavia, pensando bem, tratando-se de aportuguesamento, não podemos ficar a meio: antes de uma bilabial, como b, temos de ter uma nasal como m e não uma dental, n. Escreva-se, então, Brandemburgo ou Brandenburg.

Calendário islâmico. Hégira

Nem só o Ramadão

      Caro L. Pinto, para além do Ramadão (رَمَضَانْ), só conheço mais um mês do calendário islâmico aportuguesado: Moarrão (محرم). É um mês sagrado, em que é defeso usar armas e guerrear (ignoro o direito islâmico, mas talvez haja aqui alguma distinção no caso de se tratar de uma guerra ofensiva, harb, ou de uma guerra defensiva, jihad). O calendário islâmico é lunar, com meses de 29 ou 30 dias. O início é contado, como saberá, a partir da fuga (ou migração, mais correctamente) de Maomé de Meca para Medina, a chamada Hégira (Hijra), ocorrida a 16 de Julho de 622 da nossa era. O ano 1 a. H. (Anno Hegirae) corresponde, portanto, a 622 d. C. Aqui ficam os nomes de todos os meses.

  1. Moarrão
  2. Sáfar
  3. Rabiá-al-aual
  4. Rabiá-a-Thâni
  5. Jumada Al-Ula
  6. Jumada A-Thânia
  7. Rajáb
  8. Xaaban
  9. Ramadão
  10. Xauál
  11. Dhu al-Qaáda
  12. Dhu Al-Hijja

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