Brandeburgo ou Brandenburgo?

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Decidam-se

      «Centenas de milhares de pessoas concentraram-se no centro da cidade de Berlim, na Rua 17 de Junho, em frente da Porta de Brandeburgo, até a festa acabar» (Diário de Notícias, 16.07.2006, p. 40). A verdade é que na imprensa portuguesa ora se lê «Brandeburgo» ora «Brandenburgo». «A Porta de Brandenburgo é um verdadeiro símbolo da cidade e seu cartão de visita. Construída entre 1788 e 1791, é a única porta que resta de entrada na cidade» («Berlim», Ana Luzia Raposo, Expresso/Única, 27.05.2006, p. 108). Em alemão, de facto, é «Brandenburger Tor». Logo, talvez devêssemos todos seguir o exemplo do Expresso. Todavia, pensando bem, tratando-se de aportuguesamento, não podemos ficar a meio: antes de uma bilabial, como b, temos de ter uma nasal como m e não uma dental, n. Escreva-se, então, Brandemburgo ou Brandenburg.

Calendário islâmico. Hégira

Nem só o Ramadão

      Caro L. Pinto, para além do Ramadão (رَمَضَانْ), só conheço mais um mês do calendário islâmico aportuguesado: Moarrão (محرم). É um mês sagrado, em que é defeso usar armas e guerrear (ignoro o direito islâmico, mas talvez haja aqui alguma distinção no caso de se tratar de uma guerra ofensiva, harb, ou de uma guerra defensiva, jihad). O calendário islâmico é lunar, com meses de 29 ou 30 dias. O início é contado, como saberá, a partir da fuga (ou migração, mais correctamente) de Maomé de Meca para Medina, a chamada Hégira (Hijra), ocorrida a 16 de Julho de 622 da nossa era. O ano 1 a. H. (Anno Hegirae) corresponde, portanto, a 622 d. C. Aqui ficam os nomes de todos os meses.

  1. Moarrão
  2. Sáfar
  3. Rabiá-al-aual
  4. Rabiá-a-Thâni
  5. Jumada Al-Ula
  6. Jumada A-Thânia
  7. Rajáb
  8. Xaaban
  9. Ramadão
  10. Xauál
  11. Dhu al-Qaáda
  12. Dhu Al-Hijja

Particípio futuro latino

Vestígios

      É sabido que os gladiadores dirigiam um cumprimento ritual ao imperador antes de iniciar os seus combates, na Roma antiga. Diziam: Ave, Caesar; morituri te salutant! Ou seja: «Salve, César, os que vão morrer te saúdam!» Aquele morituri é um particípio futuro latino. De que temos — é este o objectivo deste texto — vestígios em português. A começar, justamente, por morituro (que há-de morrer). Mas também perituro (que há-de perecer ou acabar), nascituro (que há-de nascer) e vincituro (que há-de vencer).
      Até ao fim da República, o particípio futuro em -turus (-surus) era quase exclusivamente usado em latim com o verbo sum para formar locuções perifrásticas. Quid futurum est? (O que vai acontecer?), perguntou Cícero nas Ad Familiares Epistulae.
      O vocábulo «particípio», convém saber, vem do latim participium (tradução do grego μετοχή), pois que é uma forma que participa do nome e do verbo, isto é, que tem uma natureza dupla.

Tratar-se, de novo

Um dia todos saberão

      No noticiário das 19.30, na Antena 1, o jornalista Sérgio Infante disse, referindo-se às explosões de ontem em Beirute: «tratam-se de ataques israelitas». É um dos erros mais comuns e persistentes. Veja-se outro exemplo, neste caso da imprensa escrita: «A Anacom decidiu que os serviços de voz através da Internet (VoIP) terão, no caso de se tratarem de computadores portáteis, uma nova numeração, começada por “30”, e que os fixos poderão utilizar a numeração geográfica, ou seja, a utilizada pelos telefones tradicionais» («PC com números telefónicos», Raquel Oliveira, Correio da Manhã, 7.3.2006, p. 17).
      Já aqui o tinha referido uma vez, mas insisto: conjugado pronominalmente e com o sentido de «dizer respeito a», o verbo tratar emprega-se apenas na 3.ª pessoa do singular — é um verbo defectivo e impessoal. O sujeito da frase é indeterminado, logo, não se faz a concordância com o verbo.

Etimologia: barricar

Bum!

      «Um homem barricou-se, na sexta-feira à noite, em casa da sogra, na Quinta da Cabrinha, em Lisboa» («Homem barricou-se em casa da sogra», Diário de Notícias, 9.07.2006, p. 21). O verbo barricar é considerado galicismo pelos puristas, lembra-nos o Dicionário Houaiss, sendo preferível usar entrincheirar-se, fortificar provisoriamente, trincheirar-se. O que me interessa agora, porém, é a etimologia. Recorro à obra Presença Militar na Língua Portuguesa, da autoria do coronel Aleu de Oliveira (edição do Ministério da Defesa Nacional, 1993), para a dar a conhecer: «Barricada. Nome dado a algumas rebeliões parisienses. Em 1558, os partidários do duque de Guise assenhoreiam-se de Paris. O rei, Henrique III *, tenta recuperar a capital [,] mas as tropas reais vêem-se impossibilitadas de avançar através das ruas, por terem sido atravessadas cadeias de ferro e interrompidas por montes de barricas cheias de terra, donde o nome de “barricadas”. Hoje em dia, quando há um corte de uma rua numa qualquer perturbação da ordem pública, utilizando seja que material for, por exemplo, pedras da calçada, diz-se que a rua está “barricada”. Também se costuma dizer “estar num dos lados da barricada”, significando com tal expressão que “se pertence a um dado grupo”, contrário a um outro que se situará no outro lado da aludida “barricada”» (p. 35).

* Na verdade, nesta data, como me chamou a atenção o leitor Hugo Santos, era Henrique II o rei de França, pois que Henrique III (1551-1589), seu filho e o último rei da dinastia de Valois, somente subiu ao trono em 1574.

Pontuação e próclise pronominal

© Helder Guégués
Bum!

      Não muito longe da minha casa, desmoronou-se um muro, tendo esmagado dois automóveis. Uma jornalista do Diário de Notícias esteve no local e conta-nos: «Vítor Vieira, da Protecção Civil de Lisboa, contudo, esclarece que só após a avaliação das circunstâncias em que ocorreu a derrocada, poder-se-á determinar as suas causas» («Derrocada de muro esmaga dois carros em Benfica», Kátia Catulo, 15.07-2006, p. 32). Temos então dois desastres: o aluimento do muro e o da gramática. Vejamos.
      A vírgula após o vocábulo «derrocada» é incorrecta, pois não se segue — tento, em vão, reconstituir o que terá pensado a jornalista — uma oração condicional ou concessiva, por exemplo, que, essas sim, se separam da principal por vírgula. Por outro lado, tendencialmente, a presença do advérbio «só» leva a próclise pronominal: «Vítor Vieira, da Protecção Civil de Lisboa, contudo, esclarece que só após a avaliação das circunstâncias em que ocorreu a derrocada se poderá determinar as suas causas.»

Topónimo: «Casamansa»

África, de novo

      Lia-se no último Jornal de Letras, Artes e Ideias: «Paralelamente, o governo chinês contribuiu ainda com 350 mil dólares (270 mil euros) de ajuda humanitária, destinada aos deslocados no norte [sic] da Guiné-Bissau, na sequência do conflito que opôs o exército guineense a um movimento independentista de Casamança» («Bissau acolhe Cimeira da CPLP», JL, 5.07.2006, p. 3). Ora, são muitos os dicionários que recomendam e registam a forma «Casamansa», a começar pelo Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves. A forma «Casamança» deve ter-nos vindo por influência francesa, língua em que se escreve «Casamance».
      O Diário de Notícias, por exemplo, grafa correctamente a palavra: «Aquele local — próximo da vila de São Domingos, no Noroeste da Guiné-Bissau e junto à fronteira com o Senegal — está cercado há vários dias pelas forças militares de Bissau» («Bombas contra os rebeldes de Casamansa», Manuel Carlos Freire, 14.4.2006, p. 14).

Particípio de intervir: intervindo

Não, senhora ministra!

      Chegou-me às mãos, e mais uma vez é de uma tradução que se trata, a seguinte frase: «No Salão de 1847 apresentou o seu auto-retrato intitulado L’homme à la pipe, que foi rejeitado; depois viajou pela Holanda e, embora tenha intervido na Revolução de 1848, absteve-se de participar nos episódios sangrentos ocorridos durante o mês de Junho daquele ano.» É grave, nada de complacências, que alguém que ganha a vida a escrever o faça assim. Contudo, ainda no dia 23 de Junho, no Telejornal (RTP1), dizem-me, que eu não vi, a ministra da Cultura afirmou que «não era verdade que o Ministério não tenha intervido».
      O verbo intervir conjuga-se exactamente como o verbo vir (e, que eu saiba, ninguém diz, por exemplo, «embora tenha aqui vido em paz, tenho armas que usarei quando for necessário»), com a particularidade de se grafar com acento agudo na segunda e terceira pessoas do presente do indicativo (intervéns, intervém). Logo, o particípio deste verbo segue o paradigma de vir/vindo: intervindo.

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