Particípio futuro latino

Vestígios

      É sabido que os gladiadores dirigiam um cumprimento ritual ao imperador antes de iniciar os seus combates, na Roma antiga. Diziam: Ave, Caesar; morituri te salutant! Ou seja: «Salve, César, os que vão morrer te saúdam!» Aquele morituri é um particípio futuro latino. De que temos — é este o objectivo deste texto — vestígios em português. A começar, justamente, por morituro (que há-de morrer). Mas também perituro (que há-de perecer ou acabar), nascituro (que há-de nascer) e vincituro (que há-de vencer).
      Até ao fim da República, o particípio futuro em -turus (-surus) era quase exclusivamente usado em latim com o verbo sum para formar locuções perifrásticas. Quid futurum est? (O que vai acontecer?), perguntou Cícero nas Ad Familiares Epistulae.
      O vocábulo «particípio», convém saber, vem do latim participium (tradução do grego μετοχή), pois que é uma forma que participa do nome e do verbo, isto é, que tem uma natureza dupla.

Tratar-se, de novo

Um dia todos saberão

      No noticiário das 19.30, na Antena 1, o jornalista Sérgio Infante disse, referindo-se às explosões de ontem em Beirute: «tratam-se de ataques israelitas». É um dos erros mais comuns e persistentes. Veja-se outro exemplo, neste caso da imprensa escrita: «A Anacom decidiu que os serviços de voz através da Internet (VoIP) terão, no caso de se tratarem de computadores portáteis, uma nova numeração, começada por “30”, e que os fixos poderão utilizar a numeração geográfica, ou seja, a utilizada pelos telefones tradicionais» («PC com números telefónicos», Raquel Oliveira, Correio da Manhã, 7.3.2006, p. 17).
      Já aqui o tinha referido uma vez, mas insisto: conjugado pronominalmente e com o sentido de «dizer respeito a», o verbo tratar emprega-se apenas na 3.ª pessoa do singular — é um verbo defectivo e impessoal. O sujeito da frase é indeterminado, logo, não se faz a concordância com o verbo.

Etimologia: barricar

Bum!

      «Um homem barricou-se, na sexta-feira à noite, em casa da sogra, na Quinta da Cabrinha, em Lisboa» («Homem barricou-se em casa da sogra», Diário de Notícias, 9.07.2006, p. 21). O verbo barricar é considerado galicismo pelos puristas, lembra-nos o Dicionário Houaiss, sendo preferível usar entrincheirar-se, fortificar provisoriamente, trincheirar-se. O que me interessa agora, porém, é a etimologia. Recorro à obra Presença Militar na Língua Portuguesa, da autoria do coronel Aleu de Oliveira (edição do Ministério da Defesa Nacional, 1993), para a dar a conhecer: «Barricada. Nome dado a algumas rebeliões parisienses. Em 1558, os partidários do duque de Guise assenhoreiam-se de Paris. O rei, Henrique III *, tenta recuperar a capital [,] mas as tropas reais vêem-se impossibilitadas de avançar através das ruas, por terem sido atravessadas cadeias de ferro e interrompidas por montes de barricas cheias de terra, donde o nome de “barricadas”. Hoje em dia, quando há um corte de uma rua numa qualquer perturbação da ordem pública, utilizando seja que material for, por exemplo, pedras da calçada, diz-se que a rua está “barricada”. Também se costuma dizer “estar num dos lados da barricada”, significando com tal expressão que “se pertence a um dado grupo”, contrário a um outro que se situará no outro lado da aludida “barricada”» (p. 35).

* Na verdade, nesta data, como me chamou a atenção o leitor Hugo Santos, era Henrique II o rei de França, pois que Henrique III (1551-1589), seu filho e o último rei da dinastia de Valois, somente subiu ao trono em 1574.

Pontuação e próclise pronominal

© Helder Guégués
Bum!

      Não muito longe da minha casa, desmoronou-se um muro, tendo esmagado dois automóveis. Uma jornalista do Diário de Notícias esteve no local e conta-nos: «Vítor Vieira, da Protecção Civil de Lisboa, contudo, esclarece que só após a avaliação das circunstâncias em que ocorreu a derrocada, poder-se-á determinar as suas causas» («Derrocada de muro esmaga dois carros em Benfica», Kátia Catulo, 15.07-2006, p. 32). Temos então dois desastres: o aluimento do muro e o da gramática. Vejamos.
      A vírgula após o vocábulo «derrocada» é incorrecta, pois não se segue — tento, em vão, reconstituir o que terá pensado a jornalista — uma oração condicional ou concessiva, por exemplo, que, essas sim, se separam da principal por vírgula. Por outro lado, tendencialmente, a presença do advérbio «só» leva a próclise pronominal: «Vítor Vieira, da Protecção Civil de Lisboa, contudo, esclarece que só após a avaliação das circunstâncias em que ocorreu a derrocada se poderá determinar as suas causas.»

Topónimo Casamansa

África, de novo

      Lia-se no último Jornal de Letras, Artes e Ideias: «Paralelamente, o governo chinês contribuiu ainda com 350 mil dólares (270 mil euros) de ajuda humanitária, destinada aos deslocados no norte [sic] da Guiné-Bissau, na sequência do conflito que opôs o exército guineense a um movimento independentista de Casamança» («Bissau acolhe Cimeira da CPLP», JL, 5.07.2006, p. 3). Ora, são muitos os dicionários que recomendam e registam a forma «Casamansa», a começar pelo Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves. A forma «Casamança» deve ter-nos vindo por influência francesa, língua em que se escreve «Casamance».
      O Diário de Notícias, por exemplo, grafa correctamente a palavra: «Aquele local — próximo da vila de São Domingos, no Noroeste da Guiné-Bissau e junto à fronteira com o Senegal — está cercado há vários dias pelas forças militares de Bissau» («Bombas contra os rebeldes de Casamansa», Manuel Carlos Freire, 14.4.2006, p. 14).

Particípio de intervir: intervindo

Não, senhora ministra!

      Chegou-me às mãos, e mais uma vez é de uma tradução que se trata, a seguinte frase: «No Salão de 1847 apresentou o seu auto-retrato intitulado L’homme à la pipe, que foi rejeitado; depois viajou pela Holanda e, embora tenha intervido na Revolução de 1848, absteve-se de participar nos episódios sangrentos ocorridos durante o mês de Junho daquele ano.» É grave, nada de complacências, que alguém que ganha a vida a escrever o faça assim. Contudo, ainda no dia 23 de Junho, no Telejornal (RTP1), dizem-me, que eu não vi, a ministra da Cultura afirmou que «não era verdade que o Ministério não tenha intervido».
      O verbo intervir conjuga-se exactamente como o verbo vir (e, que eu saiba, ninguém diz, por exemplo, «embora tenha aqui vido em paz, tenho armas que usarei quando for necessário»), com a particularidade de se grafar com acento agudo na segunda e terceira pessoas do presente do indicativo (intervéns, intervém). Logo, o particípio deste verbo segue o paradigma de vir/vindo: intervindo.

Léxico: segada e segadeira

Imagem: http://www.mogadouro.com/
Sega aqui

      Quando vejo, o que é raro, alguma palavra da família de «segar», vem-me sempre à memória a Falcífera (ter lido certa poesia deixou-me assim). Mas eis que aparecem duas, raríssimas, em pouco tempo, e uma dela trouxe quase a morte. «Fonte dos Bombeiros Voluntários da Cruz Verde revelou que a segadeira — máquina de cortar o cereal — amputou totalmente os dois pés do homem, que estava a trabalhar num terreno agrícola» («Tractor esmaga homem e alfaia amputa dois pés», Diário de Notícias, 10.05.2006, p. 31). Por outro lado, a Antena 1 noticiou ontem o «Dia da Segada» em Bruçó, aldeia no concelho de Mogadouro.


Português (Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coord. por José Pedro Machado).

Sega (è), s. f. Acto ou efeito de segar; ceifa.│Duração da ceifa.
Segada, s. f. Acto de segar; sega, ceifa.│Tempo das segas ou ceifas.
Segadeira, s. f. Espécie de foice grande; ceifeira.
Segado, adj. Que se segou; ceifado.│Fig. Cortado, derrubado à maneira de sega ou ceifa.
Segadouro, adj. Que serve para segar ou ceifar.│Que está em condições de se ceifar.
Segadura, s. f. O m. q. sega.
Segar, v. tr. Ceifar, cortar (as searas, as ervas).│Cortar em tiras ou fatias delgadas.│Lançar por terra cortando.│Fig. Pôr fim.

Espanhol (Diccionario de la Real Academia Española).

Segable. (Del lat. secabilis). adj. Que está en sazón para ser segado.
Segada. (De segar). f. Acción y efecto de segar.
Segadero, ra. (De segar). adj. Que está en sazón para ser segado.│2. f. Hoz para segar.│3. desus. Mujer que siega.
Segador, ra. (Del lat. secator, -oris). adj. Dicho de una máquina: Que sirve para segar.│2. m. y f. Persona que siega.
Segar. (Del lat. secare, cortar). tr. Cortar mieses o hierba com la hoz, la gadaña o cualquier máquina a propósito.│2. Cortar de cualquier manera, y especialmente lo que sobresale o está más alto. Segar la cabeza, el cuello.│3. Cortar, interrumpir algo de forma violenta y brusca.
Segazón. (Del lat. secatio, -onis). f. Acción y efecto de segar.│Tiempo en que se siega.

Em catalão (Dicionário do Instituto de Estudos Catalães)

Sega f. Acció de segar les messes; les messes segades. Època de la sega.
Segada f. Acció de segar; l’efecte.
Segador¹ -a adj. i m. i f. Que sega. Ja han arribat els segadors. f. Màquina agrícola emprada per a segar herba o, esp., cereals.
Segador² -a adj. Que està en saó per a ésser segat. Blat segador.
Segaire m. i f. Segador.
Segar v. tr. Tallar amb la falç o altra eina (les messes, l’herba). Segar un camp de blat. ABS. Aquest any encara no han segat. Qui no pot segar, espigola. Tallar d’un cop i en rodó com fa la falç en segar. Segar el cap, el coll. FIG. Segar les esperances, les illusions, d'algú. segar a algú l’herba sota els peus Impedir-li d’assolir allò que pretén, posar-li obstacles, etc. Tallar una peça al torn mitjançant una eina estreta que avança perpendicularment a l’eix de rotació. Un treball excessiu, una emoció forta, llevar tota força (a les cames, als braços). La baixada em va segar les cames. pron. Se'm van segar les cames. Portant aquesta criatura se m'han segat els braços. Un cordill, una corda, etc., fer un séc (allà on són lligats).

Léxico: resiliência

Voltar ao normal

      «Resiliência (s. f.), o contrário de fragilidade; capacidade de resistência de um material ao choque […]. Assim define o Dicionário de Língua Portuguesa da Porto Editora uma palavra muito pouco ou nada utilizada em português, mas que se usa bastante em inglês. E tornou-se uma palavra de ordem no seguimento dos ataques bombistas suicidas em Londres em 7 de Julho [do ano] passado», escreve a «politóloga» (politicóloga estaria mais conforme com as regras de formação das palavras em português, mas a lei do menor esforço ajuda a contrariar) Marina Costa Lobo no Diário de Notícias de sábado, na p. 9. Em sentido figurado, a resiliência é, de facto, e assim percebe-se melhor, «a capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças», conforme define o Dicionário Houaiss. O étimo é o inglês resilience, um termo da Física.

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