Pontuação e próclise pronominal

© Helder Guégués
Bum!

      Não muito longe da minha casa, desmoronou-se um muro, tendo esmagado dois automóveis. Uma jornalista do Diário de Notícias esteve no local e conta-nos: «Vítor Vieira, da Protecção Civil de Lisboa, contudo, esclarece que só após a avaliação das circunstâncias em que ocorreu a derrocada, poder-se-á determinar as suas causas» («Derrocada de muro esmaga dois carros em Benfica», Kátia Catulo, 15.07-2006, p. 32). Temos então dois desastres: o aluimento do muro e o da gramática. Vejamos.
      A vírgula após o vocábulo «derrocada» é incorrecta, pois não se segue — tento, em vão, reconstituir o que terá pensado a jornalista — uma oração condicional ou concessiva, por exemplo, que, essas sim, se separam da principal por vírgula. Por outro lado, tendencialmente, a presença do advérbio «só» leva a próclise pronominal: «Vítor Vieira, da Protecção Civil de Lisboa, contudo, esclarece que só após a avaliação das circunstâncias em que ocorreu a derrocada se poderá determinar as suas causas.»

Topónimo Casamansa

África, de novo

      Lia-se no último Jornal de Letras, Artes e Ideias: «Paralelamente, o governo chinês contribuiu ainda com 350 mil dólares (270 mil euros) de ajuda humanitária, destinada aos deslocados no norte [sic] da Guiné-Bissau, na sequência do conflito que opôs o exército guineense a um movimento independentista de Casamança» («Bissau acolhe Cimeira da CPLP», JL, 5.07.2006, p. 3). Ora, são muitos os dicionários que recomendam e registam a forma «Casamansa», a começar pelo Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves. A forma «Casamança» deve ter-nos vindo por influência francesa, língua em que se escreve «Casamance».
      O Diário de Notícias, por exemplo, grafa correctamente a palavra: «Aquele local — próximo da vila de São Domingos, no Noroeste da Guiné-Bissau e junto à fronteira com o Senegal — está cercado há vários dias pelas forças militares de Bissau» («Bombas contra os rebeldes de Casamansa», Manuel Carlos Freire, 14.4.2006, p. 14).

Particípio de intervir: intervindo

Não, senhora ministra!

      Chegou-me às mãos, e mais uma vez é de uma tradução que se trata, a seguinte frase: «No Salão de 1847 apresentou o seu auto-retrato intitulado L’homme à la pipe, que foi rejeitado; depois viajou pela Holanda e, embora tenha intervido na Revolução de 1848, absteve-se de participar nos episódios sangrentos ocorridos durante o mês de Junho daquele ano.» É grave, nada de complacências, que alguém que ganha a vida a escrever o faça assim. Contudo, ainda no dia 23 de Junho, no Telejornal (RTP1), dizem-me, que eu não vi, a ministra da Cultura afirmou que «não era verdade que o Ministério não tenha intervido».
      O verbo intervir conjuga-se exactamente como o verbo vir (e, que eu saiba, ninguém diz, por exemplo, «embora tenha aqui vido em paz, tenho armas que usarei quando for necessário»), com a particularidade de se grafar com acento agudo na segunda e terceira pessoas do presente do indicativo (intervéns, intervém). Logo, o particípio deste verbo segue o paradigma de vir/vindo: intervindo.

Léxico: segada e segadeira

Imagem: http://www.mogadouro.com/
Sega aqui

      Quando vejo, o que é raro, alguma palavra da família de «segar», vem-me sempre à memória a Falcífera (ter lido certa poesia deixou-me assim). Mas eis que aparecem duas, raríssimas, em pouco tempo, e uma dela trouxe quase a morte. «Fonte dos Bombeiros Voluntários da Cruz Verde revelou que a segadeira — máquina de cortar o cereal — amputou totalmente os dois pés do homem, que estava a trabalhar num terreno agrícola» («Tractor esmaga homem e alfaia amputa dois pés», Diário de Notícias, 10.05.2006, p. 31). Por outro lado, a Antena 1 noticiou ontem o «Dia da Segada» em Bruçó, aldeia no concelho de Mogadouro.


Português (Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coord. por José Pedro Machado).

Sega (è), s. f. Acto ou efeito de segar; ceifa.│Duração da ceifa.
Segada, s. f. Acto de segar; sega, ceifa.│Tempo das segas ou ceifas.
Segadeira, s. f. Espécie de foice grande; ceifeira.
Segado, adj. Que se segou; ceifado.│Fig. Cortado, derrubado à maneira de sega ou ceifa.
Segadouro, adj. Que serve para segar ou ceifar.│Que está em condições de se ceifar.
Segadura, s. f. O m. q. sega.
Segar, v. tr. Ceifar, cortar (as searas, as ervas).│Cortar em tiras ou fatias delgadas.│Lançar por terra cortando.│Fig. Pôr fim.

Espanhol (Diccionario de la Real Academia Española).

Segable. (Del lat. secabilis). adj. Que está en sazón para ser segado.
Segada. (De segar). f. Acción y efecto de segar.
Segadero, ra. (De segar). adj. Que está en sazón para ser segado.│2. f. Hoz para segar.│3. desus. Mujer que siega.
Segador, ra. (Del lat. secator, -oris). adj. Dicho de una máquina: Que sirve para segar.│2. m. y f. Persona que siega.
Segar. (Del lat. secare, cortar). tr. Cortar mieses o hierba com la hoz, la gadaña o cualquier máquina a propósito.│2. Cortar de cualquier manera, y especialmente lo que sobresale o está más alto. Segar la cabeza, el cuello.│3. Cortar, interrumpir algo de forma violenta y brusca.
Segazón. (Del lat. secatio, -onis). f. Acción y efecto de segar.│Tiempo en que se siega.

Em catalão (Dicionário do Instituto de Estudos Catalães)

Sega f. Acció de segar les messes; les messes segades. Època de la sega.
Segada f. Acció de segar; l’efecte.
Segador¹ -a adj. i m. i f. Que sega. Ja han arribat els segadors. f. Màquina agrícola emprada per a segar herba o, esp., cereals.
Segador² -a adj. Que està en saó per a ésser segat. Blat segador.
Segaire m. i f. Segador.
Segar v. tr. Tallar amb la falç o altra eina (les messes, l’herba). Segar un camp de blat. ABS. Aquest any encara no han segat. Qui no pot segar, espigola. Tallar d’un cop i en rodó com fa la falç en segar. Segar el cap, el coll. FIG. Segar les esperances, les illusions, d'algú. segar a algú l’herba sota els peus Impedir-li d’assolir allò que pretén, posar-li obstacles, etc. Tallar una peça al torn mitjançant una eina estreta que avança perpendicularment a l’eix de rotació. Un treball excessiu, una emoció forta, llevar tota força (a les cames, als braços). La baixada em va segar les cames. pron. Se'm van segar les cames. Portant aquesta criatura se m'han segat els braços. Un cordill, una corda, etc., fer un séc (allà on són lligats).

Léxico: resiliência

Voltar ao normal

      «Resiliência (s. f.), o contrário de fragilidade; capacidade de resistência de um material ao choque […]. Assim define o Dicionário de Língua Portuguesa da Porto Editora uma palavra muito pouco ou nada utilizada em português, mas que se usa bastante em inglês. E tornou-se uma palavra de ordem no seguimento dos ataques bombistas suicidas em Londres em 7 de Julho [do ano] passado», escreve a «politóloga» (politicóloga estaria mais conforme com as regras de formação das palavras em português, mas a lei do menor esforço ajuda a contrariar) Marina Costa Lobo no Diário de Notícias de sábado, na p. 9. Em sentido figurado, a resiliência é, de facto, e assim percebe-se melhor, «a capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças», conforme define o Dicionário Houaiss. O étimo é o inglês resilience, um termo da Física.

Tradução: «en pos de», de novo

No encalço da palavra certa

      Tem razão o leitor Hugo Santos: em português há o vocábulo «empós», usado na locução prepositiva «empós de». Camilo, lembrou-me este leitor, usa-a. É verdade, assim como, por exemplo, recordei-lhe eu, Álvaro Feijó, no poema «Maria Madalena»: «lábios sorrindo sem esgares de pena,/Deusa de Amor — Maria Madalena/passa e, empós ela, há só rastros de luz». Ou Tomaz de Figueiredo na Procissão dos Defuntos: «O estilo atrás do assunto, o cálamo empós do estilo, e a nascer-lhe uma procaz sucessão de maneiras e dizeres obsoletos, a termos que o leitor quiçá deixou de o ser» (2.ª edição. Lisboa: Editorial Verbo, 1967, p. 105). É, porém, vocábulo caído em desuso. Retomemos, contudo, a frase espanhola: «Excepto en tales ocasiones, y en ciertas desviaciones que a comienzos de su carrera sufrió en pos del tipismo español...» A minha tradução foi então: «Excepto em ocasiões como a referida, e em certos desvios do início da sua carreira na peugada do tipismo espanhol...» Relembro a tradução objecto de análise: «Excepto nestas ocasiões, e em certos desvios do início da sua carreira depois da excentricidade espanhola...» Avisei então: «Como sempre, detenho-me apenas num determinado erro das frases, sem que com isso signifique que a frase esteja escorreita quanto ao resto.» É justamente o que acontece com esta frase, pois que traduzir «tipismo» por «excentricidade» não lembra ao mais excêntrico dos tradutores. Pensava eu, claro, mas a realidade desmentiu-me.

Actualização em 25.11.2010

      «— Sim, Senhor, coisa bem feita! — declarou mestre Cagoto, desembocando empós de mim, varado e também desvanecido pela confiança. — Uma destas obras que só os antigos!» (Tiros de Espingarda, Tomaz de Figueiredo. Lisboa: Editorial Verbo, 1966, p. 54).

Ortografia: druso

Dr. Uzo

      Poucas vezes se usa esta palavra. Tem, porém, má sina: poucas vezes é correctamente escrita. «Até ao lançamento de rockets pelo Hezbollah, nos dias 13 e 16 deste mês, a cidade era considerada um centro de coexistência pacífica entre judeus, árabes, bahá’is e druzos» («Haifa, a cidade mais tolerante», J. H., Público, 17.07.2006, p. 3). Agora que, infelizmente, os meios de comunicação social vão ter de usar a palavra com mais frequência, vejam lá se acertam na grafia: druso. Não sei donde possa vir o erro, pois em espanhol, por exemplo, também se escreve com s, assim como em italiano (origem, aliás, do vocábulo espanhol), em catalão, em francês e em inglês.

«Druso adj. s. m. TEOL HIST que ou aquele que é membro de uma seita maometana extremista, fundada no Líbano, no sXI» (Dicionário Houaiss).

      No Livro de Estilo do Público também vamos encontrar o termo, o que agrava, se possível, a culpa do jornalista: «Drusos são uma das muitas sub-seitas dos Ismailitas Assassinos, tal como os Alauitas. Uns e outros concentram-se agora sobretudo na Síria e no Líbano. A crença dos drusos já tem muito pouco a ver com o Islão, embora eles ainda sejam catalogados como “muçulmanos”. Esta seita foi criada em 1021 no Cairo quando um grupo de ismailitas declarou o “imã” fatimida al-Hakim como sendo a reincarnação de Ali, o primeiro “imã” xiita. Foram expulsos do Cairo para a Síria pela maioria dos Ismailitas que os consideraram hereges. O primeiro líder druso, al-Dazari, foi um turco. No início do século XIII, os drusos passaram a aceitar apenas os descendentes directos dos fiéis originais, tornando-se assim uma tribo e um grupo religioso secretos. Aceitam uma parte do Corão, adoptaram a crença judaica de que o seu Deus é exclusivo deles e aceitam a doutrina da reincarnação de Jesus. Os Alauitas, por seu turno, apareceram no século XIII como um grupo dissidente da ala síria dos Assassinos (os Ismailitas Nizariyah). Constituem hoje 10 por cento da Síria mas são a classe política dominante. As suas origens estão envoltas em lenda e mistério. É uma seita que se identifica abertamente com alguns aspectos da teologia cristã, ao ponto de celebrarem a Páscoa, mas seguem igualmente as tradições dos xiitas iranianos.»

Chernobil, judaico, mupi, peru, apagão, auto-

Miscelânea

      Lembram-se do texto em que questionava a forma como o Público grafava o topónimo Чорнобиль? Era «Tchernobil», sim. Eu defendia e continuo a defender a forma «Chernobil». Agora, por distracção ou mudança de opinião, escreveu: «Itália. Encerrou os reactores do acidente de 1986 em Chernobil» («Poderio nuclear dos países do G8», Público, 15.07.2006, p. 18).

      «Pelo menos desde que, há três meses, a sócia-gerente da Confeitaria Doção, na Rua do Barão de Forrester, no Porto, aceitou tornar-se na única padeira do país a confeccionar pão judeu» («O ressurgimento da comunidade judaica do Porto», Natália Faria, Público, 11.06.2006, p. 73). Pão «judeu»! Isto num texto em que podemos ler «ritos judaicos», «comunidade judaica», «ano novo judaico», «vestígios judaicos» e «cidade judaica». Por outro lado, a tese de que o vocábulo «marrano» é pejorativo e «significa “porco”, precisamente porque alguns, para se livrarem da condenação pública, começaram a comer carne de porco, interdita aos judeus» não é, nem pouco mais ou menos, consensual, pelo que referir também a outra hipótese etimológica era imprescindível.

      Já aqui escrevi uma vez sobre o significado do acrónimo «mupis». Como qualquer acrónimo, não precisa de ser isolado, qual cordão sanitário, por aspas. Assim não entendeu, erradamente, o jornalista Jorge Figueira: «A nossa arquitectura está em mupis”, a de Espanha está no MoMA» («Aprender com Espanha» (Público/Mil Folhas, 15.07.2006, p. 22).

      De vez em quando, o peru toucado aparece nos melhores jornais: «Em Março de 2004 foram descobertas quatro múmias em Cocahacra, no Perú» (Diário de Notícias, 6.07.2006, p. 34).

      «A cegonha que no ano 2000 provocou o famoso apagão e deixou o País às escuras foi apenas um exemplo desta difícil interacção entre aves selvagens e cabos eléctricos e das consequências que daí podem resultar» («Linhas eléctricas fatais para as aves protegidas», Rita Carvalho, Diário de Notícias, 7.07.2006, p. 18). Que eu saiba, antes de uma palavra ser dicionarizada não passa por um estágio em que fique envolta em aspas.

     Continua a ignorar-se a grafia dos vocábulos com o prefixo auto-, como se vê todos os dias nos jornais: «“Pensamos que deve ter havido uma razão para que ele tenha saído do estado de consciência mínima em que se encontrava, e achamos que houve um processo de auto-cura muito lento e progressivo do próprio cérebro.”» («Homem recupera após 19 anos em coma», Sónia Morais Santos, Diário de Notícias, 5.07.2006, p. 19). Se não percebem as regras, aqui vão, novamente, alguns exemplos: auto-ajuda, autobiografia, autocura, autodefesa, auto-estima, autofinanciamento, autogestão, auto-imune, autolavagem, automedicação, autonomear-se, autoprotecção, auto-retrato, auto-sugestão, autoteste, autovacina...

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