Etimologia: Bombaim

Tudo igual

      «Os portugueses baptizaram-na no século XVI de Bombaim, a partir de “Bom Bahia”; tornou-se Bombay quando passou a colónia britânica, e Mumbai em 1996, como era identificada por falantes de gujarati e marathi» («Índia em estado de alerta máximo», Francisca Gorjão Henriques, Público, 12.07.2006, p. 2). Como já referi acerca de Pequim → Beijin, não temos de seguir, apesar dos protestos de certas pessoas bem-intencionadas, esta alteração de Bombaim para Mumbai. Ah, e em português escreve-se «guzerate» e «marata».

Poesia: «Ode ao dicionário»

Diccionario, no eres
tumba, sepulcro, féretro,
túmulo, mausoleo,
sino preservación,
fuego escondido,
plantación de rubíes,
perpetuidad viviente
de la esencia,
granero del idioma.
Y es hermoso
recoger en tus filas
la palabra
de estirpe,
la severa
y olvidada sentencia,
hija de España,
endurecida
como reja de arado
fija en su límite
de anticuada herramienta,
preservada
con su hermosura exacta
y su dureza de medalla
..............................................................................................
De tu espesa y sonora profundidad de selva,

dame,
cuando lo necesite,
un solo trino, el lujo
de una abeja,
un fragmento caído de tu antigua madera perfumada
por una eternidad de jazmineros,
una sílaba,
un temblor,
un sonido,
una semilla:
de tierra soy y con palabras canto.

Pablo Neruda, «Oda al diccionario»

Verbo faltar

Falta aprender as conjugações   

      «Faltam ainda recolher pistas, mas as fontes em Nova Deli ouvidas pelo diário indiano afirmaram que os atentados seguiram o modus operandi do LeT [Lashkar-e-Toiba, «Exército dos Puros», grupo islamita com base no Paquistão] em estreita colaboração com o SIMI, que cada vez tem mais influência no estado de Maharashtra, do qual Bombaim é a capital» («Atentados com impressões digitais do Lashkar-e-Toiba», Francisca Gorjão Henriques, Público, 12.07.2006, p. 3).
      Este é um dos erros mais comuns na conjugação verbal. Ora, o sujeito do verbo faltar, que é pessoal, é outro verbo, o verbo recolher, que está no infinitivo. O valor nominal do verbo no infinitivo exige assim que o verbo faltar esteja no singular. O valor nominal do infinitivo já vem do latim. Que digo eu? Já vem do grego. No latim, o infinitivo era um antigo substantivo que exprimia a noção verbal pura e simples. Contudo, à semelhança do grego, o latim tendia a fazer entrar o infinitivo na conjugação, dando-lhe tempos e vozes: lecturum esse, legisse, lecturum fuisse (irreal); lectum fore, lectum esse, legendum esse. Por vezes, como acontece em português, o infinitivo era mesmo substantivado, virtualidade que já vinha do grego, língua em que era muito comum graças ao uso do artigo. «Hic uereri perdidit» («Perdeu todo o sentido do respeito»), escreveu Plauto nas Bacchides, exemplo em que uereri está por uerecundiam. E mesmo os escritores da época imperial alargaram este uso do infinitivo substantivado: «Illud […] iucundum nihil agere» («Este agradável nada fazer»), escreveu Plínio, o Jovem, nas Epistolae.

O grama/a grama

Elementar

      Claro que é elementar, meu caro Watson, mas ainda há e haverá quem erre o género da palavra «grama» no sentido de milésima parte da massa do quilograma-padrão. Nesta acepção, é um substantivo do género masculino: o grama. No sentido de erva, relva, é do género feminino: a relva. Na oralidade é relativamente comum este erro; na escrita, e sobretudo na escrita jornalística é raro — e imperdoável.
      «Nos melhores dias, ele chega a encontrar uma grama de ouro, no máximo», «Ouro. Uma grama por dia, à espera que a mina volte a abrir», Público, 10.07.2006, p. 48.

Ortografia: Waziristão

Um pouco mais

      É interessante ver como o próprio Público, que não é muito atreito a aportuguesar seja o que for, e muito menos os topónimos, usa o vocábulo «Waziristão», à semelhança, aliás, de outros jornais portugueses. De facto, «Waziristan» (do urdu وزیرستان) é a transcrição fonética para o inglês. Também nós podíamos chegar à forma «Vaziristão», mais conforme, afinal, com o nosso alfabeto.
      «Pelo menos seis soldados paquistaneses morreram ontem quando um suicida fez explodir o carro armadilhado em que seguia contra um checkpoint militar perto de Miran Shah, a principal cidade da região do Waziristão Norte, junto à fronteira com o Afeganistão», «Ataque à bomba no Paquistão vitima seis soldados», Público, 27.06.2006, p. 22.

Léxico: batólito

Outra música

O maestro Virgílio Caseiro foi entrevistado, no sábado, no programa Mil e Uma Escolhas (Antena 1), e foi com que ele que eu aprendi que os afloramentos rochosos que se vêem, por exemplo, em Monsanto, a «aldeia mais portuguesa», têm a designação de «batólitos». Trata-se, sei-o agora, do batólito de Penamacor-Monsanto.
«batólito s. m. Geol. grande corpo de rocha ígnea formado pela intrusão e solidificação de magma, alguns com embasamento comprovado, cuja forma é equidimensional tendente a alongada, e com extensão superior a 100 km2» (Dicionário Houaiss). O elemento «bat(i)o», do grego, expressa a ideia de profundo, fundo em espessura. O maior batólito da Península Ibérica é o monte do Pilar, na Póvoa de Lanhoso, com uma altitude de 385 metros.

Pronome + infinitivo

No princípio era o pronome…

«A mãe de João Pereira Coutinho completou 90 anos e o filho não mediu esforços para a agradar. Até ofereceu fins-de-semana no Algarve aos vizinhos para compensá-los do barulho» («Milionário dá festa de arromba», Helena Isabel Mota, Correio da Manhã/Vidas, 17.06.2006, p. 16). É preferível colocar o pronome antes do verbo compensar, visto este estar no infinitivo precedido da preposição «para». Exemplos: «ele ofereceu um fim-de-semana para os compensar», «tu deves fazer alguma coisa para o pôr no lugar», «telefonei-lhe para o repreender», «ando para lhe confidenciar um segredo há que tempos».

Ortografia: fogo-de-artifício

Imagem: www.digi-hound.com

2-hífenes-2

«Fogo-de-artifício mata homem», Diário de Notícias, 10.07.2006, p. 36.
«Homem morre ao lançar fogo de artifício», Público, 10.07.2006, p. 49.
«fogo-de-artifício. s. m. 1. Conjunto de peças pirotécnicas que se queimam sobretudo em noites de festa ou romarias, e que, no momento da explosão, fazem estrondo e produzem jogos de luz deslumbrantes; espectáculo constituído pelo lançamento e queima dessas peças» (Dicionário da Academia).
Em espanhol, fuegos artificiales; em catalão, focs d’artifici ou focs artificials; em francês, feu d’artifice; em inglês, fireworks.

Arquivo do blogue