O grama/a grama

Elementar

      Claro que é elementar, meu caro Watson, mas ainda há e haverá quem erre o género da palavra «grama» no sentido de milésima parte da massa do quilograma-padrão. Nesta acepção, é um substantivo do género masculino: o grama. No sentido de erva, relva, é do género feminino: a relva. Na oralidade é relativamente comum este erro; na escrita, e sobretudo na escrita jornalística é raro — e imperdoável.
      «Nos melhores dias, ele chega a encontrar uma grama de ouro, no máximo», «Ouro. Uma grama por dia, à espera que a mina volte a abrir», Público, 10.07.2006, p. 48.

Ortografia: Waziristão

Um pouco mais

      É interessante ver como o próprio Público, que não é muito atreito a aportuguesar seja o que for, e muito menos os topónimos, usa o vocábulo «Waziristão», à semelhança, aliás, de outros jornais portugueses. De facto, «Waziristan» (do urdu وزیرستان) é a transcrição fonética para o inglês. Também nós podíamos chegar à forma «Vaziristão», mais conforme, afinal, com o nosso alfabeto.
      «Pelo menos seis soldados paquistaneses morreram ontem quando um suicida fez explodir o carro armadilhado em que seguia contra um checkpoint militar perto de Miran Shah, a principal cidade da região do Waziristão Norte, junto à fronteira com o Afeganistão», «Ataque à bomba no Paquistão vitima seis soldados», Público, 27.06.2006, p. 22.

Léxico: batólito

Outra música

O maestro Virgílio Caseiro foi entrevistado, no sábado, no programa Mil e Uma Escolhas (Antena 1), e foi com que ele que eu aprendi que os afloramentos rochosos que se vêem, por exemplo, em Monsanto, a «aldeia mais portuguesa», têm a designação de «batólitos». Trata-se, sei-o agora, do batólito de Penamacor-Monsanto.
«batólito s. m. Geol. grande corpo de rocha ígnea formado pela intrusão e solidificação de magma, alguns com embasamento comprovado, cuja forma é equidimensional tendente a alongada, e com extensão superior a 100 km2» (Dicionário Houaiss). O elemento «bat(i)o», do grego, expressa a ideia de profundo, fundo em espessura. O maior batólito da Península Ibérica é o monte do Pilar, na Póvoa de Lanhoso, com uma altitude de 385 metros.

Pronome + infinitivo

No princípio era o pronome…

«A mãe de João Pereira Coutinho completou 90 anos e o filho não mediu esforços para a agradar. Até ofereceu fins-de-semana no Algarve aos vizinhos para compensá-los do barulho» («Milionário dá festa de arromba», Helena Isabel Mota, Correio da Manhã/Vidas, 17.06.2006, p. 16). É preferível colocar o pronome antes do verbo compensar, visto este estar no infinitivo precedido da preposição «para». Exemplos: «ele ofereceu um fim-de-semana para os compensar», «tu deves fazer alguma coisa para o pôr no lugar», «telefonei-lhe para o repreender», «ando para lhe confidenciar um segredo há que tempos».

Ortografia: fogo-de-artifício

Imagem: www.digi-hound.com

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«Fogo-de-artifício mata homem», Diário de Notícias, 10.07.2006, p. 36.
«Homem morre ao lançar fogo de artifício», Público, 10.07.2006, p. 49.
«fogo-de-artifício. s. m. 1. Conjunto de peças pirotécnicas que se queimam sobretudo em noites de festa ou romarias, e que, no momento da explosão, fazem estrondo e produzem jogos de luz deslumbrantes; espectáculo constituído pelo lançamento e queima dessas peças» (Dicionário da Academia).
Em espanhol, fuegos artificiales; em catalão, focs d’artifici ou focs artificials; em francês, feu d’artifice; em inglês, fireworks.

Adjectivo «censório»

Parecido…

«Shakespeare — o acima de todos venerável — não ficou imune ao olho censóreo, já bem depois de 1695: o Rei Lear, por exemplo, teve a sua encenação proibida, entre 1788 e 1820, devido à loucura do Rei Jorge III (a loucura que inunda a peça poderia, trazida ao palco, parecer “piada” à loucura do Rei Jorge…)», «Censores», Eugénio Lisboa, JL, 5.07.2006, p. 44. Para a publicação que é — Jornal de Letras, Artes e Ideias —, tem demasiados erros e gralhas. «Censório» deveria o autor ter escrito, pois o sufixo latino era -orius, que em português deu -ório. Censorĭuscensório. Censório, pois, à semelhança de acessório, compulsório, derisório, ilusório, irrisório, promissório, provisório, rescisório, revulsório, sensório, suasório, sucessório, supressório, transmissório, etc. Por outro lado, quantas palavras portuguesas o autor conhece terminadas em -óreo? Tanto quanto sei, apenas existem estas: alterniflóreo, arbóreo, ascospóreo, castóreo, concorpóreo, corpóreo, ebóreo, equóreo, estentóreo, extracorpóreo, flóreo, fosfóreo, herbóreo, heterospóreo, hiperbóreo, incorpóreo, litóreo, marmóreo e quadriflóreo.

Etimologia: demótico

Escrita etimológica

Escreveu Vasco Pulido Valente: «Até me irrito com as bandeirinhas do prof. Marcelo e com o esforço, um pouco embaraçoso, dos políticos para se mostrarem demóticos» («Futebol», Público, 30.06.2006, p. 52). Convenho: talvez a maioria das pessoas perceba o que o autor quer dizer com aquele «demótico» — mesmo que não seja o termo correcto. Talvez, mas a verdade é que a acepção usada não está registada nos nossos dicionários. Vejamos a respectiva entrada no Dicionário Houaiss: «demótico adj. s. m. LING 1 diz-se de ou língua grega moderna falada no quotidiano [Tornada a língua oficial da Grécia desde 1976.] cf. grego demótico. 2 diz-se de ou língua falada pelos antigos egípcios. 3 diz-se de ou forma cursiva (simplificada) da escrita hierática dos antigos egípcios, us. entre o sVII a.C. e o sV d.C. ETIM gr. demotikós ‘relativo à gente do povo, popular, plebeu’.» A seguirmos esta via etimológica, ninguém se poderia espantar se começássemos a ver nos jornais frases como esta: «O assaltante, surpreendido à saída da agência do BPI da Avenida do Uruguai, pespegou com um crachá na farda imaculada do agente da PSP, que lho devolveu na ponta do cassetete.» «Crachá», para nós, é somente um distintivo, uma medalha, ao passo que no francês, donde veio a palavra, é etimologicamente «escarro».

Topónimo: Cordofão

O mundo em português

«Os grupos rebeldes do Darfur que recusaram juntar-se ao acordo de paz assinado a 5 de Maio, em Abuja, levaram agora o conflito para fora das fronteiras daquela região do Oeste do Sudão, ao atacarem o estado vizinho do Kurdufan do Norte» («Grupos rebeldes atacam estado vizinho do Darfur», Diário de Notícias, 5.07.2006, p. 13). Por este andar, qualquer dia temos os jornalistas a escrever «Kashmir» em vez de «Caxemira», «Chechnya» em vez de «Chechénia», «Lebanon» em vez de «Líbano» e por aí adiante. Há séculos que no léxico português se encontra o topónimo «Cordofão» — usem-no.

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