Adjectivo «censório»

Parecido…

«Shakespeare — o acima de todos venerável — não ficou imune ao olho censóreo, já bem depois de 1695: o Rei Lear, por exemplo, teve a sua encenação proibida, entre 1788 e 1820, devido à loucura do Rei Jorge III (a loucura que inunda a peça poderia, trazida ao palco, parecer “piada” à loucura do Rei Jorge…)», «Censores», Eugénio Lisboa, JL, 5.07.2006, p. 44. Para a publicação que é — Jornal de Letras, Artes e Ideias —, tem demasiados erros e gralhas. «Censório» deveria o autor ter escrito, pois o sufixo latino era -orius, que em português deu -ório. Censorĭuscensório. Censório, pois, à semelhança de acessório, compulsório, derisório, ilusório, irrisório, promissório, provisório, rescisório, revulsório, sensório, suasório, sucessório, supressório, transmissório, etc. Por outro lado, quantas palavras portuguesas o autor conhece terminadas em -óreo? Tanto quanto sei, apenas existem estas: alterniflóreo, arbóreo, ascospóreo, castóreo, concorpóreo, corpóreo, ebóreo, equóreo, estentóreo, extracorpóreo, flóreo, fosfóreo, herbóreo, heterospóreo, hiperbóreo, incorpóreo, litóreo, marmóreo e quadriflóreo.

Etimologia: demótico

Escrita etimológica

Escreveu Vasco Pulido Valente: «Até me irrito com as bandeirinhas do prof. Marcelo e com o esforço, um pouco embaraçoso, dos políticos para se mostrarem demóticos» («Futebol», Público, 30.06.2006, p. 52). Convenho: talvez a maioria das pessoas perceba o que o autor quer dizer com aquele «demótico» — mesmo que não seja o termo correcto. Talvez, mas a verdade é que a acepção usada não está registada nos nossos dicionários. Vejamos a respectiva entrada no Dicionário Houaiss: «demótico adj. s. m. LING 1 diz-se de ou língua grega moderna falada no quotidiano [Tornada a língua oficial da Grécia desde 1976.] cf. grego demótico. 2 diz-se de ou língua falada pelos antigos egípcios. 3 diz-se de ou forma cursiva (simplificada) da escrita hierática dos antigos egípcios, us. entre o sVII a.C. e o sV d.C. ETIM gr. demotikós ‘relativo à gente do povo, popular, plebeu’.» A seguirmos esta via etimológica, ninguém se poderia espantar se começássemos a ver nos jornais frases como esta: «O assaltante, surpreendido à saída da agência do BPI da Avenida do Uruguai, pespegou com um crachá na farda imaculada do agente da PSP, que lho devolveu na ponta do cassetete.» «Crachá», para nós, é somente um distintivo, uma medalha, ao passo que no francês, donde veio a palavra, é etimologicamente «escarro».

Topónimo: Cordofão

O mundo em português

«Os grupos rebeldes do Darfur que recusaram juntar-se ao acordo de paz assinado a 5 de Maio, em Abuja, levaram agora o conflito para fora das fronteiras daquela região do Oeste do Sudão, ao atacarem o estado vizinho do Kurdufan do Norte» («Grupos rebeldes atacam estado vizinho do Darfur», Diário de Notícias, 5.07.2006, p. 13). Por este andar, qualquer dia temos os jornalistas a escrever «Kashmir» em vez de «Caxemira», «Chechnya» em vez de «Chechénia», «Lebanon» em vez de «Líbano» e por aí adiante. Há séculos que no léxico português se encontra o topónimo «Cordofão» — usem-no.

Léxico e ortografia: zona-tampão

Imagem: http://www.oddjokes.com/

Comparemos


Nas citações que se seguem, de dois jornais, a notícia é a mesma, embora os jornalistas tenham optado por um léxico diferente. No Público, optou-se por «zona-tampão», tradução directa do inglês «buffer area» ou «buffer zone»* (à semelhança de «buffer state», «Estado-tampão», designação inevitável quando a notícia é o Nepal, por exemplo), ao passo que o Diário de Notícias preferiu o mais genuíno «zona de segurança». Certo, porém, é que «zona-tampão» está correcto, bem grafado (felizmente o autor é dos jornalistas que sabem que não pode alinhar dois substantivos sem mais) e tem a vantagem de, perante ele, se nos representar mentalmente o conceito.

«Não era claro se o objectivo seria a criação de uma zona-tampão, algo que o governo dizia considerar, e se para isso seria necessária a entrada das tropas em zonas densamente povoadas onde encontrariam resistência dos combatentes palestinianos», «Tanques israelitas entram no Norte da Faixa de Gaza», Maria João Guimarães, Público, 6.07.2006, p. 22.
«Boim [Zeev Boim, um dos elementos do Gabinete de Segurança israelita] comentava assim a decisão tomada pelo Gabinete: dar luz verde ao exército para criar uma “zona de segurança” no Norte da Faixa de Gaza», «Tanques israelitas avançam no Norte da Faixa de Gaza», Lumena Raposo, Diário de Notícias, 6.07.2006, p. 12.


* «Israel entered the three abandoned settlements overnight as it expanded a week-old incursion into Gaza, carving out a temporary buffer zone to prevent Palestinian militants from firing rockets into southern Israel. The invasion is Israel’s largest operation in Gaza since withdrawing from the coastal territory less than a year ago» («Fighting heats up in northern Gaza as Israelis advance», International Herald Tribune, 6.07.2006).

Ortografia: videovigilância

Porque nos apetece

Já aqui tinha referido uma vez o que parece ser uma opção, mas opção errada, do Público de grafar a palavra «videovigilância» com hífen. «Governo regula vídeo-vigilância e separadores nos táxis» (Inês Boaventura, 7.07.2006, p. 55). Tanto no título como no corpo da notícia, a palavra aparece sempre grafada desta maneira.
Ora, à semelhança de videasta, videoalarme, videoamador, videoamadorístico, videoarte, videocâmara, videocassete, videoclipe, videoclube, videoconferência, videodisco, videoendoscopia, videofax, videofilia, videófilo, videofone, videofonograma, videofrequência, videografia, videograma, videogravador, videojogo, videojóquei, videojornal, videolaparascopia, videolocadora, videomania, videomaníaco, videoporteiro, videoteca, videotex, videotexto, videotransmissão, etc., «videovigilância» só podia ser grafado assim.

Cérebro e linguagem

Trocar de sotaque



      Com a devida vénia, reproduzo aqui na íntegra um artigo publicado no Diário de Notícias, revelador da extrema complexidade do nosso cérebro.
      «Um ataque cerebral deixou a inglesa Linda Walker, de 60 anos, com um estranho feito secundário: acordou com pronúncia da Jamaica. Os familiares nem queriam acreditar quando a empregada administrativa reformada abriu os olhos e começou a falar, sem vestígios do sotaque nasalado de Newcastle que sempre teve.
      O chamado [sic] “síndroma da pronúncia estrangeira” é muito raro e foi identificado pela primeira vez na II Guerra Mundial, quando as primeiras palavras de um soldado norueguês, após ter sido ferido na cabeça num raide aéreo inimigo, passaram a ser embrulhadas num perfeito sotaque alemão.
      “Não me consigo reconhecer. Tenho constantemente a impressão de que sou outra pessoa”, declarou a desolada Linda Walker ao jornal local Evening Chronicle. Segundo investigadores da Universidade de Oxford, esta inglesa de meia idade [sic], que viveu sempre na mesma região do país, sofre do síndroma [sic] da pronúncia estrangeira, um fenómeno por vezes observado quando as partes do cérebro ligadas à linguagem são alteradas, depois de uma convulsão cerebral.
      A doente não se apercebeu imediatamente do facto quando acordou: foi a fisioterapeuta que a questionou acerca da estranha pronúncia. Sempre que fala ao telefone, a maioria dos interlocutores identifica um nítido sotaque jamaicano — também já confundido com italiano e eslovaco» («Mulher acorda de ataque com pronúncia da Jamaica», Diário de Notícias, 5.07.2006, p. 18).

Léxico: contracapista

Para que conste

«O lesto contracapista confundiu Ludwig Marcuse (1894-1971) com Herbert Marcuse, este sim, frequentemente reivindicado como “guru” do Maio de 68. Ignorância, desleixo, avidez comercial? Seja como for, imperdoável» («Freud em corpo inteiro», António Rego Chaves, recensão ao livro Freud e a Psicanálise, de Ludwig Marcuse, Livros do Brasil, 2006, in Jornal de Negócios, 30.06.2006, p. 31). De facto, Herbert Marcuse é contemporâneo do outro, pois viveu entre 1898 e 1979, mas são duas pessoas diferentes. O que me interessa agora, porém, já adivinharam, não é isso, que se me afigura grave, naturalmente, mas a palavra «contracapista». No meio editorial, de vez em quando ouço-a. Parece, penso sempre, o nome de uma profissão, uma coisa sólida e permanente, como taxista ou taxidermista (refiro este porque conheci um). Em contrapartida, nunca ouvi falar de nenhum «badanista». Talvez que, na classificação das profissões, seja contracapista/badanista…

Penalti, penálti, penalte ou «penalty»?

Grande penalidade

      «Como em 2000, Zidane marcou de penálti», «Coincidências madrastas», Rui Hortelão, Correio da Manhã, 6.07.2006, p. 23.
      «“O fado é perder de penalty com a França”», David Mandim, Diário de Notícias, «Diário do Mundial», 6.07.2006, p. VIII.
      «Foi-se o sonho, novamente num penalty marcado por Zidane, mas fica a certeza de que esta Selecção terá sempre lugar especial no coração dos portugueses», A Bola, 6.07.2006, primeira página.
      «Um pequeno erro que deu o golo de penálti, um remate de cabeça de Figo por cima, algum domínio territorial, mas a verdade é que a Selecção voltou a perder com a França [,] que teve uma defesa de ferro», «A Bastilha não caiu», José Carlos Freitas, Record, 6.07.2006, p. 5.
«Um penalti, outra vez», Público, 6.07.2006, primeira página.
      O Dicionário da Academia regista: «penálti, pênalti (Bras.). s. m. (Do ingl. penalty). O m. q. grande penalidade
      Muitos anos antes, registava já o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado: «Penálti, s. m. No jogo do futebol, castigo consequente de lance em que um jogador comete falta dentro de determinada área do seu campo, sendo por isso a sua equipa punida com um arremesso directo da bola à rede, da distância de onze metros.»
      Só faltou encontrar uma publicação que preferisse a forma que ouço mais na boca dos falantes comuns: «penalte».
     Já na imprensa brasileira, li no Folha Online (26.06.2006): «Com gol de pênalti duvidoso nos acréscimos, Itália avança às quartas.»
      Na imprensa espanhola, e apesar de o Diccionario de la Real Academia registar a forma «penalti», lia-se no El País online: «Poco tiempo después, el delantero entraba en el área y Ricardo Carvalho cometía un penalty. Entonces Zidane ha dado un paso al frente y ha asumido el lanzamiento ante el portero con fama de ‘parapenalties’ tras su actuación ante Inglaterra» («Cuando Zidane sonríe», Javier Bragado, 5.07.2006).
Por cá, novamente, e apesar de achar incongruente, face a outras opções, que o Diário de Notícias — que já esteve a par e talvez mesmo atrás, em algum momento, do Público, e neste momento é o jornal em que melhor se escreve — prefira a forma «penalty», julgo digno de realçar que admita, justamente ao lado da citação que fiz acima, uma forma diferente numa crónica: «Perdemos e perdemos mal. Mais uma vez, um penálti, no mínimo, ultraduvidoso», Jacinto Lucas Pires, «Vitória moral», Diário de Notícias, «Diário do Mundial», 6.07.2006, p. VIII.

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