Parênteses angulares

Uma coisa, um nome

      O leitor J. Gomes pergunta-me que nome dar aos símbolos <>. Bem, já vi atribuir-se-lhes o nome de parênteses angulares ou angulosos. A juntar aos parênteses rectos — [ e ] — e aos parênteses curvos — ( e ) —, a forma ditou a designação. À mão só tenho uma abonação: «Neste capítulo, os parêntesis angulares <> são usados para representar versões ortográficas» (Língua Portuguesa, Instrumentos de Análise, Inês Duarte, Universidade Aberta, Lisboa, 2000, p. 216).

Plural dos apelidos

O nosso nome

      Embora já há algum tempo tencionasse escrever sobre este assunto, o facto de um leitor me ter escrito a perguntar a minha opinião obrigou-me a antecipar a publicação deste texto. Ainda recentemente, podia ler-se o seguinte num jornal gratuito: «Nas antigas casas da infanta D. Maria [filha de D. Manuel I] acabaria por surgir um palácio que foi propriedade dos Almeidas, descendentes do vice-rei da Índia, D. Francisco de Almeida», «Campo de Santa Clara» (Appio Sottomayor, Jornal da Região (Lisboa), p. 14). Appio Sottomayor ajuda-nos a descobrir a cidade de Lisboa e a língua, pois os apelidos têm, de facto, plural. Por influência francesa se começou a admitir o contrário, por ignorância se continuou a fazê-lo. Afonso da Maia e Carlos da Maia, recordemos, eram os Maias. Até Eça, que tanta influência recebeu da língua francesa, respeitou a índole da língua portuguesa.
      A dificuldade com que se deparam os jornalistas, os tradutores e os revisores — aqueles que têm consciência dessa realidade, que não serão muitos — é justamente a pluralização dos apelidos estrangeiros. A regra, pois, em relação a estes, é a de que se devem pluralizar os nomes próprios e os apelidos das pessoas sempre que a terminação se preste à flexão. Lembro-me de ter lido em Camilo Castelo Branco, por exemplo, «os Monizes». No caso dos apelidos terminados em s, como o meu, é simples: fica invariável. Como já se lia, de resto, no Capítulo XLV da Grammatica da Lingoagem Portuguesa, de Fernão de Oliveira, que defendia que os nomes portugueses têm plural, «tirando Domingos, Marcos e Lucas, que não variam seus números».

Kinshasa e Quinxasa

Imagem: http://www.emediawire.com
Quase cachaça

      J. Castro Pinto, no seu excelente Novo Prontuário Ortográfico, afirma que a grafia portuguesa de Kinshasa ― Quinxasa ― «não é de fácil aceitação, mas não é possível atribuir-lhe outra». Os jornalistas da revista VIP quiseram desmenti-lo: «Em Quixassa, Carla Matadinho encantou com a sua beleza. A modelo, vestida por Augustus, fez parar o trânsito na visita que fez à capital da República do Congo» (VIP, n.º 466, 21 a 27.06.2006). O s suplementar deixa-nos adivinhar que não andam a ler o prontuário de Castro Pinto. Devem ter ouvido mal...

Palavras em -agem

O mundo é composto de mudança

      Apesar de alguns dicionários registarem a palavra «personagem» como tendo dois géneros, por isso reflectir a tendência dos falantes da actualidade (não importa agora discutir se essa tendência é mal informada, como parece ser em relação a toda a língua), continuo a aceitá-la e a escrevê-la somente como sendo do género feminino. Tenho, porém, consciência da evolução da língua. Para começar, sei que no português antigo, à semelhança do espanhol dos nossos dias, os nomes em -agem, de importação francesa, eram frequentemente masculinos, e a alteração nos géneros, através da analogia, não foi um fenómeno despiciendo. Boas razões, pois, para, defendendo as minhas ideias, o fazer sem dogmatismos.

Sotavento e barlavento

Depende do vento

      Ora aqui está uma interessante hipótese etimológica para o vocábulo «barlavento». «Barlavento: nome dado à parte ocidental do Algarve; oeste. Opõe-se a sotavento. Por extensão de barlavento = lado donde sopra o vento. Do francês par le vent (?).» (Eduardo Brazão Gonçalves, Dicionário do Falar Algarvio, Região de Turismo do Algarve, 1988, p. 47). Deverão ser grafados com maiúscula quando designam as respectivas regiões.
      Em espanhol, existem os termos «sotavento» e «barlovento». Em catalão, por sua vez, há os vocábulos «sotavent», a que se opõe «sobrevent».

Terceiro Mundo

É bom saber

      «O termo» Terceiro Mundo «foi utilizado, ao que parece, pela primeira vez, pelo demógrafo francês Alfred Sauvy, inspirando-se, para o efeito, num panfleto do político gaulês J. Sieyès (Qu’est ce que le tiers état?), datado de 1789» (José Carlos Venâncio, A Dominação Colonial, Protagonismos e Heranças, Editorial Estampa, 2005, p. 61).

Banto e talibã

Pensemos

      Para a esmagadora maioria das pessoas, é como se o vocábulo «banto» fosse invariável. Embora intua que não há motivo, mas mimetismo, convém ter consciência de que se fôssemos respeitar a flexão dos nomes que importamos de outras línguas, não teríamos uma língua própria. Que interessa ao falante de português, a não ser como conhecimento, que em banto, uma língua prefixal, o vocábulo «banto» seja um plural? Importámo-lo, agora é nosso e temos de o afeiçoar à congenialidade da nossa língua. Vejamos uma frase em espanhol: «Los grupos de lengua bantú se transformaron en herreros y en su enigmático trayecto introdujeron alimentos importados de Asia.» Um tradutor deu-no-la assim: «Os grupos de língua banto transformaram-se em ferreiros e no seu enigmático trajecto introduziram alimentos importados da Ásia.» Assim, à semelhança deste, também se devia preferir «talibã(s)», como grafa o Diário de Notícias: «O ministro dos Negócios Estrangeiros paquistanês, Khursheed Kasuri, rejeitou ontem as acusações de que Islamabad estaria a apoiar os talibãs no Sul do Afeganistão» («Islamabad rejeita acusações de que está a ajudar os talibãs», Susana Salvador, 20.05.2006, p. 14). Ao contrário do Público: «Forças de segurança procuram 100 suspeitos taliban» («Combates no Sul do Afeganistão causam pelo menos 16 mortos», S. L., 16.05.2006, p. 17).

Léxico: caracoleta

Imagem: http://fotos.sapo.pt/
Boa pergunta

      «Caracoleta moura: nome que se dá à espécie de moluscos gastrópodes terrestres, cujo nome científico é Helix aspersa, Lineu. É de dimensão maior que as outras caracoletas e, em geral, os algarvios não as comem. A palavra caracoleta não vem nos dicionários. Porquê?» (Eduardo Brazão Gonçalves, Dicionário do Falar Algarvio, Região de Turismo do Algarve, 1988, p. 66). Passados quase vinte anos, ainda não temos o vocábulo «caracoleta» registado nos dicionários. Comem-nas, mas não as respeitam.

Arquivo do blogue