Terceiro Mundo

É bom saber

      «O termo» Terceiro Mundo «foi utilizado, ao que parece, pela primeira vez, pelo demógrafo francês Alfred Sauvy, inspirando-se, para o efeito, num panfleto do político gaulês J. Sieyès (Qu’est ce que le tiers état?), datado de 1789» (José Carlos Venâncio, A Dominação Colonial, Protagonismos e Heranças, Editorial Estampa, 2005, p. 61).

Banto e talibã

Pensemos

      Para a esmagadora maioria das pessoas, é como se o vocábulo «banto» fosse invariável. Embora intua que não há motivo, mas mimetismo, convém ter consciência de que se fôssemos respeitar a flexão dos nomes que importamos de outras línguas, não teríamos uma língua própria. Que interessa ao falante de português, a não ser como conhecimento, que em banto, uma língua prefixal, o vocábulo «banto» seja um plural? Importámo-lo, agora é nosso e temos de o afeiçoar à congenialidade da nossa língua. Vejamos uma frase em espanhol: «Los grupos de lengua bantú se transformaron en herreros y en su enigmático trayecto introdujeron alimentos importados de Asia.» Um tradutor deu-no-la assim: «Os grupos de língua banto transformaram-se em ferreiros e no seu enigmático trajecto introduziram alimentos importados da Ásia.» Assim, à semelhança deste, também se devia preferir «talibã(s)», como grafa o Diário de Notícias: «O ministro dos Negócios Estrangeiros paquistanês, Khursheed Kasuri, rejeitou ontem as acusações de que Islamabad estaria a apoiar os talibãs no Sul do Afeganistão» («Islamabad rejeita acusações de que está a ajudar os talibãs», Susana Salvador, 20.05.2006, p. 14). Ao contrário do Público: «Forças de segurança procuram 100 suspeitos taliban» («Combates no Sul do Afeganistão causam pelo menos 16 mortos», S. L., 16.05.2006, p. 17).

Léxico: caracoleta

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Boa pergunta

      «Caracoleta moura: nome que se dá à espécie de moluscos gastrópodes terrestres, cujo nome científico é Helix aspersa, Lineu. É de dimensão maior que as outras caracoletas e, em geral, os algarvios não as comem. A palavra caracoleta não vem nos dicionários. Porquê?» (Eduardo Brazão Gonçalves, Dicionário do Falar Algarvio, Região de Turismo do Algarve, 1988, p. 66). Passados quase vinte anos, ainda não temos o vocábulo «caracoleta» registado nos dicionários. Comem-nas, mas não as respeitam.

Tradução de «chilaba»

Dicionários

      A personagem, um judeu, na Idade Média, «vestía una sencilla chilaba negra con capucha y portaba la rodela». Como traduzir «chilaba»? Os dicionários bilingues espanhol-português, como o da Porto Editora, por exemplo, que aponta como tradução de «chilaba»… «chilaba», deixam muito a desejar. O tradutor optou por «balandrau». Vejamos o que registam os dicionários sobre este vocábulo.

«Balandrau, s. m. Vestidura antiga, com capuz e mangas largas, usada pelos Mouros» (Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coord. por José Pedro Machado).
«balandrau. s. m. (Talvez do lat. medieval *balandra, pelo provenç. balandrán). 1. Antiga peça de vestuário semelhante a um capote, com capuz e mangas largas. 2. Capa larga e comprida, sem mangas mas com aberturas para enfiar os braços, usada por certas irmandades em cerimónias religiosas» (Dicionário Houaiss).
«balandrau, s. m. capote largo e comprido; opa usada por certas irmandades religiosas; (fig.) qualquer vestimenta comprida, larga e desajeitada; redingote. (Do ant. al. wallender, «peregrino»)» (Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora, 6.ª ed.).
«balandrau. [Do lat. medieval balandrana.] S. m. 1. Opa usada por algumas irmandades em cerimônias religiosas. 2. Capa ou casaco largo e comprido. 3. Antiga vestimenta de capuz e mangas largas» (Novo Dicionário da Língua Portuguesa Aurélio, 2.ª ed.).
«balandrau (Lat. *balandra), s. m. capote largo, comprido e de mangas largas; opa usada por certas irmandades» (Dicionário Universal da Língua Portuguesa, ed. 1995).
É preciso ver, contudo, que em espanhol* também há a palavra «balandrán». Vejamos o respectivo verbete no Diccionario de la Real Academia Española: «balandrán. (Del prov. balandran, de balandrà, balancear). m. Vestidura talar ancha y con esclavina que suelen usar los eclesiásticos.
Voltemos ao espanhol. «Chilaba. (Del ár. marroquí žellaba, y este del ár. clás. ğilbāb). f. Pieza de vestir con capucha que usan los moros.» O Grande Dicionário da Língua Portuguesa (edição actualizada em 2002 do Novo Dicionário Compacto da Língua Portuguesa de António de Morais Silva, regista a forma gelaba. «Gelaba s. f. Veste comprida dos mouros.»

* E em catalão, balandram («Vesta llarga, ampla i oberta del davant, que hom duia a la baixa edat mitjana al damunt de l’altra roba» e «Vestit talar, amb esclavina o valona, que usaven els eclesiàstics»). Em inglês: «balandran. n. A wide wrap worn in the Middle Ages. Also balandrana» (Webster’s Comprehensive Dictionary).

Judeu e judaico

O judeu errante

      Na revista Elle de Julho encontrei um erro (encontrei demasiados…) muito comum entre os jornalistas e tradutores. Podia dar muitos exemplos. Vejamos a citação. «Com 18 anos, Sophie [Auster] herdou do pai o tom de pele, as raízes judias e aqueles olhos — grandes, intrigantes, misteriosos» (João Tordo, Elle, n.º 214, Julho de 2006, p. 48). «Judia» é o feminino de «judeu», e este designa o natural da Judeia, logo, as raízes serão «judaicas». Universidade Judaica, Museu Judaico de Berlim, cemitério judaico, colonato judaico, comunidade judaica, diáspora judaica, nação judaica, questão judaica… Mas povo judeu, pois claro.

AVC e cerebrovascular

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Ainda acertam…

      É comum vermos, e assim está dicionarizado, «acidente vascular cerebral» (AVC). A revista Elle engendrou outra forma: «De acordo com um estudo efectuado em Londres, comer mais do que o recomendado [fruta] — cinco doses por dia — diminui o risco de ter um acidente vascular-cerebral em 26%» («Abuse», Elle, n.º 213, Junho de 2006, p. 159). E o hífen para que serve? É verdade que existe a palavra aglutinada — e até mais correcta —, mas ao contrário, como se prefere no Brasil, onde se diz «acidente cerebrovascular». Noutras línguas é também a forma preferida: «accidente cerebrovascular», em espanhol; «accident cérébrovasculaire», em francês; «accidente cerebrovascolare», em italiano; «cerebrovascular accident», em inglês. Em catalão usam-se as duas formas: «accident cerebrovascular» e «accident vascular cerebral».

Cerebrovascular adj. 2g. MED relativo à ou próprio da rede vascular do cérebro. (Dicionário Houaiss)

De «formulaic» a «formulaico»

Então é assim…

      Nenhum dicionário de língua portuguesa, que eu saiba, regista o adjectivo «formulaico». Este facto não impede ninguém, naturalmente, de o usar, e é o que acontece com Vasco Pulido Valente, que escreveu na sua habitual crónica no Público: «Nenhum político responsável desceu antes dela de um “liberalismo” formulaico e abstracto para a dureza e a impopularidade do concreto», «O “líder da transição”?» (26.05.2006, p. 60). Vindo do latim formula, o inglês formulaic estava mesmo a pedir, dir-se-á, bastou acrescentar um o, ser nacionalizado. Vejamos a definição num qualquer dicionário de inglês: «Formulaic: characterized by or in accordance with some formula.» Em contexto: «A considerable proportion of our everyday language is ‘formulaic’. It is predictable in form, idiomatic, and seems to be stored in fixed, or semi-fixed, chunks. This book explores the nature and purposes of formulaic language, and looks for patterns across the research findings from the fields of discourse analysis, first language acquisition, language pathology and applied linguistics.»
      Uma questão se impõe, porém: era necessário aportuguesar esta palavra, ou mesmo adoptar o vocábulo inglês? Nem uma coisa nem outra, parece-me. Já temos o adjectivo «formular» (que também existe no espanhol*), que significa rigorosamente o mesmo. Tanto é assim que o Dicionário Houaiss regista a locução «estilo formular».
      Retomo as definições do inglês. No Oxford Advanced Learner’s Dictionary, pode ler-se: «formulaic adj. (formal) made up of fixed patterns of words or ideas: Traditional stories make use of formulaic expressions like ‘Once upon a time…’» Neste caso, não hesitaria em usar o adjectivo «sacramental», há muito dessacralizado para estas necessidades expressivas. Também já vi bons tradutores verterem o formulaic como «formal». Deve atender-se, é evidente, ao contexto.
      Para acabar, vejo que formulaic também significa «lacking in creativity», o que não se aplica a Vasco Pulido Valente e, espero, a mim também não.

* O Diccionario de la Real Academia Española não regista «formulaico». O Oxford Spanish Dictionary, que os meus leitores já conhecem de outras andanças, regista-o na entrada do adjectivo «formulaic», o que é causa ou efeito, vá-se lá saber, de o ver usado em muitos textos espanhóis.

Tradução de «adicción»

Contas mal feitas

      Apesar de o Dicionário da Academia, entre outros, registar o vocábulo «adição» no sentido de dependência («Adição. Psiq. Compulsão apresentada por determinados indivíduos para repetir os mesmos comportamentos gratificantes, consumindo quantidades crescentes de drogas como tabaco, álcool, cocaína...»), não me parece a forma mais acertada de traduzir o vocábulo espanhol «adicción», em especial se não estivermos perante uma obra técnica. A citação que se segue, da recensão crítica de Paulo Nogueira ao livro Autobiografia de Marilyn Monroe, de Rafael Reig (Bico de Pena, 2006, trad. Afonso Leonardo), dá conta dessa estranheza:
      «Oxalá a Bico de Pena edite outro livro dele, Sangre a Borbotones — mas com mais cuidado na tradução. “O casamento causa adição”, como vem na página 29, é um disparate. O correcto será “o casamento vicia” (a não ser que a “adição” fosse a de um pimpolho, o que não é o caso)» (Expresso/Actual, 17.06.2006, p. 67).

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