Tradução de «chilaba»

Dicionários

      A personagem, um judeu, na Idade Média, «vestía una sencilla chilaba negra con capucha y portaba la rodela». Como traduzir «chilaba»? Os dicionários bilingues espanhol-português, como o da Porto Editora, por exemplo, que aponta como tradução de «chilaba»… «chilaba», deixam muito a desejar. O tradutor optou por «balandrau». Vejamos o que registam os dicionários sobre este vocábulo.

«Balandrau, s. m. Vestidura antiga, com capuz e mangas largas, usada pelos Mouros» (Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coord. por José Pedro Machado).
«balandrau. s. m. (Talvez do lat. medieval *balandra, pelo provenç. balandrán). 1. Antiga peça de vestuário semelhante a um capote, com capuz e mangas largas. 2. Capa larga e comprida, sem mangas mas com aberturas para enfiar os braços, usada por certas irmandades em cerimónias religiosas» (Dicionário Houaiss).
«balandrau, s. m. capote largo e comprido; opa usada por certas irmandades religiosas; (fig.) qualquer vestimenta comprida, larga e desajeitada; redingote. (Do ant. al. wallender, «peregrino»)» (Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora, 6.ª ed.).
«balandrau. [Do lat. medieval balandrana.] S. m. 1. Opa usada por algumas irmandades em cerimônias religiosas. 2. Capa ou casaco largo e comprido. 3. Antiga vestimenta de capuz e mangas largas» (Novo Dicionário da Língua Portuguesa Aurélio, 2.ª ed.).
«balandrau (Lat. *balandra), s. m. capote largo, comprido e de mangas largas; opa usada por certas irmandades» (Dicionário Universal da Língua Portuguesa, ed. 1995).
É preciso ver, contudo, que em espanhol* também há a palavra «balandrán». Vejamos o respectivo verbete no Diccionario de la Real Academia Española: «balandrán. (Del prov. balandran, de balandrà, balancear). m. Vestidura talar ancha y con esclavina que suelen usar los eclesiásticos.
Voltemos ao espanhol. «Chilaba. (Del ár. marroquí žellaba, y este del ár. clás. ğilbāb). f. Pieza de vestir con capucha que usan los moros.» O Grande Dicionário da Língua Portuguesa (edição actualizada em 2002 do Novo Dicionário Compacto da Língua Portuguesa de António de Morais Silva, regista a forma gelaba. «Gelaba s. f. Veste comprida dos mouros.»

* E em catalão, balandram («Vesta llarga, ampla i oberta del davant, que hom duia a la baixa edat mitjana al damunt de l’altra roba» e «Vestit talar, amb esclavina o valona, que usaven els eclesiàstics»). Em inglês: «balandran. n. A wide wrap worn in the Middle Ages. Also balandrana» (Webster’s Comprehensive Dictionary).

Judeu e judaico

O judeu errante

      Na revista Elle de Julho encontrei um erro (encontrei demasiados…) muito comum entre os jornalistas e tradutores. Podia dar muitos exemplos. Vejamos a citação. «Com 18 anos, Sophie [Auster] herdou do pai o tom de pele, as raízes judias e aqueles olhos — grandes, intrigantes, misteriosos» (João Tordo, Elle, n.º 214, Julho de 2006, p. 48). «Judia» é o feminino de «judeu», e este designa o natural da Judeia, logo, as raízes serão «judaicas». Universidade Judaica, Museu Judaico de Berlim, cemitério judaico, colonato judaico, comunidade judaica, diáspora judaica, nação judaica, questão judaica… Mas povo judeu, pois claro.

AVC e cerebrovascular

Imagem: http://www.sgeier.net
Ainda acertam…

      É comum vermos, e assim está dicionarizado, «acidente vascular cerebral» (AVC). A revista Elle engendrou outra forma: «De acordo com um estudo efectuado em Londres, comer mais do que o recomendado [fruta] — cinco doses por dia — diminui o risco de ter um acidente vascular-cerebral em 26%» («Abuse», Elle, n.º 213, Junho de 2006, p. 159). E o hífen para que serve? É verdade que existe a palavra aglutinada — e até mais correcta —, mas ao contrário, como se prefere no Brasil, onde se diz «acidente cerebrovascular». Noutras línguas é também a forma preferida: «accidente cerebrovascular», em espanhol; «accident cérébrovasculaire», em francês; «accidente cerebrovascolare», em italiano; «cerebrovascular accident», em inglês. Em catalão usam-se as duas formas: «accident cerebrovascular» e «accident vascular cerebral».

Cerebrovascular adj. 2g. MED relativo à ou próprio da rede vascular do cérebro. (Dicionário Houaiss)

De «formulaic» a «formulaico»

Então é assim…

      Nenhum dicionário de língua portuguesa, que eu saiba, regista o adjectivo «formulaico». Este facto não impede ninguém, naturalmente, de o usar, e é o que acontece com Vasco Pulido Valente, que escreveu na sua habitual crónica no Público: «Nenhum político responsável desceu antes dela de um “liberalismo” formulaico e abstracto para a dureza e a impopularidade do concreto», «O “líder da transição”?» (26.05.2006, p. 60). Vindo do latim formula, o inglês formulaic estava mesmo a pedir, dir-se-á, bastou acrescentar um o, ser nacionalizado. Vejamos a definição num qualquer dicionário de inglês: «Formulaic: characterized by or in accordance with some formula.» Em contexto: «A considerable proportion of our everyday language is ‘formulaic’. It is predictable in form, idiomatic, and seems to be stored in fixed, or semi-fixed, chunks. This book explores the nature and purposes of formulaic language, and looks for patterns across the research findings from the fields of discourse analysis, first language acquisition, language pathology and applied linguistics.»
      Uma questão se impõe, porém: era necessário aportuguesar esta palavra, ou mesmo adoptar o vocábulo inglês? Nem uma coisa nem outra, parece-me. Já temos o adjectivo «formular» (que também existe no espanhol*), que significa rigorosamente o mesmo. Tanto é assim que o Dicionário Houaiss regista a locução «estilo formular».
      Retomo as definições do inglês. No Oxford Advanced Learner’s Dictionary, pode ler-se: «formulaic adj. (formal) made up of fixed patterns of words or ideas: Traditional stories make use of formulaic expressions like ‘Once upon a time…’» Neste caso, não hesitaria em usar o adjectivo «sacramental», há muito dessacralizado para estas necessidades expressivas. Também já vi bons tradutores verterem o formulaic como «formal». Deve atender-se, é evidente, ao contexto.
      Para acabar, vejo que formulaic também significa «lacking in creativity», o que não se aplica a Vasco Pulido Valente e, espero, a mim também não.

* O Diccionario de la Real Academia Española não regista «formulaico». O Oxford Spanish Dictionary, que os meus leitores já conhecem de outras andanças, regista-o na entrada do adjectivo «formulaic», o que é causa ou efeito, vá-se lá saber, de o ver usado em muitos textos espanhóis.

Tradução de «adicción»

Contas mal feitas

      Apesar de o Dicionário da Academia, entre outros, registar o vocábulo «adição» no sentido de dependência («Adição. Psiq. Compulsão apresentada por determinados indivíduos para repetir os mesmos comportamentos gratificantes, consumindo quantidades crescentes de drogas como tabaco, álcool, cocaína...»), não me parece a forma mais acertada de traduzir o vocábulo espanhol «adicción», em especial se não estivermos perante uma obra técnica. A citação que se segue, da recensão crítica de Paulo Nogueira ao livro Autobiografia de Marilyn Monroe, de Rafael Reig (Bico de Pena, 2006, trad. Afonso Leonardo), dá conta dessa estranheza:
      «Oxalá a Bico de Pena edite outro livro dele, Sangre a Borbotones — mas com mais cuidado na tradução. “O casamento causa adição”, como vem na página 29, é um disparate. O correcto será “o casamento vicia” (a não ser que a “adição” fosse a de um pimpolho, o que não é o caso)» (Expresso/Actual, 17.06.2006, p. 67).

Português antigo

A voz do povo

      A minha sogra, uma pequena proprietária rural brasonada que de vez em quando chama provinciano ao meu sogro (o que é, a par de um insulto leve, de uma notável intuição etimológica, pois que Proença, que é o apelido dele, deriva do provençal «Provincia-»), usa o muito popular e arcaico adjectivo «rudo». Se o arroz não está ainda cozido, por exemplo, ela diz que «o arroz está rudo». Na evolução da língua, «rude» chegou, de facto, a ser biforme.

Mas e vírgula

Gaudium certaminis

      Para quem gosta de classificações. Nesta questão, dividimo-nos em quatro grupos: os que sabemos que, por vezes, antes de «mas» deve estar uma vírgula; os que, ignorando-o, nunca a usam; os que têm a certeza de que antes de um «mas» deve haver sempre uma vírgula e, por fim, os que sabem que, ou antes ou depois, deve haver uma vírgula. Tal como algumas das nossas criancinhas, astuciosas, que escrevem os acentos gráficos na vertical, para que o professor decida para que lado devem cair. Vejamos um exemplo da imprensa.
      «Os vikings querem saber voar mas, quem voa mais alto é o amor e é a filha do grande líder bárbaro que vai, no fundo, ganhar asas e sair do ninho», «Os vikings que querem voar», Sofia C. de Castro, Correio da Manhã, 8.06.2006, p. 55.
      Neste caso, a oração coordenada adversativa deve ser separada da anterior por meio de vírgula, que fica antes da conjunção. Só assim não seria se, em vez de ligar orações, ligasse elementos de uma frase (O “leito” era uma estranha mas convidativa combinação entre o futon e uma cama ocidental.) ou desempenhasse uma função enfático-contrastiva (Vai mas é dar uma volta ao bilhar grande, palonço!).

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