Português antigo

A voz do povo

      A minha sogra, uma pequena proprietária rural brasonada que de vez em quando chama provinciano ao meu sogro (o que é, a par de um insulto leve, de uma notável intuição etimológica, pois que Proença, que é o apelido dele, deriva do provençal «Provincia-»), usa o muito popular e arcaico adjectivo «rudo». Se o arroz não está ainda cozido, por exemplo, ela diz que «o arroz está rudo». Na evolução da língua, «rude» chegou, de facto, a ser biforme.

Mas e vírgula

Gaudium certaminis

      Para quem gosta de classificações. Nesta questão, dividimo-nos em quatro grupos: os que sabemos que, por vezes, antes de «mas» deve estar uma vírgula; os que, ignorando-o, nunca a usam; os que têm a certeza de que antes de um «mas» deve haver sempre uma vírgula e, por fim, os que sabem que, ou antes ou depois, deve haver uma vírgula. Tal como algumas das nossas criancinhas, astuciosas, que escrevem os acentos gráficos na vertical, para que o professor decida para que lado devem cair. Vejamos um exemplo da imprensa.
      «Os vikings querem saber voar mas, quem voa mais alto é o amor e é a filha do grande líder bárbaro que vai, no fundo, ganhar asas e sair do ninho», «Os vikings que querem voar», Sofia C. de Castro, Correio da Manhã, 8.06.2006, p. 55.
      Neste caso, a oração coordenada adversativa deve ser separada da anterior por meio de vírgula, que fica antes da conjunção. Só assim não seria se, em vez de ligar orações, ligasse elementos de uma frase (O “leito” era uma estranha mas convidativa combinação entre o futon e uma cama ocidental.) ou desempenhasse uma função enfático-contrastiva (Vai mas é dar uma volta ao bilhar grande, palonço!).

Tradução: «gavilán»

Gavilanes e gaviões

      O leitor João Lopes pergunta-me se conheço a palavra portuguesa correspondente ao vocábulo espanhol gavilán*, referida a espada. Não conheço nem encontro em lado nenhum. Contudo, não me parece que se possa traduzir por «copos», como sugere, pois, sendo embora certo que este vocábulo designa a parte da espada que defende a mão, na espada celta que me descreve não há propriamente copos. Vejamos. Diz-se «copos» (e em espanhol, «conchas») por catacrese, pois que essa parte por vezes é semelhante a uma calota, ou pelo menos circular e convexa, se aberta. Sei é que alguns agricultores até há pouco tempo designavam a orelha, peta ou bico do sacho por gavião. Sugiro que traduza por extremidades ou pontas da guarnição, tanto mais que se trata de uma legenda que irá explicar a imagem da espada.

* Em francês sei que é quillon («Chacune des deux tiges formant la croix dans la garde de l’épée»), vocábulo que o inglês importou.

Estrangeirismo: «faisandée»

Imagem: http://www.wga.hu/
As palavras dos outros

      Temos a família completa: o faisão, a faisoa (ou faisã) e o pequeno faisanoto (1). Uma família feliz, dir-se-ia, não fosse os Franceses terem inventado, para gáudio papilar de alguns, o faisandée — que é isto tudo mas morto e quase podre. E é esta palavra, faisandée, que nos (faz) falta. Uma peça de caça faisandée — oxidada ao ar livre, quase pútrida — era, antigamente, iguaria apenas apreciada na mesa opípara dos reis.
      E a palavra é muito usada em Portugal? Talvez não entre os frequentadores do McDonald’s, suponho, mas em certos restaurantes, sim. E na imprensa? Ainda na edição do dia 13 do corrente do Diário do Sul (também leio o Saigon News) li num texto da autoria do escanção João Marques o verbo correspondente: faisander. Na literatura? Sim, n’Os Maias, mas não referido a caça… «Entre os Amigos, no Ramalhete, sobretudo na frisa, discutia-se às vezes Raquel, e as opiniões discordavam. Taveira achava-a “deliciosa!” — e dizia-o rilhando o dente: ao marquês não deixava de parecer apetitosa, para uma vez, aquela carnezinha faisandée de mulher de trinta anos: Cruges chamava-lhe uma “lambisgóia relambória”.»

      (1) Também os Franceses têm as correspondentes palavras: faisan, faisanne (ou faisande) e faisandeau. Os Espanhóis não se podem gabar do mesmo, pois só têm faisán e faisana. O étimo é grego, embora nos tenha chegado através do latino phasianu-, provavelmente intermediado pelo provençal. Conta-se que esta ave existia somente na Cólquida, junto ao rio Fásis, donde tomou o nome. (Sim, Camões refere n’Os Lusíadas este rio: «Ó famoso Pompeio, não te pene/De teus feitos ilustres a ruína,/ Nem ver que a justa Némesis ordene/Ter teu sogro de ti vitória Dina,/Posto que o frio Fásis, ou Siene,/ Que para nenhum cabo a sombra inclina,/O Bootes gelado e a linha ardente,/Temessem o teu nome geralmente.») Ao menos o faisão, seja qual for a sua origem, pode ver-se e, o que é melhor, comer-se, o mesmo não se podendo afirmar do fabuloso τραγέλαφος, como é referido por Aristóteles, e entre os autores latinos hircocervus, ou tragélafo (como se lê na História Natural de Plínio), que é a mera transcrição do grego, que teria existido também junto do mesmo rio, actualmente com o nome de Rion, no Cáucaso, perto do desfiladeiro de Mamisson.

Imprensa estrangeira

Ignorância sem fronteiras

      As leis nazis proibiam, escrevia recentemente o respeitabilíssimo The Guardian, o casamento de judeus com aliens. Este e outros desconchavos, que nos fazem voltar retemperados e gratos ao seio da imprensa indígena, podem ler-se no magnífico Regret the Error. Recomendável.

Léxico: cambão

Dr. Moscambilha

      Embora a acepção do vocábulo «cambão» mais conhecida seja, porventura, a de «conluio prévio entre marchantes, em leilão de gado ou compradores em quaisquer leilões, com o fim de rebaixar ou altear preços, açambarcando a praça e dividindo depois entre si os lucros», a verdade é que, entre muitas outras acepções, também se encontra a de «reunião de indivíduos abusivamente instalados nos corredores e dependências dos tribunais e aí exercendo corretagem de serviços forenses ludibriando os pleiteantes». Para esta última, temos uma abonação do Público:
      «José António Barreiros, causídico experiente, confirma as suspeitas do “agenciamento de clientela”, vulgarmente conhecido por cambão praticado naquele tribunal [da Boa-Hora]. Resumindo o esquema, os advogados pagam generosas gratificações aos funcionários que lhes arranjem clientes», «Os advogados “com a devida vénia…”», Paula Torres de Carvalho, 15.06.2006, p. 10.

Estrangeirismo: «blink»

Lampejos

      Inauguro com este post um outro tipo de olhar sobre a imprensa: o de recensear, dentro do meu horizonte de observação, os termos estrangeiros que vão sendo propostos para designar novas realidades. Se é verdade que muita da inovação da nossa língua passa pela adaptação dos estrangeirismos que vão surgindo, não deixa de se lamentar as escassas propostas de criação de vocábulos ou a adopção de vocábulos equivalentes. Isto deve-se também, ao que suponho, às abstrusas criações do passado e ao escárnio a que foram sujeitas.
      «A Clear Channel, a maior rede de rádios dos Estados Unidos, está a estudar, com markteers e anunciantes, a possibilidade de vir a lançar spots publicitários de um segundo. Os chamados blinks, que significa algo como “clarão” ou “piscadela de olho”, podem ser usados entre as músicas e até já há quem arrisque a ideia de os colocar entre as notícias» («Rádio americana estuda spots de um segundo», Público, 15.06.2006, p. 47).

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