Tradução: «gavilán»

Gavilanes e gaviões

      O leitor João Lopes pergunta-me se conheço a palavra portuguesa correspondente ao vocábulo espanhol gavilán*, referida a espada. Não conheço nem encontro em lado nenhum. Contudo, não me parece que se possa traduzir por «copos», como sugere, pois, sendo embora certo que este vocábulo designa a parte da espada que defende a mão, na espada celta que me descreve não há propriamente copos. Vejamos. Diz-se «copos» (e em espanhol, «conchas») por catacrese, pois que essa parte por vezes é semelhante a uma calota, ou pelo menos circular e convexa, se aberta. Sei é que alguns agricultores até há pouco tempo designavam a orelha, peta ou bico do sacho por gavião. Sugiro que traduza por extremidades ou pontas da guarnição, tanto mais que se trata de uma legenda que irá explicar a imagem da espada.

* Em francês sei que é quillon («Chacune des deux tiges formant la croix dans la garde de l’épée»), vocábulo que o inglês importou.

Estrangeirismo: «faisandée»

Imagem: http://www.wga.hu/
As palavras dos outros

      Temos a família completa: o faisão, a faisoa (ou faisã) e o pequeno faisanoto (1). Uma família feliz, dir-se-ia, não fosse os Franceses terem inventado, para gáudio papilar de alguns, o faisandée — que é isto tudo mas morto e quase podre. E é esta palavra, faisandée, que nos (faz) falta. Uma peça de caça faisandée — oxidada ao ar livre, quase pútrida — era, antigamente, iguaria apenas apreciada na mesa opípara dos reis.
      E a palavra é muito usada em Portugal? Talvez não entre os frequentadores do McDonald’s, suponho, mas em certos restaurantes, sim. E na imprensa? Ainda na edição do dia 13 do corrente do Diário do Sul (também leio o Saigon News) li num texto da autoria do escanção João Marques o verbo correspondente: faisander. Na literatura? Sim, n’Os Maias, mas não referido a caça… «Entre os Amigos, no Ramalhete, sobretudo na frisa, discutia-se às vezes Raquel, e as opiniões discordavam. Taveira achava-a “deliciosa!” — e dizia-o rilhando o dente: ao marquês não deixava de parecer apetitosa, para uma vez, aquela carnezinha faisandée de mulher de trinta anos: Cruges chamava-lhe uma “lambisgóia relambória”.»

      (1) Também os Franceses têm as correspondentes palavras: faisan, faisanne (ou faisande) e faisandeau. Os Espanhóis não se podem gabar do mesmo, pois só têm faisán e faisana. O étimo é grego, embora nos tenha chegado através do latino phasianu-, provavelmente intermediado pelo provençal. Conta-se que esta ave existia somente na Cólquida, junto ao rio Fásis, donde tomou o nome. (Sim, Camões refere n’Os Lusíadas este rio: «Ó famoso Pompeio, não te pene/De teus feitos ilustres a ruína,/ Nem ver que a justa Némesis ordene/Ter teu sogro de ti vitória Dina,/Posto que o frio Fásis, ou Siene,/ Que para nenhum cabo a sombra inclina,/O Bootes gelado e a linha ardente,/Temessem o teu nome geralmente.») Ao menos o faisão, seja qual for a sua origem, pode ver-se e, o que é melhor, comer-se, o mesmo não se podendo afirmar do fabuloso τραγέλαφος, como é referido por Aristóteles, e entre os autores latinos hircocervus, ou tragélafo (como se lê na História Natural de Plínio), que é a mera transcrição do grego, que teria existido também junto do mesmo rio, actualmente com o nome de Rion, no Cáucaso, perto do desfiladeiro de Mamisson.

Imprensa estrangeira

Ignorância sem fronteiras

      As leis nazis proibiam, escrevia recentemente o respeitabilíssimo The Guardian, o casamento de judeus com aliens. Este e outros desconchavos, que nos fazem voltar retemperados e gratos ao seio da imprensa indígena, podem ler-se no magnífico Regret the Error. Recomendável.

Léxico: cambão

Dr. Moscambilha

      Embora a acepção do vocábulo «cambão» mais conhecida seja, porventura, a de «conluio prévio entre marchantes, em leilão de gado ou compradores em quaisquer leilões, com o fim de rebaixar ou altear preços, açambarcando a praça e dividindo depois entre si os lucros», a verdade é que, entre muitas outras acepções, também se encontra a de «reunião de indivíduos abusivamente instalados nos corredores e dependências dos tribunais e aí exercendo corretagem de serviços forenses ludibriando os pleiteantes». Para esta última, temos uma abonação do Público:
      «José António Barreiros, causídico experiente, confirma as suspeitas do “agenciamento de clientela”, vulgarmente conhecido por cambão praticado naquele tribunal [da Boa-Hora]. Resumindo o esquema, os advogados pagam generosas gratificações aos funcionários que lhes arranjem clientes», «Os advogados “com a devida vénia…”», Paula Torres de Carvalho, 15.06.2006, p. 10.

Estrangeirismo: «blink»

Lampejos

      Inauguro com este post um outro tipo de olhar sobre a imprensa: o de recensear, dentro do meu horizonte de observação, os termos estrangeiros que vão sendo propostos para designar novas realidades. Se é verdade que muita da inovação da nossa língua passa pela adaptação dos estrangeirismos que vão surgindo, não deixa de se lamentar as escassas propostas de criação de vocábulos ou a adopção de vocábulos equivalentes. Isto deve-se também, ao que suponho, às abstrusas criações do passado e ao escárnio a que foram sujeitas.
      «A Clear Channel, a maior rede de rádios dos Estados Unidos, está a estudar, com markteers e anunciantes, a possibilidade de vir a lançar spots publicitários de um segundo. Os chamados blinks, que significa algo como “clarão” ou “piscadela de olho”, podem ser usados entre as músicas e até já há quem arrisque a ideia de os colocar entre as notícias» («Rádio americana estuda spots de um segundo», Público, 15.06.2006, p. 47).

Léxico: salangana

Imagem: http://www.kiushun.com/
Andorinha?

      Há quem pense que a sopa de ninho de andorinha dos restaurantes chineses é só um nome, como bacalhau à Brás ou amêijoas à Bulhão Pato. A andorinha, ave tão simpática, estaria ali apenas para atrair os clientes. Há quem, por outro lado, à simples evocação do nome pense logo em canja de galinha ou de pombo. Bem, na verdade não é exactamente de uma andorinha que se trata, mas da salangana (Collocalia esculenta), palavra que provém do malaio. Quanto ao conteúdo — desiludam-se os poucos portugueses que ainda não foram a um restaurante chinês —, é debalde que se procurará naquele caldo espesso uma coxa rotunda ou o peito carnudo da referida ave. O que nós comemos é mesmo o ninho, isto é, uma amálgama de algas, que serve para construir o ninho, normalmente em zonas alcantiladas na costa, com a saliva da salangana. Não é uma maravilha? Os devoradores de caracóis e caracoletas que se abstenham de comentários.

Léxico de época

Estas palavras que nos couberam…

Na recensão crítica do romance Camilo Broca, de Mário Cláudio, escreve Eduardo Pitta: «Do mesmo passo, certo pendor [de Mário Cláudio] para o léxico “de época” (quantas vezes actual, simplesmente omisso do português corrente pela cada vez maior rarefacção da fala e da literatura) empresta adequada tonalidade à intriga» (Mil Folhas/Público, 10.06.2006, p. 5). O melhor de tudo — e apenas surpreendente na medida em que os críticos nos habituaram a esperar outra coisa — é que o léxico do próprio crítico é rico, multiforme, adequado ao que pretende descrever, e a própria escrita é clara. Mesmo quando tem de usar um termo técnico, Eduardo Pitta é pedagógico: «[…] controlo da narrativa autodiegética, aquela em que o narrador se coloca num tempo ulterior ao da história que conta […]». Alguns exemplos de vocábulos e locuções usados pelo crítico, que também é escritor e co-autor de um blogue: inconcluso, «defensores estrénuos», querela, «autor consumado», avoengos, «de viés», interstícios, estúrdia, corrécio, truculência, lampejo, etc. Palavras, algumas, que já estamos desacostumados de ler na nossa imprensa. Um exemplo a seguir pelos críticos.

Português antigo

A língua à mesa

      Nessa altura eu não media 1,81, como agora. Ela sim, era a mais alta da turma; fazia, parecia-me então, duas de mim. Mas tinha um problema notório: até à 2.ª classe, foi incapaz, quer sob o efeito de blandícias quer sob a ameaça de sevícias, de pronunciar a palavra «mesa». Só muito depois é que eu soube que até ao século XVI o povo nasalava a palavra: mensa. Tal como ela. Nunca mais tive notícias da Amélia, mas quem sabe se não é agora professora de Linguística?

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