Léxico: amnésia anterógrada

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Memórias

      Há poucas semanas, a mãe de uma amiga minha desmaiou subitamente. Transportada para um hospital, quando voltou a si não sabia onde estava, o que era natural, nem o que tinha acontecido. Com receio de problemas mais graves, a filha fazia-lhe perguntas sobre factos da vida dela. A memória parecia estar em perfeitas condições. Eis que, a determinada altura, perguntou à filha que dia era. A filha disse-lhe. Passados uns minutos de uma conversa que se revelara coerente, eis que voltou a perguntar onde estava, porquê e que dia era. Informada, a conversa prosseguiu normalmente — até que voltou a fazer a mesma pergunta: onde estou, porquê e que dia é? É o que em medicina se designa por amnésia anterógrada, que é uma inibição dos mecanismos de consolidação da memória recente.

Léxico: acaburro

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Para ser mais preciso…

      Amanhã, os produtores de cereja de Nunes e Romariz, no sopé da serra de Nogueira, no concelho de Vinhais, vão até Bragança acaburro, numa recriação da Rota da Cereja, como se fazia antigamente. Sim, porque se os animais são asininos, como o competente repórter da Antena 1 salientou, não vão a cavalo. Estou a brincar.

Fonética: ourives

Ourives e pratives
 
      Para um leigo, o vocábulo «ourives» parece ter origem árabe, não é? Mas não: vem do latim «aurifice-». A primeira alteração fonética ocorrida, e que é comum na passagem do latim para o português, foi a fricativa surda (f) passar a sonora (v), e depois o c converter-se em z, com queda do e final, o que deu ourivez. E assim se escreveu durante muito tempo, até que a ortografia oficial instituiu o actual «ourives». Mais tarde, entrou na língua o culto «aurífice» (a par de aurificia, aurificina, aurifício, etc.). Alguns dicionários registam a locução «ourives de prata», no que ficaríamos em desvantagem, poderia parecer, em relação ao espanhol, que tem o «platero». Contudo, a nossa língua regista também o vocábulo «pratives», que há poucas semanas sugeri a alguém que usasse numa tradução. Se temos as palavras, para quê tê-las a ganhar pó e caruncho nos vetustos dicionários?


Léxico: faloa

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Vai falando

      A criatividade no campo linguístico é espantosa. José Pedro Machado registou no concelho da Maia o vocábulo «faloa» para designar o instrumento de latão, em feitio de corneta, para se falar por ele. Claro que foi formado a partir do verbo falar, nada mais simples.

Género e sexo

O que se diz

      Amélia Pais escreveu-me: «Amigo: oiço sistematicamente falar de igualdade de géneros (homem-mulher) quando se discute a lei de paridade. Ora, parece-me que o que está em causa é a igualdade de sexos ou a não discriminação de sexos... Ainda agora ouvi Manuel Alegre falar de igualdade de géneros... Que me diz?» Pois digo que devíamos deixar os géneros para a gramática e para a mercearia. Sempre se disse e escreveu «igualdade entre homem e mulher», para quê complicar agora? Ainda ontem li no jornal Público: «“Como é que um Presidente há seis meses não tinha nada a dizer [sobre questões de género] e agora tem uma doutrina inteira?”» («BE acusa Cavaco de insultar as mulheres», 8.06.2006, p. 9). Repare que o acrescento parentético é da autoria do jornalista. Que também há-de ser um ser humano, bem entendido, e como tal permeável aos modos de dizer da sociedade em que se insere — mas devia policiar mais a escrita. O sermo vulgaris para a plebe e os chavões políticos para os políticos.


Léxico: «arça»

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Brinco a sério


      Também eu queria, como Bocage disse de si, afamar-me por mais alta empresa. Pode ser que tenha criado um hápax com o termo «enfarna», mas não queria ficar por aqui. A palavra que abordo hoje não a vejo registada em muitos dicionários. Designa a parte do brinco que o prende à orelha — a arça.

      Hápax s.m. 2g. palavra ou expressão de que só existe uma única abonação nos registos da língua.


Léxico: cadava

Só para lembrar

      A parte das plantas lenhosas que fica de pé depois de uma queimada ou incêndio tem o nome de «cadava» (origem do nome do topónimo Cadaval, ao que parece.) A palavra veio-nos do espanhol cádava, que o dicionário da Real Academia Española diz ser um «tronco seco o chamuscado de árgoma o tojo», ou seja, dois arbustos.

Utilidades: glossário de enxadrismo

Saber mais

      Lembram-se do texto que aqui publiquei sobre o escaque («Léxico: escaque; figura: catacrese»), o nome dado a cada uma das casas do tabuleiro de xadrez? Está agora disponível na Internet uma Terminologia dels escacs que contém 133 denominações em catalão próprias do jogo de xadrez, definidas e com as suas equivalências em castelhano, francês, inglês e alemão. Toda a informação procede do Diccionari general de l’esport que o TERMCAT está a elaborar e que prevê editar no próximo ano.

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