Léxico: «arça»

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Brinco a sério


      Também eu queria, como Bocage disse de si, afamar-me por mais alta empresa. Pode ser que tenha criado um hápax com o termo «enfarna», mas não queria ficar por aqui. A palavra que abordo hoje não a vejo registada em muitos dicionários. Designa a parte do brinco que o prende à orelha — a arça.

      Hápax s.m. 2g. palavra ou expressão de que só existe uma única abonação nos registos da língua.


Léxico: cadava

Só para lembrar

      A parte das plantas lenhosas que fica de pé depois de uma queimada ou incêndio tem o nome de «cadava» (origem do nome do topónimo Cadaval, ao que parece.) A palavra veio-nos do espanhol cádava, que o dicionário da Real Academia Española diz ser um «tronco seco o chamuscado de árgoma o tojo», ou seja, dois arbustos.

Utilidades: glossário de enxadrismo

Saber mais

      Lembram-se do texto que aqui publiquei sobre o escaque («Léxico: escaque; figura: catacrese»), o nome dado a cada uma das casas do tabuleiro de xadrez? Está agora disponível na Internet uma Terminologia dels escacs que contém 133 denominações em catalão próprias do jogo de xadrez, definidas e com as suas equivalências em castelhano, francês, inglês e alemão. Toda a informação procede do Diccionari general de l’esport que o TERMCAT está a elaborar e que prevê editar no próximo ano.

Estrangeirismo: «media»

Algum dia

      Aguardo com expectativa benévola o momento em que o Diário de Notícias se decida a escrever o estrangeirismo media como deve ser: como estrangeirismo que é, devendo destacá-lo como tal. O uso do itálico é de regra, parece-me. O jornal Público, pelo contrário, tem uma prática consistente de o grafar em itálico: media. O Expresso, por sua vez, grafa-o entre aspas: «media». Como alternativa, o Diário de Notícias pode aportuguesá-lo, como eu já faço: «os média».
      Um dia, no programa Acontece, Carlos Pinto Coelho, politicamente incorrecto, corrigiu um entrevistado: «Ó senhor professor, não diga “mídia”, diga “média”!» Esse é um dos problemas: como recebemos a palavra do inglês, há quem não veja nela um latinismo, tão puro como «curriculum» o é. Ora, sendo um plural, não podemos — mas ouvimos, meus senhores! — dizer «um media», sob pena de nos julgarem uns grunhos pouco lidos. Devemos dizer e escrever «um medium» (exactamente: como se estivéssemos a falar do professor Karamba), como o Público também faz: «Os blogues surgiram em massa, como um “medium rebelde”, sem regras e ao alcance de qualquer um» (Público, «Criada agência de blogues para fornecer conteúdos para jornais», Catarina Homem Marques, 11.4.2006, p. 47.) Tal como curriculacurriculum. Logo, o curriculum, os curricula; o currículo, os currículos; o medium, os media; o médium; os média. Claro, já sei: o português não tem plurais terminados em -a. Por outro lado, temos um plural de «médium»: «médiuns». Tudo visto, creio que é claro para todos que não podemos alterar o latim, isso é puro disparate, mas podemos e devemos moldar o termo em português.

Traduções

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A calzón quitado

      Por uma qualquer razão misteriosa, mas que decerto fará parte dos arcanos do ministro Mário Lino, em Portugal toda a gente se acha habilitada para traduzir do espanhol. De vez em quando, vou, modestamente, aconselhando alguma prudência e muito estudo, mas ninguém me ouve. Ontem mesmo, chegou-me uma tradução em que se lia o seguinte:
      «Los científicos dudan sobre la existencia de una especie de transición, Homo habilis, antes del Homo erectus de la cultura pebble de Olduvai, olduviense o de cantos rodados.» O tradutor não conhecia as palavras de lado nenhum, é claro, e desconhece a existência dos chamados falsos cognatos. A polissemia passou-lhe também, em anos mais tenros, ao lado. Traduziu, pois, assim: «Os cientistas duvidam sobre a existência de uma espécie de transição, Homo habilis, antes do Homo erectus da cultura pebble de Olduvai, olduviense ou de cantos rodados

«Cantos rodados: Los ríos en su curso alto tiene una pendiente elevada por lo que el agua circula a gran velocidad empujando a las piedras y haciéndolas deplazarse rodando sobre sí mismas. Esto hace que se vayan redondeando las aristas con los golpes que reciben al rodar, de manera que todas terminan por tener una forma redondeada de donde les viene el nombre de cantos rodados.»

Orações coordenadas

Dependência ou igualdade?

      Uma leitora pergunta-me se se pode designar como «coordenante» a primeira oração nas frases coordenadas. Começo por dizer que não é a primeira vez que alguém me faz esta pergunta, pelo que já reflecti algumas vezes na matéria. Quando me perguntaram da primeira vez, o argumento de quem perguntou era o de que não há orações coordenantes porque o termo nem sequer existe, do que discordei parcialmente. O termo «coordenante» existe (o Dicionário Houaiss, v.g., regista-o), o que não me parece que exista são orações coordenantes. Pois se justamente se trata de orações coordenadas, de natureza e funções idênticas, não há nem pode haver uma relação de dependência. Poderá haver relações que qualificarei, à falta de melhor designação, de precedência, como, por exemplo, na frase «Vai depressa e volta», cujos termos, em determinados contextos, não são intermutáveis. Não ignoro, contudo, que há quem defenda que existem orações coordenantes, como a Prof.ª Helena Mateus Montenegro, da Universidade dos Açores, na obra Glossário de Termos Gramaticais, em que se pode ler: «A caracterização das frases coordenadas como frases que não desempenham uma função de dependência entre si leva a que, geralmente, não se distingam em termos de nomenclatura uma da outra. Isto é, a maioria das gramáticas fala de frases coordenadas sem atribuir uma distinção entre coordenante e coordenada. A identificação de uma frase coordenante e de uma coordenada torna-se pertinente, se analisarmos a sua estrutura.»
      É verdade que aprendemos que numa frase como «O João vê televisão e a Luísa lê o jornal» a primeira oração é a principal e a segunda, coordenada à principal. Creio, porém, que se trata de um problema de nomenclatura e não tanto de compreensão. Talvez a confusão, se confusão é, advenha do facto de também à oração subordinante se chamar principal, pelo que se terá entendido que designar como «coordenante» a «principal» no período coordenado seria o mais correcto, para evitar equívocos. Do que discordo, como afirmei, porque se pretende ver dependência onde a não há.

Prender e deter

É pouco mais ou menos isso

      É impressão minha ou de vez em quando há, na Ordem dos Advogados, cursos sobre matérias jurídicas para jornalistas? Não os frequentam, garantidamente, todos os jornalistas que deles precisam. Vejamos esta frase, da autoria do jornalista Armando Rafael, no Diário de Notícias: «As tropas australianas renegociaram os termos da sua intervenção em Timor-Leste, de forma a poderem prender e interrogar todos os timorenses que forem apanhados em distúrbios, confrontos ou saques» («Australianos já podem prender timorenses», 30.05.2006, p. 12).
     Prender, os militares? Nem em Timor-Leste nem cá, graças a Deus. O poder que eles têm é — o jornalista chega a usar a palavra, mas as duas anteriores referências a «prender» inquinam o texto — de procederem a detenções. Deter, interrogar, julgar, prender e, nos casos aplicáveis, executar, são poderes que têm de pertencer a instâncias diferentes, não é? Mesmo nos tempos que correm, quando se encontram reunidos nunca é para poupar dinheiro.

Semântica: sabotagem

Sabot: http://valledaosta.starnetwork.it
Tamancos

      Há dias tive de emendar um texto em que a palavra «sabotador» aparecia mal escrita: «saboteador» (que, na verdade, é como se escreve em espanhol). O termo «sabotagem» vem-nos do francês sabotage, e este de sabot («Chaussure de bois faite touted’une pièce et creusée de manière à contenir le pied. Sabot de bois d’aulne, de hêtre, de noyer. Une paire de sabots»). Conta-se, e esta é apenas uma das versões, que, no século XIX, os operários franceses grevistas atiravam, como forma de protesto, os seus tamancos para o interior das máquinas, provocando assim avarias que obrigavam a suspender a laboração das fábricas. Depois, por extensão de sentido, passou a aplicar-se o termo «sabotagem» a todo e qualquer acto de terrorismo ou acção ofensiva em situações de guerra ou guerrilha.

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