Neologismo: «brifar»

Não me diga

      No último Câmara Clara, programa semanal de Paula Moura Pinheiro na 2:, que começo a apreciar, um dos convidados, Paulo Varela Gomes, disse que não tinha dúvidas de que o presidente dos EUA, George W. Bush, «tem historiadores que o brifam sobre as guerras dos Romanos». «Brifam», meu Deus! É o abstruso e completamente desnecessário aportuguesamento do inglês «to brief». Mesmo para quem chispa estrangeirismos por todo o lado, num cosmopolitismo muito à frente de tudo e de todos, custa a acompanhar, tanto mais que não é inglês nem português.

Língua-mãe

Olha que não

      Os estudantes portugueses, cerca de mil, que pretendem frequentar o ensino superior espanhol fizeram exame na sexta-feira e ontem, tendo a RTP1 feito uma reportagem, que passou no Telejornal. O repórter entrevistou uma jovem que quer frequentar Medicina. Em Espanha, há 40 faculdades de Medicina e muitas vagas, esclarece uma voz off. As razões para a jovem entrevistada querer ir para Espanha são também claras: lá, as notas de acesso são mais baixas e, com a presença espanhola no mundo, será vantajoso dominar uma segunda língua-mãe. Quanto às notas, parece não haver dúvidas; já quanto à língua-mãe, receio não ser possível. Com cerca de 20 anos, como pretende dominar uma segunda língua-mãe? Segundo o Dicionário Houaiss e o bom senso, língua-mãe ou língua materna é a primeira língua aprendida por uma pessoa na infância. Já não vai a tempo. Suponho que não era a estas ilusões que H. Stein se referia quando escrevia que «devemos ter esperanças elevadas, expectativas moderadas e necessidades reduzidas».

Léxico: zesto

Imagem: http://www.erlacher.it/
As coisas e os nomes

      Se alguém quisesse saber como se chama a membrana que divide interiormente a noz, o que poderia fazer? Deitar-se a adivinhar, talvez. O problema, já aqui o disse mais do que uma vez, é que não temos em português dicionários e vocabulários específicos que nos levem de um conceito aos conceitos correlacionados. Aliás, temos um, mas é claramente insuficiente, um mero subsídio para um dicionário completo que tarda a aparecer no mercado editorial. Talvez também falte autor que esteja à altura da empresa, que demorará anos*. Quase tudo tem nome — ou devia ter. A membrana ou película dura que divide o interior da noz em quatro partes chama-se zesto, palavra que vem do francês zeste.

* É caso para dizer, com os Romanos: «Frangat nucleum qui vult nucem» (Quem quiser comer noz que parta a casca). Claro que por vezes também diziam «Nucleum qui esse vult, frangit nucem» ou «Qui e nuce nucleum esse vult, frangit nucem» ou «Qui vult esse nucleum, frangat nucem» ou «Qui vult nucleum, frangat nucem». Foi Plauto (Titus Maccius Plautus, 245–184 a. C.) quem nos legou este provérbio (Curculio, I, 1, 55).

Plebeísmos

Peregrinatio ad loca infecta

      Nunca aqui abordei a questão dos plebeísmos na linguagem (sim, porque há plebeísmos no comportamento, que para aqui não interessam): frases ou palavras que só usa a plebe*. Parece ser uma coisa má — e é mesmo. Sinónimos de plebe: gentalha, populacho, arraia-miúda, ralé… O que se pretende dizer é que não se espera que alguém, em determinadas circunstâncias, diga ou escreva certas palavras, os plebeísmos. Pois anteontem mesmo Pedro Mexia usou, numa recensão a livros de crítica literária de Jorge de Sena, reeditados recentemente, o termo «plebeísmo». Leiamo-lo:
«E comparecem também os habituais excessos de plebeísmo: termos como “pessegada” ou “esterco” não são exactamente exemplos de subtileza crítica», «Contra a imortalidade», Pedro Mexia, DN/6.ª, 2.06.2006, p. 29.

* A definição do Dicionário Houaiss parece-me a mais completa: «vocábulo, locução ou expressão típicos do dialecto das classes populares ou dos registos distensos da fala culta, e tidos freq. pela comunidade falante como grosseiros, vulgares ou triviais, mas que não chegam a ser tabuizados [São plebeísmos, em Portugal, p.ex., avacalhar, porra, e no Brasil, de saco cheio, bunda-suja]».

Ortografia: mais-valia

Mais valia estar calado

      O vocábulo «mais-valia» leva, como acabei de escrever, hífen, e é pena que ainda não tenha entrado nos hábitos de todos, e em especial dos jornalistas, que assim é. O plural é «mais-valias», como é de regra em compostos formados por uma palavra invariável e outra variável. Naturalmente, só esta última irá para o plural:
abaixo-assinado/abaixo-assinados;
auto-elogio/auto-elogios;
ave-maria/ave-marias;
ex-governador/ex-governadores;
infra-estrutura/infra-estruturas;
grão-mestre/grão-mestres, etc.

      Há menos de dois meses ouvi a jornalista Conceição Lino, no Jornal da Noite, da SIC, dizer «abaixos-assinados».
      «O presidente da Câmara de Mirandela acredita que “a carta pode ser uma mais valia na comercialização das marcas” que existem no concelho transmontano, podendo os produtores tirar daqui dividendos através das características de qualidade do azeite», «Mirandela lança lista de azeites», Sandra Bento, Diário de Notícias, 2.06.2006, p. 31.

Sob e sobre/pregador

A confusão continua

      No noticiário da meia-noite de ontem, na TSF, o locutor afirmou que os militares da GNR recusam estar sobre o comando dos militares australianos. Sem hesitar nem corrigir, disse-o claramente. Não tem conta, já aqui o escrevi, o número de vezes que já li e corrigi «sobre a égide», «sobre escolta» e «sobre os auspícios» para «sob a égide», «sob escolta» e «sob os auspícios». O Público (edição de 31.12.2005) inventou mesmo uma «ponte pedonal sob o rio Clark Fork»! Questões comezinhas da língua, pois claro, mas em que os profissionais escorregam como se fossem meninos do 1.º Ciclo.
      No mesmo bloco informativo, outro jornalista pronunciou a palavra «pregador», no sentido de orador, daquele que anuncia, proclama, propala qualquer doutrina ou ideia, com um «e» mudo, como o da palavra «de», por exemplo. Ora, a palavra «pregador», nesta acepção, deve ser pronunciada com um «e» aberto. Também existe, é verdade, a palavra «pregador» com a pronúncia do «e» fechado, como o jornalista fez, mas que significa «aquilo que abotoa». Há quem, em vez de alfinete de peito, colchete ou broche, prefira usar a palavra «pregador».

Estrangeirismos

Boas práticas

      A boa prática de explicar, no corpo de um artigo, estrangeirismos menos conhecidos, assim como neologismos e termos técnicos não a vemos todos os dias e em todos os jornais. É uma questão, quanto a mim, não apenas de clareza na comunicação, mas também de respeito pelo leitor. Constitui, com muitos outros, um aspecto que distingue o bom jornalismo do mau jornalismo.
      Numa notícia sobre o clipping, no quarto parágrafo o Diário de Notícias explicava o conceito: «O clipping ou recortes de imprensa consistem na selecção, em jornais e revistas, de artigos que são depois disponibilizados a clientes» («”Obra jornalística” tem direitos», Marina Almeida, 1.06.2006, p. 40).

Hábitos de leitura

Nação valente

      O Correio da Manhã divulgou ontem os resultados de um estudo anual sobre os hábitos de leitura dos Portugueses. Ao que parece, «95,5 % dos portugueses lê jornais e revistas, publicações às quais cerca de 40 % dos inquiridos dedica entre 30 minutos a uma hora por semana» (CM, 2.06.2006, p. 27). Enfim, leitores infatigáveis durante meia hora. Por semana. Claro, para fazer humor isto não podia ser melhor, mas uma reflexão se impõe: que credibilidade têm estes inquéritos? Pretendem ser lidos por quem? Quem só dedica meia hora por semana à leitura não pode esbanjar o tempo com estas tontices. Donde vêm estes 95,5 %? Se se tratasse de eleições, eu até compreendia que pusessem os mortos a votar.

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