Plebeísmos

Peregrinatio ad loca infecta

      Nunca aqui abordei a questão dos plebeísmos na linguagem (sim, porque há plebeísmos no comportamento, que para aqui não interessam): frases ou palavras que só usa a plebe*. Parece ser uma coisa má — e é mesmo. Sinónimos de plebe: gentalha, populacho, arraia-miúda, ralé… O que se pretende dizer é que não se espera que alguém, em determinadas circunstâncias, diga ou escreva certas palavras, os plebeísmos. Pois anteontem mesmo Pedro Mexia usou, numa recensão a livros de crítica literária de Jorge de Sena, reeditados recentemente, o termo «plebeísmo». Leiamo-lo:
«E comparecem também os habituais excessos de plebeísmo: termos como “pessegada” ou “esterco” não são exactamente exemplos de subtileza crítica», «Contra a imortalidade», Pedro Mexia, DN/6.ª, 2.06.2006, p. 29.

* A definição do Dicionário Houaiss parece-me a mais completa: «vocábulo, locução ou expressão típicos do dialecto das classes populares ou dos registos distensos da fala culta, e tidos freq. pela comunidade falante como grosseiros, vulgares ou triviais, mas que não chegam a ser tabuizados [São plebeísmos, em Portugal, p.ex., avacalhar, porra, e no Brasil, de saco cheio, bunda-suja]».

Ortografia: mais-valia

Mais valia estar calado

      O vocábulo «mais-valia» leva, como acabei de escrever, hífen, e é pena que ainda não tenha entrado nos hábitos de todos, e em especial dos jornalistas, que assim é. O plural é «mais-valias», como é de regra em compostos formados por uma palavra invariável e outra variável. Naturalmente, só esta última irá para o plural:
abaixo-assinado/abaixo-assinados;
auto-elogio/auto-elogios;
ave-maria/ave-marias;
ex-governador/ex-governadores;
infra-estrutura/infra-estruturas;
grão-mestre/grão-mestres, etc.

      Há menos de dois meses ouvi a jornalista Conceição Lino, no Jornal da Noite, da SIC, dizer «abaixos-assinados».
      «O presidente da Câmara de Mirandela acredita que “a carta pode ser uma mais valia na comercialização das marcas” que existem no concelho transmontano, podendo os produtores tirar daqui dividendos através das características de qualidade do azeite», «Mirandela lança lista de azeites», Sandra Bento, Diário de Notícias, 2.06.2006, p. 31.

Sob e sobre/pregador

A confusão continua

      No noticiário da meia-noite de ontem, na TSF, o locutor afirmou que os militares da GNR recusam estar sobre o comando dos militares australianos. Sem hesitar nem corrigir, disse-o claramente. Não tem conta, já aqui o escrevi, o número de vezes que já li e corrigi «sobre a égide», «sobre escolta» e «sobre os auspícios» para «sob a égide», «sob escolta» e «sob os auspícios». O Público (edição de 31.12.2005) inventou mesmo uma «ponte pedonal sob o rio Clark Fork»! Questões comezinhas da língua, pois claro, mas em que os profissionais escorregam como se fossem meninos do 1.º Ciclo.
      No mesmo bloco informativo, outro jornalista pronunciou a palavra «pregador», no sentido de orador, daquele que anuncia, proclama, propala qualquer doutrina ou ideia, com um «e» mudo, como o da palavra «de», por exemplo. Ora, a palavra «pregador», nesta acepção, deve ser pronunciada com um «e» aberto. Também existe, é verdade, a palavra «pregador» com a pronúncia do «e» fechado, como o jornalista fez, mas que significa «aquilo que abotoa». Há quem, em vez de alfinete de peito, colchete ou broche, prefira usar a palavra «pregador».

Estrangeirismos

Boas práticas

      A boa prática de explicar, no corpo de um artigo, estrangeirismos menos conhecidos, assim como neologismos e termos técnicos não a vemos todos os dias e em todos os jornais. É uma questão, quanto a mim, não apenas de clareza na comunicação, mas também de respeito pelo leitor. Constitui, com muitos outros, um aspecto que distingue o bom jornalismo do mau jornalismo.
      Numa notícia sobre o clipping, no quarto parágrafo o Diário de Notícias explicava o conceito: «O clipping ou recortes de imprensa consistem na selecção, em jornais e revistas, de artigos que são depois disponibilizados a clientes» («”Obra jornalística” tem direitos», Marina Almeida, 1.06.2006, p. 40).

Hábitos de leitura

Nação valente

      O Correio da Manhã divulgou ontem os resultados de um estudo anual sobre os hábitos de leitura dos Portugueses. Ao que parece, «95,5 % dos portugueses lê jornais e revistas, publicações às quais cerca de 40 % dos inquiridos dedica entre 30 minutos a uma hora por semana» (CM, 2.06.2006, p. 27). Enfim, leitores infatigáveis durante meia hora. Por semana. Claro, para fazer humor isto não podia ser melhor, mas uma reflexão se impõe: que credibilidade têm estes inquéritos? Pretendem ser lidos por quem? Quem só dedica meia hora por semana à leitura não pode esbanjar o tempo com estas tontices. Donde vêm estes 95,5 %? Se se tratasse de eleições, eu até compreendia que pusessem os mortos a votar.

TLEBS

Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS)

      Ainda hoje não compreendo a necessidade de se ter concebido uma nova terminologia linguística para o ensino. Passados meses, ainda nem sequer compreendo a nova terminologia. Como não sou professor, posso viver bem sem isso até ao fim dos meus dias, podem contrapor-me. Pois, mas vejo muitos professores que nem querem pensar que existe uma nova terminologia. Prosaicamente, diria que se estão a borrifar. Não foi — lembrar-se-ão estes professores e todos nós — Sócrates que afirmou que inaugurava uma nova prática política, não desprezando iniciativas de governos anteriores, antes aproveitando o que era de aproveitar? Se chegaram à conclusão de que a terminologia anterior precisava de ser revista, melhorada, adaptada, era isso que faziam. Faz lembrar os casais de novos-ricos que deitam para o lixo as mobílias de carvalho que herdaram e as substituem por móveis da Ikea. Há muitos professores que já não vão assimilar a nova terminologia, porque, afinal, não nos deixemos enganar, não se trata de palavras, mas de conceitos. Só uma nova geração de professores irá dominar este novo instrumento, mas com um custo considerável: o corte com o passado e com o que este tinha de bom. Por outro lado, os 48 % de jovens com 15 anos cuja competência de leitura é mínima não vão beneficiar nada com esta medida — eles serão os futuros professores. Como escreve Vasco Graça Moura, faz falta uma varredela.

Más traduções

O poder letal das palavras


      O Diário de Notícias de ontem mostrou-nos bem como uma tradução incorrecta pode ter consequências desagradáveis. Leiamos:

      «A declaração que Xanana Gusmão fez, na terça-feira à noite, diz que o Presidente tem a “responsabilidade principal” pela condução da defesa e da segurança no país, indiciando a sua partilha. Mas a versão inglesa aponta noutro sentido, aludindo à “responsabilidade exclusiva” (sole responsability). O que explica que os media de língua inglesa retirassem conclusões erradas do discurso» («Declarações de Xanana com traduções distintas», p. 18).

      Este episódio lembra-me a némesis que os jornais espanhóis têm no autor do site Malaprensa, que denuncia em especial os disparates jornalísticos que envolvem percentagens, verbas e más traduções.

Léxico: chambaril

Imagem: http://alentejanando.weblog.com.pt/arquivo/chambaril.jpg

Porcos (com sua licença…)

      Um leitor pergunta-me se sei o nome do pau curvo que se enfia nos jarretes do porco morto, quando se pendura para o abrir. Talvez saiba que ao pernil também se dá o nome de chambão. Pois o pau chama-se chambaril.

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