I dinastia de faraós

Do Egipto

      Caro João Lopes: aqui ficam os nomes dos faraós da I dinastia, como me pediu:

Hórus Aha (Menés?)
Hórus Atoti
Hórus Djer
Hórus Uadji (Djet)
Hórus Den (Udimu)
Hórus Adjib (Anejib)
Hórus Semerkhet
Hórus Kaa

      Utilizei para a redacção desta nota o Dicionário do Antigo Egipto, com direcção de Luís Manuel de Araújo, Caminho, 2001, p. 644 (verbete «Onomástica real»).

Elevados e expoentes

Aquelas letrinhas que…

      Um leitor pergunta-me que nome têm os algarismos e as letras que ficam elevados, em especial nas abreviaturas. Embora se veja muitas vezes atribuir-se-lhes, indiferenciadamente, a designação de «expoente» ou «potência», há um nome mais abrangente, que é


Elevados m. pl. Algarismos ou letras muito menores do que os tipos com os quais se empregam, e que se compõem alinhados à parte superior do corpo, em abreviaturas e potenciais aritméticos, separadamente ou em combinação com os descidos.

Exemplos: Art.º, arq.º, C.ª, etc.


Estrangeirismo: «parti-pris»

Tomar partido

      Ricardo Costa, no último e nada esclarecedor Prós e Contras, falou de uma jornalista que «partiu para uma entrevista com um parti-pris contra o entrevistado». É verdade que o programa é visto por uma minoria (a maioria que não vê não perde muito), mas nunca minoria se pode confundir com instrução ou compreensão. No meu entender, um jornalista deve falar e escrever para se fazer entender. Se o improviso ou a precipitação o atira para palavras, expressões ou conceitos menos usuais ou claros, deve emendar, elucidar, voltar atrás.

Parti-pris — Já é tempo de devolvermos definitivamente à procedência este inútil galicismo. — Em vez de dizermos, por ex., «ele sempre discute os assuntos com parti-pris», diga-se: «ele sempre discute os assuntos com parcialismo ou com parcialidade, ou com ideias preconcebidas, ou com preconceitos, ou coisa equivalente» (Dicionário de Erros e Problemas de Linguagem, Rodrigo de Sá Nogueira, Lisboa, Clássica Editora, 4.ª ed., 1995, p. 325.).

Léxico: iucateco

Luzes, câmara, quietos!
 
      «O realizador parece apostado em obrigar os americanos a ler legendas. Depois do aramaico, em A Paixão de Cristo, [Mel] Gibson decidiu dirigir um filme falado em yucatec, um dialecto maia. Apocalypto conta a queda da civilização maia e, como A Paixão, está cheio de imagens de violência explícita» (Visão, n.º 687, 4 a 11.05.2006, p. 98). E a Visão parece apostada em pôr-nos a desaprender português. Tinha, em vez de yucatec, «iucatano», «iucateco», «iucateque» e «iucatego», todas palavras registadas em dicionários da língua portuguesa, mas por preguiça do senhor jornalista o leitor perdeu mais uma oportunidade de aprender qualquer coisa de útil. É pena.

Doente, enfermo e paciente

Doentes, enfermos e pacientes

      Os Espanhóis, a par da palavra «paciente», usam a palavra «enfermo»; embora também a tenhamos, só a aproveitámos para referir aqueles que tratam deles: os enfermeiros. Etimologicamente, «enfermo» é «aquele que não está firme», que «não tem firmeza», do latim infirmus, composta pelo prefixo privativo in- e o adjectivo firmus, isto é, «falta de firmeza». Os doentes, está-se mesmo a ver, são os que sofrem, os que sentem dor — dolens, dolentis* — do particípio presente do verbo doleo, dolere. Finalmente, temos os pacientes. Do latim patior, pateris, passus sum, que significa sofrer. Qualquer paixão, mesmo a de Cristo, vem daqui e é apenas sofrimento. Todos, porém, quer doentes, quer pacientes, precisam de ter muita paciência e firmeza.

* Do mesmo étimo latino, temos igualmente o vocábulo divergente «dolente»: triste, magoado.

Conceito: gralha

Rigor faunístico

      A leitora Luísa Coelho, que participa regularmente neste blogue com questões e dúvidas, pede-me que esclareça o conceito de gralha, que considera envolto em alguma mistificação. «Para o erro mais grosseiro», escreve-me, «há agora a desculpa de que é uma gralha. E então a ignorância, já não existe? Os computadores, essas máquinas estúpidas, vieram substituir outros bodes expiatórios.»
      Lanço mão da definição que encontrei na obra Correcção de Provas Tipográficas, de Manuel Pedro (Pai), cuja oferta agradeço ao meu amigo João Costa:
      «A “gralha”, verdadeiramente dita, consiste na troca de uma letra por outra, na repetição ou falta de uma palavra, na omissão de um vocábulo, ou nas palavras mal ortografadas ou por grifar» (p. 14).
      Como se concluirá, fica de fora do conceito muita ignorância, muita estupidez confrangedora que se vê plasmada diariamente em livros e na imprensa escrita.

Ortografia: «militar-industrial»

Da boca para o papel

      Não é a primeira vez que vejo este erro na imprensa, mas eis que surgiu a oportunidade de falar sobre ele. «Num livro publicado em 2002, o jornalista francês Thierry Meyssan garante que o ataque ao Pentágono não passou de uma encenação elaborada por um grupo militaro-industrial próximo do Presidente Bush», «EUA divulgam vídeo do 11-S», 17.05.2006, p. 48.
      «Militaro-industrial»? De onde vem aquele «o»? Sim, porque «militaro» não é um elemento de formação de palavras que exprima a ideia de militar ou referente à vida militar, como acontece com outros: euro, luso, etc. Também não é — ainda é menos, ia escrever — um adjectivo reduzido, como em corto-perfurante («Empunhando um objecto corto-perfurante, presumivelmente uma faca ou navalha, que trazia consigo, o arguido desferiu com o mesmo golpes em B., atingindo-o do modo descrito nos autos.»), luso-descendente, herói-cómico, afro-americano, israelo-palestiniano, entre muitos outros primeiros elementos de adjectivos compostos. Parece, na verdade, ter origem na oralidade, como vogal de ligação. Na escrita, é completamente espúrio. De qualquer modo, vou voltar a este assunto, que me parece suficientemente importante para pensar melhor nele.

Abreviatura: Dr.

Dr. Quem

      É infelizmente muito comum — o que o não torna menos grave — escrever com minúscula inicial a abreviatura de «doutor», como se pode ver nesta frase, que serve de exemplo, de Mário Bettencourt Resendes: «O dr. Jardim tem o particular talento de ostentar, por norma, uma ausência gritante de senso comum» («As armas e os barões de Alberto João», Diário de Notícias, 18.05.2006, p. 11). Nos substantivos, adjectivos e locuções pronominais, escritos por extenso ou abreviadamente, que constituem formas corteses de tratamento deverá usar-se a maiúscula inicial, como preceitua, e bem, a Nova Terminologia Linguística, quando antepostos a nomes de pessoas. Logo, Dr. Jardim, Mons. Johann Geisler, Fr. Georg Angst, etc.

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