Verbo haver

Camarada linguagem

      O desventurado verbo haver nasceu para ser maltratado, está visto. Hoje foi o camarada Jerónimo de Sousa que lhe deu uns sopapos: «E se dúvidas houvessem […].» Claro que não ignoro que Jerónimo de Sousa não foi condiscípulo do Dr. Álvaro Cunhal na Faculdade de Direito, mas a verdade é que estava a ler o discurso, que alguém terá escrito ou revisto. O redactor é, pois, o responsável por erro tão grosseiro. Também eu já escrevi, noutros avatares, muitos discursos para políticos, e por vezes em circunstâncias pouco propícias, mas nunca ninguém me pôde apontar erros de tal gravidade.

Ortografia: Estugarda

Sem comentários

      «Nascido em 1922, em Stuttgart, numa família de ricos industriais, Rau começou por estudar ciências económicas, mas interrompeu o curso em 1942 para ingressar no exército alemão» («O bom doutor», Alexandre Pomar, Expresso/Actual, 13.05.2006, p. 35).

      «Problema cardíaco fora a causa aparente da morte de Gustav Rau, a 3 de Janeiro de 2002, perto da sua cidade natal de Estugarda, na Alemanha» («A misteriosa vida e morte do Dr. Rau», Paula Lobo, Diário de Notícias, 18.05.2006, p. 37).

Lógica

O Dilema do Prisioneiro

      Já ouviram falar no Dilema do Prisioneiro? Está explicado com clareza meridiana na obra O Universo, a Nossa Casa, de Stuart Kauffman, com tradução de Carlos Sousa de Almeida, publicado pela Editorial Bizâncio em 2005.
      «A ideia mais simples de um jogo é exemplificada pelo conhecido “Dilema do Prisioneiro”. O leitor e eu fomos detidos pela polícia. Fomos presos em celas separadas. A polícia diz-me que se eu o denunciar a si e você não me denunciar a mim, serei libertado. A si, dizem-lhe a mesma coisa. Se me denunciar e eu não tiver confessado nada, libertam-no. Seja como for, o vigarista leal, um dos que tiver ficado calado, apanha 20 anos de prisão. Se ambos nos denunciarmos um ao outro, temos ambos sentenças duras, mas não tão duras se um falar e o outro não confessar. Digamos que ambos apanhamos 12 anos. Se ambos nos calarmos e não confessarmos, apanhamos os dois sentenças mais leves: 4 anos. Está a ver o dilema. Chamemos «cooperação» ao facto de não se falar, e ao de se delatar à polícia, “traição”. Um comportamento natural é ambos denunciarmo-nos um ao outro. Acho que é melhor denunciá-lo, visto que se você não o fizer, sou libertado. E mesmo que me denuncie, cumprirei uma pena inferior do que se não confessar e você me delatar. Você pensa a mesma coisa. Ambos nos traímos um ao outro e apanhamos 12 anos de prisão.»


Semântica: jacobino

Alma Nostra

      Falando hoje sobre a questão das hierarquias protocolares nas cerimónias de Estado, Carlos Magno e Carlos Amaral Dias suspeitavam, quem sabe se com razão, que as pessoas não sabem o que significa «jacobino». Cumprindo a minha função e, quem sabe, a minha missão, quero esclarecer aqui o conceito.
      Jacobino, que hoje em dia é uma formidável injúria na boca de alguns partidários da direita, mas atirada de forma inexacta, é um termo que nasceu com a Revolução Francesa. Em determinada altura desta, surgiu o chamado Clube dos Jacobinos, também conhecido como Sociedade dos Amigos da Constituição. Ora, este clube instalou-se num convento de frades dominicanos. E «jacobins» era uma alcunha que se dava em Paris aos frades dominicanos, porque ocupavam o convento de Saint-Jacques, que em latim — sempre o latim! essa forma mentis desgraçadamente proscrita do ensino — se diz Jacobus.
      Não deixa de ser irónico que um grupo que ficou conhecido pelas suas atitudes de sectarismo contra toda a religião tenha tomado o nome de um santo.
      Aos Jacobinos opunham-se os moderados Girondinos, porque a maioria dos seus chefes provinha da região francesa da Gironda.

Etimologia: miopia

Um míope no Paraíso

      Tal como os rajás e os marajás da Índia tinham enxota-moscas, o emir Isoarre, que era míope, dispunha de um solícito porta-óculos que o acompanhava até nas batalhas. Como os óculos eram de vidro, era quase inevitável que em cada recontro um par se partisse. Numa batalha, porém, a última para o emir, a lança cristã de Rambaldo foi cravar-se no peito de Isoarre — não sem antes ter quebrado o novo par de lentes que o porta-óculos pedia para entregar ao seu senhor. Morto este, o porta-óculos, que era solícito, lembremo-nos, já não tinha razões para não se mostrar inteligente, pelo que afirmou: «Agora a sua vista já não tem necessidade de lentes para contemplar as huris do Paraíso.» Esporeou o cavalo e foi-se embora. (Il Cavaliere Inesistente, Italo Calvino; usei a versão portuguesa, O Cavaleiro Inexistente, tradução de Fernanda Ribeiro e Herberto Helder, Portugália Editora, 1965.)
      A palavra «miopia» provém do grego myops, formada pelo grego myein (semicerrar os olhos) e ops (olho), como em «piropo», «hipermetropia» e em «presbiopia», por exemplo.

Concordância

Ai que confusão

      A falta de concordância é recorrente em muitos textos da imprensa. Vejamos este caso surgido no Expresso: «Depois de ter anunciado — na comissão parlamentar de Negócios Estrangeiros — que delegara a reestruturação consular no subsecretário de Estado-adjunto, Bernardo Ivo Cruz, Freitas do Amaral resolveu consultar directamente embaixadores e outros chefes de missão, solicitando-lhes que se manifestassem quanto à importância das respectivas Embaixadas, bem como ao número de trabalhadores adequados às tarefas de cada posto», «Freitas quer “ranking” de Embaixadas», Isabel Oliveira, 29.4.2006, p. 12.
      Como se vê, o sujeito é o substantivo «número», que se encontra no singular; logo, o adjectivo «adequado» tinha de estar no masculino singular. É verdade que existem muitos tipos de concordância, mas no caso em apreço esta é a única admissível.

Léxico: levirato

Cunhados e ferros de arado debaixo da terra são logrados

      Numa conversa informal, surgiu a história, que merece um romance, de grandes proprietários brancos que, em Angola, quais régulos, são intocáveis precisamente porque respeitam a cultura local, o que se manifesta, por exemplo, no facto de acolherem as viúvas e os filhos de trabalhadores seus que tenham falecido. Embora haja aqui algo semelhante a uma organização baseada na escravatura, não falta também um sentimento de humanidade, pelo que me lembrei imediatamente da instituição chamada levirato, que existiu entre os Judeus* e que persiste em África, entre certas tribos. Levirato provém do latim, língua em que se formou a partir de levir, «cunhado, irmão do marido». Vejamos o que diz a Bíblia:
      «Quando dois irmãos residirem juntos e um deles morrer sem deixar filhos, a viúva não irá casar com um estranho; o seu cunhado é que se unirá a ela e a tomará como mulher, segundo o costume do levirato» (Deuteronómio, 25,5). Na Vulgata: «Quando habitaverint fratres simul et unus ex eis absque liberis mortuus fuerit uxor defuncti non nubet alteri sed accipiet eam frater eius et suscitabit semen fratris sui.»

* Entre os quais também existia o rito designado Halitzah, através do qual uma viúva cujo marido tivesse morrido sem descendência seria desobrigada do vínculo do casamento de levirato.


Léxico: «enfarna»

Imagem: http://www.cuyamaca.net
Verde-prateado

      «Depositei a minha esperança na linguagem ― daí o pânico quando uma simples palavra me escapa, quando olho para um pedaço de material florido em frente a uma janela e não sei que nome lhe dar. Cortinado. Graças a Deus. Consigo controlar o mundo desde que possa dar-lhe um nome.» Quem escreveu este texto? Podia ter sido eu, mas não: trata-se de um excerto da obra, vencedora do Booker Prize, Anel de Areia, de Penelope Lively, e foi publicado pela editora Civilização recentemente.
      Vamos então controlar o mundo. Agora que o pólen da oliveira irá aumentar, segundo o Diário de Notícias de anteontem, no decurso da semana, podendo atingir níveis elevados, é altura de falar da flor da oliveira. Quase todos sabemos que ao conjunto da flor, à floração, da oliveira se dá o nome de candeio. Pois, e a própria flor? Essa tem o nome de enfarna.

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