Ortografia: «volte-face»

Vira-casacas

Quer queiramos quer não, o termo «volte-face» é um estrangeirismo: vem do italiano «voltafaccia», através do francês «volte-face». Com o significado de mudança brusca de opinião ou de atitude, reviravolta, tem um uso relativamente alargado no português, e, apesar de o Dicionário da Academia o registar como vocábulo aportuguesado, a verdade é que só a semelhança fonética com o português permitiu que tal acontecesse. Deverá ser grafado como estrangeirismo, das formas habituais: ou itálico ou aspas.
«O volte-face aconteceu em 2003, quando o líder líbio, Muammar Khadafi, renunciou ao seu programa de armas de destruição maciça e aceitou entregar os responsáveis por Lockerbie e pagar as indemnizações às famílias das 203 vítimas do atentado» («EUA restabelecem relações com a Líbia», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 16.5.2006, p. 16).

Etimologia: oleoduto

Vamos olear a máquina

Comparando com a actualidade, a frequência com que nos anos 80 e 90 se usava, em Portugal, a palavra inglesa pipeline era muito maior. Contudo, ainda há quem a use, desnecessariamente, como Nicolau Santos: «Não deu grande importância a uma breve sobre o ataque dum tal de Movimento da Libertação para o Delta do Níger a um “pipeline” da Shell. […] Por isso, no dia 12 de Janeiro, não deu conta de uma nova acção do Movimento da Libertação para o Delta do Níger, desta vez contra um petroleiro e um “pipeline”» (Expresso, «Conspiração contra o sr. Silva», 6.5.2006, p. 12).
E já que falo de petróleo, é interessante ver como em espanhol o vocábulo «aceite» serve para tudo, mesmo para os óleos minerais, derivados do petróleo. Isto traz, como era de prever, dificuldades aos nossos tradutores menos experientes, que não raro tomam uma coisa por outra. A língua portuguesa, pelo contrário, reservou o vocábulo «azeite» unicamente para o óleo extraído da azeitona. «Óleo», vocábulo que nos veio do latino oleum, tomado do grego elaion, com o mesmo significado, serve para o resto. Em espanhol, por sua vez, «óleo» é palavra de escasso uso no sentido de óleo alimentar, estando o seu uso praticamente restringido à expressão «santos óleos» e para designar a pintura.
Apesar de tudo isto, também no espanhol se formou a palavra «oleoducto» e não outra que tivesse tomado por base a palavra «aceite», provavelmente por razões de eufonia. A sua formação, já se vê, é o latim oleum mais ducto, particípio passivo do verbo ducere (conduzir), como acontece, por exemplo, com a palavra aquaeductus (aqueduto).

Tradução

Actos e actas

Falava-se do cardeal Richelieu (1585-1642): «Falsificou o seu acto de baptismo para poder ser nomeado bispo aos 22 anos» («O país das punhaladas», Ferreira Fernandes, Sábado, n.º 106, 11 a 17.5.2006, p. 70). Ferreira Fernandes é um dos jornalistas que eu mais admiro; tanto que compro jornais e revistas que não aprecio nem um pouco só para ler artigos escritos por ele. Neste caso, estamos perante uma má tradução do francês «acte de baptême». Em português, diz-se correntemente «certidão de baptismo» ou «assento de baptismo».
«Comme elles tardaient à venir, le jeune prélat, impatient, alla lui-même trouver Paul V; il est faux qu’il ait à cette occasion falsifié son acte de baptême; le pape l’ordonna avant l’âge, en considération de son mérite, à Pâques 1607» (L'Encyclopédie de L’Agora).

Estrangeirismo: «expertise»

Prós e Contras

Como é possível que Fátima Campos Ferreira, que vejo insistir muitas vezes com os entrevistados para serem claros, pôde usar duas vezes seguidas, no Prós e Contras de ontem, a palavra «expertise»? A dúvida dela era sobre se o Hospital de Barcelos teria a «expertise» necessária para realizar partos. «Perícia» ou «capacidade técnica», entre outras palavras e expressões, não ocorreram à jornalista?
Quanto aos telespectadores, como diz um amigo meu, «por uma tiram as outras», porque na verdade o telespectador comum, médio, não sabe realmente o que é «expertise». E talvez não precise de saber — os jornalistas é que precisam de se exprimir melhor.

Leituras


O Código de S. Paulo

Um leitor recomenda-me que eu aborde aqui «essa obra incontornável» (ou será «incontrolável?) que é O Código Da Vinci, de Dan Brown. Pronto, já abordei.
Já agora, aproveito o ensejo e digo mais qualquer coisa. Mais do que uma vez Jorge Luis Borges usa a metáfora do espelho, presente na Primeira Carta aos Coríntios, 13,12: «Videmus nunc per speculum in enigmate tunc autem facie ad faciem nunc cognosco ex parte tunc autem cognoscam sicut et cognitus sum.» O que é que S. Paulo nos quis dizer? Tem razão: talvez a tradução nos ajude. Lanço mão da versão dos Capuchinhos: «Agora, vemos como num espelho, de maneira confusa; depois, veremos face a face. Agora, conheço de modo imperfeito; depois, conhecerei como sou conhecido.»* A colocação sistemática, pese embora a génese do texto, dos versículos e o espírito do texto sugerem-nos que se trata do conhecimento que os homens têm de Deus, que agora (presente) é imperfeito; depois (futuro) será perfeito, pleno, graças à fé que nos permitirá contemplar Deus directamente. Enigmática embora, a metáfora do espelho sugere, pois, essa forma imperfeita, mediada, de conhecer a realidade. Nem sempre, porém, é assim. Lembremo-nos da palavra «ambulância» escrita — ao contrário — nos referidos veículos. Porquê ao contrário? Porque o retrovisor, um espelho, do nosso carro nos restitui, de forma perfeita, uma realidade pretendida e não enunciada.


* Tenho à minha frente uma preciosa edição, que comprei na Salvation Army, em Cambridge, do início do século XX da obra The New Testament, a New Translation, de James Moffatt (1870-1944), cuja versão diz: «At the present we only see the baffling reflections in a mirror, but then it will be face to face; at present I am learning bit by bit, but then I shall understand, as all along I have myself been understood.»

Utilidades: «site»

Vizinhança é meia parentela

      Descobri recentemente, e a «questão ibérica» reavivada pelo ministro Mário Lino confere-lhe actualidade e interesse, uma secção do site do Instituto Cervantes sobre calinadas na língua espanhola. Seria ocioso demonstrar que a reflexão sobre problemas linguísticos, em geral, nos conduz ao aprofundamento da nossa própria língua. Assim, e pese embora o «editorial» que encima este blogue, estão agora e para sempre justificadas as referências que passarei a fazer ao espanhol, ao galego e a todas as demais línguas. Todos ganharemos com isso.

Ortografia: pólipo

Erros médicos

Uma pessoa amiga perguntou-me porque é que os médicos insistem em pronunciar e escrever «polipo» em vez de «pólipo». Eu não poria a questão nesses termos: generalizações à parte, eles não insistem, porque isso pressupõe que sabem que é incorrecto ou que alguém alega que é incorrecto; eles simplesmente ignoram a forma correcta de grafar e pronunciar o vocábulo. Ora, o vocábulo veio-nos do grego, através do latim, língua em que também é esdrúxulo. E o português, como se sabe, segue normalmente a acentuação dos vocábulos em latim. «Pólipo» é, pois, a forma correcta.
O erro não é de agora: já o professor Vasco Botelho de Amaral, nas suas Palestras de Língua Portuguesa, em 1951, criticava este erro de acentuação.

Lógica

Teorema de Gödel

Já há uns tempos pensava escrever este texto sobre o Teorema de Gödel, e o facto de Fernando Venâncio se ter referido, hoje, à tese deste lógico (1) sobre o decorrer do tempo ser uma ilusão determinou-me a fazê-lo mais rapidamente. Refiro-me à também chamada Teoria da Incompletude. O que mais me interessa nela é a sua origem numa afirmação de Paulo na Carta a Tito (1,12): «Aliás, como disse um deles, que era profeta, “os cretenses são sempre mentirosos, bestas más e ventres preguiçosos”.»(2) Ora, o mais interessante é isto: se a afirmação é verdadeira, então é falsa. Explico melhor: dado que o autor da frase é um cretense, se o que ele afirma for verdade, então é mentira, pois que «os cretenses são sempre mentirosos». Se, pelo contrário, for falsa, então é verdadeira. Em ambos os casos, os paradoxos provêm da referência a si próprios: ambas as afirmações procuram dizer algo sobre si próprias. Foi este um dos grandes contributos de Gödel para as ciências matemáticas, e não só, do século XX: demonstrar que qualquer sistema formal que contenha aritmética elementar é incompleto.

(1) Kurt Gödel (1906-1978).
(2) A acusação é atribuída a Epiménides de Creta (séc. VI a. C.).

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