Lógica

Teorema de Gödel

Já há uns tempos pensava escrever este texto sobre o Teorema de Gödel, e o facto de Fernando Venâncio se ter referido, hoje, à tese deste lógico (1) sobre o decorrer do tempo ser uma ilusão determinou-me a fazê-lo mais rapidamente. Refiro-me à também chamada Teoria da Incompletude. O que mais me interessa nela é a sua origem numa afirmação de Paulo na Carta a Tito (1,12): «Aliás, como disse um deles, que era profeta, “os cretenses são sempre mentirosos, bestas más e ventres preguiçosos”.»(2) Ora, o mais interessante é isto: se a afirmação é verdadeira, então é falsa. Explico melhor: dado que o autor da frase é um cretense, se o que ele afirma for verdade, então é mentira, pois que «os cretenses são sempre mentirosos». Se, pelo contrário, for falsa, então é verdadeira. Em ambos os casos, os paradoxos provêm da referência a si próprios: ambas as afirmações procuram dizer algo sobre si próprias. Foi este um dos grandes contributos de Gödel para as ciências matemáticas, e não só, do século XX: demonstrar que qualquer sistema formal que contenha aritmética elementar é incompleto.

(1) Kurt Gödel (1906-1978).
(2) A acusação é atribuída a Epiménides de Creta (séc. VI a. C.).

Ortografia: Hong Kong



Está tudo ligado…

Tal como as criancinhas que copiam mal as palavras que têm à frente, alguns tradutores também têm tendência a grafar — copiando mal o original que seguem — o topónimo Hong Kong com hífen. Pois fazem mal e o que devem fazer é lembrar-se da personagem King Kong, nome igualmente sem hífen.

Nomes dos reis

Com rei e com roque

Ao leitor que me deixou aqui um comentário acerca dos nomes dos reis. Respiguei o que se segue de Jorge de Sena, ainda que não saiba, ao certo, em que obra se encontra, mas provavelmente em Sobre Literatura e Cultura Britânicas:

«Como geralmente não é sabido, a Ínclita Geração foi, por acordo entre os esposos [D. João de Portugal e D. Filipa de Lancaster], baptizada alternadamente com nomes portugueses e ingleses. E é por isso que, em memória de Eduardo III, avô da rainha, tivemos um rei D. Edward, ou Duarte como se ficou dizendo» (Destaque meu).

Leituras

Jaime Brasil

Ando a ler, por motivos profissionais, a obra Zola, o escritor e a sua época, da autoria do escritor e jornalista Jaime Brasil. É a 2.ª edição revista da Portugália Editora, vinda à luz em Abril de 1966. O que mais me surpreende é o uso criterioso, preciso, hábil da pontuação, e em especial da vírgula. Por outro lado, com uma ou duas falhas, a própria paginação é um modelo para alguns paginadores dos nossos dias. (Isto muito antes dos computadores, meus amigos, só chumbo.) Como a própria pontuação — vergonhosamente incompetente na mão de muitos dos que escrevem actualmente — é um modelo que todos deviam seguir. Darei aqui, brevemente, alguns exemplos com um intuito didáctico.

Verbo faltar

O que faz falta

A propósito dos comerciantes da Feira Popular, a jornalista Fátima Cavaleiro, no programa Portugal em Directo (Antena 1), ontem, rematava: «Faltam pagar as indemnizações.» Deveria ter dito: «Falta pagar as indemnizações.» O sujeito, nesta frase, é «pagar». Se o verbo «pagar» está no infinitivo, o verbo faltar tem de estar no singular. É um dos erros mais comuns, tanto na oralidade como na escrita.

Opus Dei

A Obra de Deus

      «Não imagino, por exemplo, assassinos a soldo da Opus Dei em deambulação pelo mundo para resguardar a “vida secreta” de Jesus Cristo», escrevia ontem Mário Bettencourt Resendes no Diário de Notícias (11.5.2206, p. 9). Em português é que «obra» é do género feminino; em latim, «opus» é do género neutro, que em português dá masculino. Logo, o Opus Dei. É também um erro muito comum.
      E isto faz-me lembrar o caso da Caritas, que aparece tantas vezes escrita «Cáritas». «Ah, o senhor trabalha na Caritas! É aquela agência de modelos infantis, não é? A minha mulher está na agência Face.» Caritas, caritatis, à semelhança de sanitas, sanitatis, de vanitas, vanitatis, não precisam de acento gráfico, pois que em latim não existiam acentos. Também há, ou havia, um laboratório farmacêutico chamado Sanitas. Embora aqui o equívoco fosse ainda mais arreliador, ninguém pôs um acento na palavra. «Ah, o marido da senhora trabalha na Sanitas! Um cunhado meu trabalhou 37 anos nas louças Valadares. Ele era mais urinóis.»

Meia dúzia

Estranhas estranhezas

Duarte Calvão, crítico gastronómico do Diário de Notícias, está no Brasil. «Por falar em boas fórmulas para almoço, não podia deixar de visitar o Bistrô 66. Lê-se “meia-meia”, já que os brasileiros, por motivos misteriosos, tratam o seis por meia-dúzia. Como consideram a palavra comprida, abreviam para “meia”» (11.5.2006, p. 33). Não percebo a estranheza: do lado de cá do Atlântico não se «trata» também assim, ocasionalmente, o seis? Com mais razão teria escrito ser estranho dizer «meia» em vez de «seis». Mas a isto já Duarte Calvão respondeu: «Como consideram a palavra comprida, abreviam para “meia”.» Vamos ver o que dizem os dicionários.

Houaiss:
meia num. n. card. B red. de meia dúzia. Uso empr. esp. no discurso oral para diferençar o som da pal. seis do da três, como, p. ex., na frase: o prefixo dois-meia-três (263) é dos telefones da zona central do Rio.

Aurélio (2.ª ed. revista e ampliada):
meia. Num. O número 6, usado na fala, para evitar confusão com o número três: O ônibus da linha quatro-três-quatro (434) e quatro-meia-quatro (464) unem o Grajaú ao Leblon.

Entretanto, ficou resolvida outra confusão: nem lá, nem cá, nem pelo caminho se escreve «meia-dúzia» com hífen. Consultados o Aurélio referido, a 6.ª edição do minidicionário Aurélio (2004) e o libérrimo Dicionário da Academia, não se vê a locução registada com hífen. O que se verifica é precisamente o oposto: dicionários como o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, ter, à cautela, um verbete autónomo para
Meia dúzia, s. f. Colecção de seis.│Pequena quantidade; pequeno número.

Gralhas místicas

Acautelem-se

«Entre os cabalistas e os hassidianos crê-se que o mal se infiltrou no nosso mundo através da frincha minúscula de uma simples letra errada», George Steiner.

Arquivo do blogue