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É sábia aquela autora que recomenda que nunca se deve levar uma criança a um hipermercado. Esquecido desta lição de bom senso e do próprio nome da autora, fui às compras com um sobrinho, criança de tenra idade. Na secção da fruta, por força o mafarrico quis comprar abacates. Achei que não e tentei argumentar: «Não vês que isto não são frutos, mas os tomates de um macaco sul-americano?» Eu sei que nunca devemos mentir, mas não é inteiramente mentira. A palavra «abacate» vem do nauatle ahuacatl, que significa precisamente testículo. «E são verdes?!»
Ultimamente, o Centro Comercial Colombo deixa-me aqui na caixa do correio a revista que publica quinzenalmente, a Certa. Se calhar fazem mal. Vejamos a edição n.º 69, de 25 de Abril a 7 de Maio. «Londres a par e passo», titulam na página 36. O texto é de Miguel Satúrio Pires. Acontece, porém, que a expressão correcta é «pari passu», que é uma locução latina e deverá ser grafada como tal. Se quiser escrever português, escreva «a par», «a passo igual», embora o contexto me pareça pedir outra coisa. E a propósito desta, lembro-me da também locução latina «grosso modo», que é quase sempre pronunciada e escrita como se de português se tratasse. Grossa asneira!
Imagem: http://fumacas.weblog.com.pt/arquivo/083681.htmlPuro e duro
Entre os usos das aspas não está — e se estivesse, escrever estaria muito acima das nossas forças — o de assinalar que estamos perante uma acepção secundária de um vocábulo. Para começar, desde logo, porque não existe essa coisa de «acepção secundária». Alguns vocábulos são polissémicos, mas as acepções nos verbetes desses vocábulos poderão ter uma ordem diferente de dicionário para dicionário. Para me reconduzir ao exemplo que quero usar, pensemos no vocábulo «havano». Se consultarmos uma qualquer edição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, lê-se: «havano, adj. e s. m. o m. q. havanês; diz-se de um charuto fabricado em Havana ou semelhante a este (De Havana).» Se optarmos, porém, por consultar o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências, podemos ver que as acepções se repartem por dois verbetes diferentes, e bem. Vamos ao exemplo.
«Era uma vez Luciano Liggio, aliás Lucianeddu, pintor de quadros, fumador de “havanos” e leitor de textos de Santo Agostinho» (Expresso/Única, «Pobre mafioso», texto de Rossend Doménech, tradução de Aida Macedo, 22.4.2006, p. 26). Para que servem aqui as aspas? Afinal são havanos ou não são? Se não são, porque são apenas charutos semelhantes ao havano, isso está previsto na definição: «charuto fabricado em Havana ou semelhante a este». Ou pretender-se-á insinuar que o mafioso fumava outras coisas? Nesse caso, seria o verbo fumar que precisava das aspas. Mas não é assim, e por isso as aspas são completamente escusadas. Devo dizer que este uso abusivo das aspas não é tão raro quanto se possa pensar. Comecem a reparar nisso.

Um país, três línguas?
«Flores e velas relembram acidente nuclear de Tchernobil», Público, 27.4.2006, p. 26.
«Cancros de Chernobyl estudados em Portugal», Diário de Notícias, 26.4.2006, p. 14.
«Filhos de Chernobil», Expresso/Única, 22.4.2006, p. 45.
Parece, contudo, que não devia ser nada disto, mas Chornobyl, transcrito do vocábulo ucraniano Чорнобиль, com a ajuda da tabela de transliteração do alfabeto cirílico, acima. Seja como for, eu escrevo sempre «Chernobyl», embora não me repugnasse, naturalmente, escrever «Chernobil», por razões óbvias. Nunca escreveria, contudo, como faz o Público, «Tchernobil». E porquê, pergunta? É verdade que a primeira consoante é africada (1) (a mãe da minha sogra, beirã nascida em 1890, dizia convictamente «tchave»), mas que não tem actualmente representação gráfica nem linguística na nossa língua (2). O mais provável é o Público estar a seguir, como também faz em relação a «Tchetchénia», cegamente a transliteração francesa (3): «Le bilan de Tchernobyl s’alourdit en Europe», Le Figaro, 21.4.2006.
(1) Diz-se da consoante oclusiva de oclusão imperfeita.
(2) É de Paul Teyssier a afirmação (que não consigo localizar: será do Manual de Língua Portuguesa, da Coimbra Editora? Fica a dúvida) de que em galego-português e em leonês ocidental a consoante inicial seguida de l palatal deu origem à africada [ts], que foi transcrita em galego-português por ch, donde, por exemplo, chaga ([tsaga]), chave ([tsave]) e chama ([tsama]).
(3) Num site inglês, vejo (e traduzo): «CHERNOBYL, ver CZARNOBYL. Pequena cidade junto do rio Pripet, na Ucrânia, a 20 verstás [medida itinerária russa equivalente a 1067 metros] da confluência do Dnieper e a 120 de Kiev […].» A segunda forma pretende representar a africada, que nós não temos.
Imagem: http://www.stadiumguide.com/Alegria no trabalho
O repórter da TSF presente no estádio Stamford Bridge, em Londres, estava radiante, esfuziante, eléctrico. A acompanhar os jogos do Chelsea, afirma, «há sempre pessoas de todas as variedades». Entrevista uma inglesa que veio de York, que pelos guinchos parece ser fã incondicional de José Mourinho. Mas esperem, o nosso repórter, também ele quase aos guinchos, encontrou alguém, no meio de tamanha «variedade», ainda mais fantástico. Ouçamo-lo: «Até aqui está um argeliano!» Isto é o que se pode designar, com toda a propriedade, variações sobre um erro: é relativamente comum dizer-se e escrever-se «algerino» e «algeriano», mas «argeliano» derrota todas as nossas esperanças de os jornalistas, cuja ferramenta de trabalho é a língua, respeitarem o português e os Portugueses, seus concidadãos.
Imagem: http://www.iac.sp.gov.br/Sumarentas
Quem não gosta de tangerinas? De uma forma geral, aliás, todos os Marroquinos são simpáticos. Agora a sério: já se lembra que o gentílico relativo a Tânger é tangerino? Pois o fruto designado tangerina tem tudo que ver com o caso. Inicialmente, esta variedade de laranja era apenas produzida no Norte de África, de onde era exportada para a Europa a partir do porto marroquino de Tânger. Por isso, de início ficou conhecida como «laranja tangerina», isto é, «tangerina» era então um adjectivo. Mais tarde, omitiu-se o vocábulo «laranja», bastando o gentílico para designar este belo citrino. O termo «tangerina» é, pois, um epónimo — vocábulo que surgiu a partir de um nome próprio. Também noutras línguas ocorreu a mesma evolução: em inglês, primeiro, tangerine orange, e depois apenas tangerine; em espanhol, primeiro, naranja tangerina, e depois somente tangerina.
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