Sociedade: educação

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      «O PISA (Program for International Studente Assessment), o maior estudo internacional a avaliar as competências e conhecimentos dos estudantes de 15 anos, tem colocado a Finlândia no topo da tabela dos melhores resultados. Agora, uma investigação mostra que muitos jovens deste país lêem jornais com frequência. E que esse facto ajudará a explicar os desempenhos excepcionais. Até no caso da matemática.
[…]
      «Elevados níveis de leitura de jornais apareceram também associados a melhores competências a matemática e à destreza na resolução de problemas ― “em parte isso será explicado com o facto de também nestas matérias os testes do PISA proporem tarefas que estão ligadas, com a ajuda de textos, a situações do dia-a-dia.» («Leitura frequente de jornais associada aos bons resultados dos alunos na escola», Público, 5.3.2006, p. 31)
      «O pecado original da Linguística foi o de se afirmar contra a Literatura. Ainda hoje, no ensino do português, há quem receie o cânone literário, por considerá-lo perigoso e manipulador. Também há quem entenda que a disciplina de Português deveria ser distinta da de Literatura. E há ainda quem resvale já para a aceitação de uma norma correspondente à transmitida pelos jornais, pela rádio e pela televisão, embora a comunicação social seja o maior viveiro de erros e imbecilidades de que o país dispõe nesta matéria…» («A gripe das aves e os manuais de português», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 8.3.2006, p. 10)
Mudamos de país ou de imprensa? Mudamos de métodos ou de professores? Mudamos de programas ou de políticos? Como escreveu uma vez Miguel Esteves Cardoso, as únicas alterações bem-vindas são as que vêm alterar as alterações anteriores. A avaliação e certificação prévias da qualidade dos manuais escolares ainda nos conduzirão bem perto do melhor do negregado livro único: nas palavras de Vasco Graça Moura, no artigo citado, à promoção de «manuais elaborados no respeito pelos programas e aferidos e adoptados com rigor científico e pedagógico».

Curiosidade: leitura

Parece simples...

Para avaliar até que ponto o trabalho de um revisor de texto é dificultado até por processos mentais, leia o seguinte texto:

Sguedno um etsduo da Uinvesriadde de Cmabgirde, a oderm das lertas nas pavralas não tem ipmortância qsuae nnhuema. O que ipmrtoa é que a prmiiera e a utlima lreta etsajem no lcoal cetro. De rseto, pdoe ler tduo sem gardnes dfiilcuddaes... Itso é prouqe o crebéro lê as pavralas cmoo um tdoo e não lreta por lerta.
In O Brasileirinho, n.º 55, Janeiro de 2006, p. 54.

Concordância

Explique isso melhor

      Título do jornal Público (6.3.2006, p. 22): «Peru processa Yale para reaver peças inca». No corpo da notícia, podia ainda ler-se: «A universidade diz que Yale propôs organizar exposições de objectos inca em Yale e num novo museu a construir no Peru.» «Peças inca»? «Objectos inca»? Que espécie de concordância temos nós aqui? É verdade que nos últimos tempos a vejo muito em livros e jornais, o que me causa alguma perplexidade. Em português, os adjectivos concordam com os substantivos. O jornalista deveria ter escrito «peças incas» e «objectos incas», pois que «inca» é um adjectivo. Deve haver aqui confusão com as locuções verbais ou palavras compostas por justaposição, como em escola-modelo, por exemplo, em que entre os dois termos há uma relação de subordinação. Nesses casos, porém, ocorre o oposto: o segundo termo, que é um substantivo, passa a ser encarado, tendencialmente, por evolução regressiva, como um adjectivo.
      Se o jornalista for moçambicano ou angolano (mas está a escrever para os Portugueses…), não será de surpreender: nestes países, com a interferência das línguas bantas, a língua adoptou novas soluções, e entre elas o uso da desinência do plural só com o artigo ou com o primeiro nome de uma sequência:

Os engenheiro das obra ganham muito dinheiro.
Engenheiros esperto ganham bem.

Léxico: martinicano

Não me parece

      «Harry Roselmack tornar-se-á um dos raros jornalistas negros a apresentar um telejornal num canal francês, a par de Audrey Pulvar, igualmente de origem martinica, que desde 2005 é pivô do canal France 3» («TF1 lança pivô negro no jornal das 20.00», Diário de Notícias, 8.3.2006, p. 39). Ó senhor jornalista, o adjectivo relativo a Martinica é «martinicano»; o adjectivo pátrio reduzido, martinico. «O martinico-inglês Harry Roselmack...» Vamos lá vencer essa inércia e estudar um pouco mais. Nós merecemos, caramba (já lá têm o adiantamento: 0,85 euros).

Verbo haver

Eu bem dizia…

      O leitor João Cavaco mandou-me a seguinte questão: «Não vai haver despedimentos na Função Pública» ― frase dita pelo senhor ministro da Presidência Dr. Pedro Silva Pereira. Porque tal frase me deixou alguma confusão, admitindo eu que a forma mais correcta seria: “Não vão haver despedimentos...”, aproveito esta oportunidade para solicitar os seus esclarecimentos, que presumo sejam mais apropriados.»
      Embora eu já aqui tenha tratado («Agora já percebi» e «Será que ouvi bem?...») do verbo «haver» e das desventuras de que padece às mãos dos falantes, esta é uma excelente oportunidade para chamar a atenção para o efeito perverso que os erros, sobretudo os difundidos pelos meios de comunicação, têm. De tantos disparates ouvirem, as pessoas já não vão sabendo o que está certo e o que não está. Neste caso, porém, está correctíssimo: o verbo haver só se conjuga no plural quando substitui, como auxiliar, o verbo ter, o que não é o caso.

Topónimos/pontos cardeais/cores

A próxima tortura

      Veio parar-me às mãos (eu também vou ao dentista…) a edição de Fevereiro da revista A Próxima Viagem. Ora vejamos lá uma frase, só uma: «É nestas ilhas situadas em pleno Oceano Atlântico, a Norte das Antilhas, que nos deparamos com um fenomenal quadro: Praias de areia cor-de-rosa (sim, é verdade) rodeadas de águas absolutamente turquesas.» Falava-se das Bermudas, isso nem os erros conseguem obscurecer. A jornalista Cátia Matos devia saber que os nomes comuns que acompanham os nomes dos acidentes geográficos se grafam em minúscula («oceano Atlântico»), os pontos cardeais e colaterais quando apenas designam direcções se escrevem com minúscula («a norte das Antilhas»), depois de dois pontos não tem de se escrever, neste caso, a primeira palavra com maiúscula e que, na verdade, as águas seriam «turquesa», pois de acordo com os melhores gramáticos (Evanildo Bechara ou Mário Barreto, por exemplo), quando usados de forma adjectival, os substantivos que designam cores só têm singular. Não direi nada, por ora, da pontuação. Passe a palavra aos seus colegas, todos eles estão a precisar de saber o mesmo, ou terei de mudar de dentista.

Locução: obras de arte

Da arte de dizer

      Tenho lido alguns artigos em que aflora a estranheza pelo título do programa de Paulo Portas na Sic Notícias, O Estado da Arte. Ontem, também a mim me perguntaram o que significa. Parece ser a tradução do inglês (li um artigo no mesmo sentido no Público) state of the art, locução com que se define o nível mais elevado de desenvolvimento num tempo definido*.
      Escrevo, porém, este texto para referir outra ambiguidade: nos últimos dias, tem-se falado muito, novamente, do estado das pontes em Portugal. Pelo menos na SIC, uma notícia aludia às «obras de arte», assim, sem mais. Mesmo no contexto, quem sabe do que se trata? Os jornalistas, já aqui o afirmei uma vez, deliciam-se com estas expressões e com palavras invulgares, quando deviam ser os primeiros a descodificar, a explicar, a traduzir. Este comportamento, contudo, não é regra. Sobre o mesmo assunto, leio uma notícia no Público («Programa de obras em pontes arrasta-se cinco anos depois da tragédia de Entre-os-Rios», Luísa Pinto, 4.3.2006, p. 26) em que se escreve: «Nos três meses seguintes à tragédia foram vistoriadas 354 obras de arte (termo técnico que inclui passagens agrícolas e de peões, bem como viadutos e pontes; em Portugal há 5600) com o objectivo de avaliar as condições de segurança de cada uma delas.» Isto é bom jornalismo.

* Tomemos, por exemplo, a locução «state-of-the-art equipment»: é comum vê-la traduzida, e a meu ver bem, como «equipamento de ponta», ou «equipamento topo de gama». «This is a state-of-the-art» podemos traduzir como «é o último grito», e referimos a área em que isso acontece.

Neologismo: inumeracia

Vamos inventar

      Tenho andado, suspeito, um pouco distraído. José Júdice, cuja crónica n’O Independente tento nunca perder, por considerar que estamos perante um dos grandes cronistas do nosso tempo, escrevia numa das últimas edições deste semanário: «O sr. Taheri revela, claro, além de uma presunçosa inumeracia, uma abominável ignorância.» A polémica era, percebe-se, as afirmações irresponsáveis e estúpidas do embaixador iraniano em Portugal a propósito de quantos judeus tinham sido assassinados no Holocausto. José Júdice, acutilante, designou por «inumeracia» esta ignorância, palavra formada por analogia com «iliteracia».
      A pergunta que se impõe é: fazia falta este vocábulo? Em termos latos, a iliteracia abrange a falta de domínio das operações aritméticas fundamentais*, e nesse sentido talvez não faça falta. Claro que, sendo um termo mais específico, faz falta, objectar-me-ão. A outra pergunta é: e a língua não tinha já um vocábulo que veiculasse o mesmo conceito a que José Júdice pudesse ter recorrido? A pergunta é longa, a resposta, curta: sim. Está dicionarizado: «inumerismo». «Inumeracia» quase só na Internet se deixa ver.

* Não confundir com discalculia, que é a perturbação, semelhante à dislexia, relativa a uma dificuldade na simbolização dos números e na capacidade aritmética.


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