Derivação imprópria

Um porto no Porto

      A minha sogra lê sempre a revista ¡Hola!, o que a torna cada dia não apenas mais proficiente em espanhol, o que dá jeito na época das «rebaixas», como especialista (caseira, claro) em genealogia das casas reais europeias (a desculpa dela, é claro, é outra: está farta, suspira, das mentiras portuguesas!). Há dias surpreendi-a a ler um «Especial San Valentín» e sobretudo uma receita de «frambuesas al oporto con cubitos de trufa». É este «oporto» que me interessa.
      Em português, à mudança gramatical em que um substantivo próprio passa a substantivo comum, ou vice-versa, dá-se o nome de derivação imprópria (1). A questão é que esta alteração também afecta — ao contrário do que muita gente defende, vá-se lá saber porquê — graficamente a palavra. Assim, direi: «Quando vou ao Porto, apenas bebo porto.» «O meu amigo Rato não gosta, helás, de ratos.» «O inspector fuma tabaco virgínia?» «Aquele missionário era, todos o reconheciam, um anchieta.» «Dantes sim, bebia-se um bom bucelas. Mas agora? Nem em Bucelas!» «O meu bisavô, que fez a Primeira Guerra Mundial, usava um comprido úlster, o que lhe dava uma aura de cavalheiro distinto e rico a que muitas mulheres sucumbiram.» Há muitos mais substantivos comuns (estes são os que mais interessam para o caso) que derivam de nomes próprios, topónimos ou antropónimos. Lembremos apenas alguns:


— balaclava
— bordéus
— borgonha
— borsalino
— bóston
— breda
— bristol
— caim
— carcavelos
— carrasco
— catão
— colares
— cremona
— estradivário
— florença
— gargântua
— garibáldi
— garnisé
— gobelino
— holanda
— iscariotes
— madeira
— málaga
— mecenas

— mélton
— messalina

— nanquim
— reno
— riga
— ruão
— salazar
— sauterne
— sósia
— vichi
— xangai
— xerez

— zoilo


(1) A derivação imprópria abrange não apenas a mudança dos substantivos próprios em comuns, e vice-versa, como disse acima, mas também a transformação de adjectivos em substantivos e o contrário; a transformação de substantivos, adjectivos e verbos em interjeições; verbos em conjunções; adjectivos em advérbios; particípios presentes em preposições e em substantivos; particípios passados em substantivos e adjectivos. É, a par de outras, uma fonte de enriquecimento da língua.


Iliteracias

Previsão do passado

      Numa fila para adquirir o livro de reclamações, é entrevistada uma senhora. Pergunta a repórter: «Há quanto tempo está à espera?» Resposta: «Não posso prever, mas para aí há uma hora.» Não entendeu a pergunta ou tem uma pessoalíssima teoria do tempo? Nunca o saberemos, já que a repórter não aprofundou a questão.

Promoção vs. «teaser»

Estamos salvos

      Aquilo a que o Diário de Notícias chama teaser, como tive oportunidade de escrever aqui no dia 4 de Janeiro («Estrangeirismo: “teaser”»), o 24horas prefere chamar, com muito mais acerto, «promoção». Vejamos, na edição de 22 do corrente, na página 41: «As promoções à estreia do “Gato Fedorento” na RTP1 já arrancaram.» «Santana Lopes já viu a promoção do Gato Fedorento em que aparece.» «Mas José Sócrates não quis comentar esta sua presença na promoção.» No mesmo artigo, mais vezes se usa o vocábulo «promoção», mas já se percebeu como é consistente o uso.
      No mesmo artigo, surge também a redução vocabular «promo»: «O antigo primeiro-ministro conta que, na terça-feira à noite, viu a promo por acaso.» Todavia, e pese embora tratar-se de termo de jargão da área do marketing, este uso não me parece censurável, pois a língua já incorporou, sem mesmo termos plena consciência disso, outras reduções ou abreviações substantivadas, como será mais correcto designá-las: metro por metropolitano; zoo por zoológico; cinema por cinematógrafo, foto por fotografia, pneu por pneumático, quilo por quilograma, moto por motocicleta, etc. A língua francesa é rica nestas abreviações e nós, é claro, importámo-las, não já pelo paquete do Havre, mas imitando-as sem pejo nem remorso lendo revistas e jornais, vendo cinema e televisão e, a forma mais avassaladora, convivendo com os Franceses. Será este uso empobrecedor da nossa língua? Não creio: todas as formas continuam a usar-se e a estar registadas nos dicionários.

Verbo reunir-se

Devolva o dicionário

      «De manhã bem cedo, perto das 8h30, [Jaime Silva, ministro da Agricultura] reuniu com o director-geral de Veterinária, Agrela Pinheiro», escrevia ontem no 24horas a jornalista Patrícia Correia Branco (pág. 47). Nossa Senhora da Agrela nos valha? Não: São Francisco de Sales valha à jornalista! Tanto quanto sei e me lembro, o verbo reunir-se, na acepção da frase, é conjugado reflexamente. Conjugar-se-ia transitivamente, por exemplo, na frase «De manhã bem cedo, perto das 8h30, o ministro da Agricultura, Jaime Silva, reuniu todas as aves contaminadas e incinerou-as». Bem sei que já há dicionários a registar o contrário — mas eu não vou deixar de dormir descansado por causa disso (como diria Manuel Alegre).

Verbo precaver

Casa de ferreiro

      O erro de que trato neste texto surgiu ontem no jornal 24horas, que agora tem, e ainda bem, uma coluna sobre a língua («Ai esta Língua traiçoeira…»). «Ainda por cima, o homem não se precaviu […].» (p. 18) Não, meus amigos, não está correcto: o jornalista deveria ter escrito «precaveu». Aqui fica o pretérito imperfeito do indicativo do verbo precaver, para lembrete de todos.

Pretérito Perfeito do Indicativo

precavi
precaveste
precaveu
precavemos
precavestes
precaveram


Verbo «intervir»

Elle há cada uma

      Caiu-me nas mãos a edição de Dezembro da revista Elle, um magnífico catálogo de produtos de moda. Começa logo por escrever com minúscula o nome dos meses («dezembro 2005», p. 248). No artigo «John Lennon, o quinto elemento», da autoria de João Tordo, podemos ler: «As ondas de protesto levantaram-se [na sequência da afirmação de John Lennon, em 1966, de que os Beatles eram mais populares do que Jesus Cristo], com os grupos conservadores a queimarem discos dos Beatles; e até o Vaticano interviu, denunciando os comentários de Lennon.» (pág. 84) Na oralidade, e proferido por um analfabeto, admito; um jornalista não tem qualquer desculpa para conjugar desta forma o verbo intervir.
      Claro que o texto tem outras fragilidades. Na página 82 pode ler-se: «O dia 8 de Dezembro de 1980 marca o 25.º aniversário da morte de Lennon.» Explique lá isso melhor, senhor jornalista. Os tempos verbais também não são usados com inteira propriedade («Foi no mesmo ano em que toda a gente se plantou em frente aos ecrãs para saber quem matou J. R. Ewing […].»), os erros ortográficos estão presentes («catalizador»), a translineação tem incorrecções (o revisor devia estar de folga), etc.
      Só para lembrar, deixo aqui a conjugação do pretérito imperfeito do indicativo, o tempo verbal mais trucidado.

Pretérito Perfeito do Indicativo

intervim
intervieste
interveio
interviemos
interviestes
intervieram

Igualdade

Lições da História

      Na semana passada, publiquei aqui um texto sobre a «igualdade de género», levada ao ridículo por Ana Sara Brito. Queria hoje acrescentar que, curiosamente, a primeira mulher a votar em Portugal, a 28 de Maio de 1911, a médica ginecologista Carolina Beatriz Ângelo, sufragista e fundadora da Associação de Propaganda Feminina, perante o que a lei eleitoral da época consagrava sobre os eleitores (tinham direito de sufrágio «os cidadãos portugueses com mais de 21 anos que soubessem ler e escrever e fossem chefes de família»), argumentou que o plural masculino da expressão «cidadãos portugueses» inclui homens e mulheres e invocou a sua situação de viúva e mãe, e por isso chefe de família, conseguindo assim que um tribunal a autorizasse a votar. Ora, o que Ana Sara Brito agora faz é precisamente o contrário: ao arrepio da gramática e da tradição, diz enfaticamente «as ouvintes e os ouvintes», «aquelas e aqueles», «as jornalistas e os jornalistas», «as cidadãs e os cidadãos», «as portuguesas e os portugueses», e por aí fora. Haja paciência.

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Imagem: http://www.auto-sueco.pt
Pois claro

      Sempre a publicidade e os seus erros. Desta vez, o anúncio é da Volvo, e diz: «Escolher a prancha é difícil. Escolher o carro não.» O «carro não»? Estão então a dizer mal dos automóveis que eles próprios fabricam, é isso? Para eles, qual é o «carro sim»? Talvez um BMW, não? Caros amigos da agência criativa FL Europe: antes do advérbio não teriam de pôr uma vírgula, que serviria justamente para marcar a elisão do verbo, como quem diz: «Escolher a prancha é difícil. Escolher o carro não é difícil.» Logo, correctamente seria: «Escolher o carro, não.»

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